quarta-feira, 6 de novembro de 2013

LUANA: A HISTÓRIA DE UM PROJETO PIONEIRO

A primeira heroína negra dos quadrinhos brasileiros luta há mais de uma década, para que nossas crianças sintam orgulho de sua cor, de sua origem e de seu país 


SURGE UMA IDEIA
Quando Aroldo Macedo, criador da revista RAÇA, recebeu o desenhista Arthur Garcia em sua sala, não poderia imaginar o que surgiria a partir dali. Discutindo sobre o mercado de quadrinhos e uma proposta de publicar HQs nas páginas da revista, vem a ideia:
— E se criássemos uma menina negra?— sugere Aroldo.
Nascia ali, uma heroína, com a difícil missão de elevar a auto-estima das crianças negras de todo o Brasil.

"No processo de construção da personalidade humana,
o papel das referências é fundamental.
Quem não se vê não tem como se reconhecer.
Quem não se reconhece não tem como se identificar.

Essa personagem é Luana, tem oito anos, é capoeirista e mora em Cafindé, vila fictícia remascente de um quilombo.  Sua turma de amigos é miscigenada, demonstrando claramente a intenção de não ser um projeto direcionado só às crianças negras, mas sim à todo o publico infantil. O diferencial é que a protagonista é negra. Além de seu irmão Zeca, Luana tem como companheiros de aventuras, Luisinho, também negro, o neto de japonês Fugiro, o ruivo Pipoquinha, a morena clara Rebeca e o cachorro Sultão. E como não poderia faltar, tem Fumaça Mortal, um vilão capaz de tudo para destruir o meio ambiente e acabar com o mundo.

Arthur Garcia, um dos maiores desenhistas brasileiros, ganhador de prêmios no Brasil e no exterior, tratou de passar tudo para o papel, criando o visual de todos os personagens.

Para criar as histórias, Aroldo convidou o escritor e jornalista Oswaldo Faustino, um especialista em cultura afro-brasileira, e que deu o toque lúdico às histórias da personagem: um berimbau mágico, que funciona mais ou menos como o pó de pirlimpimpim do Sítio. Toda vez que Luana está em dificuldades ou deseja viajar no tempo e no espaço, ela o toca, sendo então transportada para lugares inimagináveis.



Capa do livro LUANA - A MENINA QUE VIU O BRASIL NENÉM, de Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino. Ilustrações de Arthur Garcia. Editora FTD, 2000.

O PRIMEIRO PASSO

Formada a trinca de autores, saiu o primeiro fruto do projeto: o livro LUANA-A MENINA QUE VIU O BRASIL NENÉM. Lançado em março de 2000 durante a Bienal do Livro, a publicação apresenta a primeira viagem de Luana através de seu berimbau mágico. Voltando no tempo, ela chega exatamente na hora em que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil.

A obra tornou-se um sucesso rapidamente, sendo adotada em várias escolas e motivou a pequena equipe a dar um passo ainda maior. Luana precisava fazer parte do universo de personagens infantis, tornar-se uma referência, um espelho em que a criança negra pudesse se ver, se sentir representada.

"Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e
ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz Nobu Chinen, historiador e pesquisador, autor da tese de doutorado O papel do negro e o negro no papel: representação e representatividade dos afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros (ECA-USP).

Folheto promocional distribuído durante a Bienal do Livro de 2000, anunciando o lançamento do gibi. Desenhos de Arthur Garcia.

Alguns podem apontar como sendo Pelezinho, o primeiro protagonista negro das hqs. Porém, a figura do personagem estava calcada no sucesso do atleta e jogador de futebol. Fato semelhante aconteceu na TV, quando tivemos a primeira protagonista negra em uma novela. Taís Araújo em Da Cor do pecado (Globo, 2004). Muitos disseram que ela mesma já teria sido protagonista anos antes com Xica da Silva (Manchete, 1996). Porém, ali era contada a história da escrava que viveu no século XVII, em Diamantina. Obviamente não poderia ser interpretada por uma atriz branca. Tais Araújo na novela (com a personagem de nome Preta) e a menina Luana nas HQs, tem como semelhanças, serem protagonistas por si só. Sem representarem nenhuma figura conhecida, da história ou dos esportes. São elas mesmas. Sem levantar bandeiras.

Capa do primeiro número do gibi. Ilustração de Anaise Valente

Em junho do mesmo ano, chega às bancas o primeiro número da revista LUANA E SUA TURMA.
 Para bancar tal empreitada, Aroldo investiu cerca de R$ 400 mil, deixou o cargo de editor-chefe da RAÇA, e abriu a empresa TRONICS, voltada para este e outros projetos. Em um belo sobrado da Alameda Jaú em São Paulo, montou escritório e um estúdio para produzir a revista. O projeto completo incluía além da publicação, o lançamento de uma coleção de livros infantis, merchandising, um CD e desenhos animados para televisão.

Com tiragem de 30 mil exemplares, a revista de 32 páginas conta com duas HQs, passatempos, cartas dos leitores e a seção “Causos da Vovó Josefa”, em que a avó da Luana conta histórias e lendas sobre o continente africano na forma de contos ilustrados.

Luana virou matéria de capa do Caderno DOIS do Correio Brasiliense

O consagrado escritor Julio Emílio Braz, se juntou a Oswaldo Faustino e Aroldo Macedo na criação dos roteiros. Arthur Garcia, Mingo de Souza, Mig (da equipe do Ziraldo) e Sérgio Morettini, nos desenhos. Silvio Spotti e Alex Silva na arte-final. Capa da ilustradora Anaise Valente. Lilian Mitsunaga fez a arte do título da revista. E eu, Alexandre Silva, fui encarregado de colorizar todas as histórias e também de diagramar e letreirar toda a edição.

Um excepcional projeto de divulgação foi colocado em prática, que incluía folhetos, matérias em jornais e revistas, entrevistas no rádio e na TV, e até anúncios em ônibus (na época era permitido).

Matéria do jornalista Camilo Vannuchi publicada na revista ISTOÉ, nº 1612. 23/08/2000

 O número dois, contou com o apoio da Editora FTD na impressão e teve modificações na equipe, que ficou mais enxuta. Arthur Garcia, supervisor e editor de arte da revista, se desliga do projeto. Entra para a equipe Dejair da Mata, profissional com passagem pelos estúdios MSP e Senninha.
Mingo de Souza, assina contrato com Ely Barbosa (1939-2007) e também deixa a equipe. Mesmo assim, é dele a hq principal da edição, uma história de 14 páginas em que Luana enfrenta uma invasão de hackers em seu site, comandada pelo vilão Fumaça Mortal.  
Miguel Mendes Reis (Mig) fica com a seção“Causos da vovó Josefa”, produzida no seu estúdio, no Rio de Janeiro. Na arte final entra Nelson Mendonça.

Mãe! Eu sou parecida com a Luana! - exclama uma menina ao ver o gibi.

Página do número 2 da revista LUANA E SUA TURMA. Desenhos de Mingo de Souza

E SURGEM OS PROBLEMAS....COMUNS, EM SE TRATANDO DE HQ NACIONAL
A revista sofreu para se destacar nas bancas, seu único canal de vendas. A distribuidora era nova no ramo, e não atingia todo o território brasileiro. Além do mais, a revista era uma publicação independente. Não tinha a força e o apoio de uma grande editora. Uma tentativa de solucionar o problema, foi a troca de distribuidora a partir do número 3, quando a Fernando Chinaglia assumiu esse trabalho. Porém nessa época, para baixar os custos de produção a tiragem já era menor, o que fez com que os problemas em bancas continuassem.

Lançada com periodicidade mensal, a revista só conseguia chegar às bancas a cada três meses, agravando ainda mais a situação. Sem condições de prosseguir, Aroldo Macedo interrompeu a produção da revista, após o lançamento da edição 6 (setembro de 2001). O mercado em bancas nessa época, já não era dos melhores, e os projetos para a TV e produtos, caminhavam a passos lentos. Mesmo assim, considera-se um feito e tanto uma publicação independente alcançar essa marca, com alto custo gráfico e de distribuição e enfrentando títulos fortes nas bancas.


Educadoras de uma creche em São Paulo, montam uma peça infantil baseada na HQ "A BOLHA", publicada no número 2 da revista.


ENFIM, A LEI
O projeto ficou parado por dois anos. Até que em 2003, é promulgada a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino sobre a história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio.

O Projeto LUANA é retomado, com nova perspectiva. Os seis números da revista retornam ao mercado, com vendas dessa vez apenas pela internet e dirigidas somente a escolas, bibliotecas e Secretarias de Cultura. Também foram criadas oficinas para a capacitação do ensino multicultural, ministradas pela equipe técnica do projeto, sob coordenação de Aroldo Macedo.

Capas da segunda fase da revista, com vendas apenas pela internet.

LUANA volta com força total. A produção da revista é retomada a partir da edição 7. São lançadas seis novas edições simultaneamente.

Em fevereiro de 2004, a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, adquiriu 142.000 revistas em quadrinhos da LUANA, para serem distribuídas nas escolas. Devido ao sucesso, as primeiras edições da revista tiveram de ser reimpressas e um novo livro foi lançado, LUANA E AS SEMENTES DE ZUMBI.


   
Produzida de forma independente, a obra de autoria de Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino, conta com ilustrações de Mingo de Souza (que retornara ao projeto) e com minha edição de arte. No livro, Luana viaja no tempo e retorna a Palmares, encontrando-se com o líder Zumbi.

Em outubro de 2005, a Secretaria Municipal de Educação de Salvador, adquiriu 30.000 exemplares do gibi e montou um kit para distribuição entre os alunos da rede pública. Além dos gibis, também fez parte do kit, o novo livro. Foi realizado também o seminário ESQUECERAM DE MIM, para cerca de 200 educadores, com a missão de prepará-los para aplicar o material em sala de aula. Aliás, Salvador foi a primeira capital do país a implantar o ensino da cultura afro na rede pública.

 Alunos de escola pública de Niterói, participando de atividade em sala de aula,
com os gibis da LUANA.

No mesmo ano, Niterói, no estado do Rio, também adota os gibis e os livros para seus alunos.
O Projeto LUANA torna-se referência no ensino e difusão da cultura negra para crianças.
Em 2006, o projeto acaba sendo indicado ao 18º TROFÉU HQ MIX, na  categoria de melhor revista e publicação infantil. Tudo isso chamou a atenção da Editora FTD, que acenou com uma proposta para criar uma coleção de livros da personagem, a partir do primeiro lançado em 2000.



O COMEÇO DE UM GRANDE SUCESSO
A editora comprou então os direitos de publicação do SEMENTES DE ZUMBI e o relançou em 2007, junto a reedição do primeiro. Com novas capas e acompanhados de um suplemento de trabalho, os títulos compunham a coleção AVENTURAS DE LUANA, apresentada ao público na Bienal do Livro e no Salão do Livro para crianças e jovens, ambos realizados no Rio de Janeiro.

 Coleção AVENTURAS DE LUANA, Editora FTD

Também em 2007, é lançado CAPOEIRA E LIBERDADE, terceiro título da Coleção, este com produção da FTD e ilustrações de Miguel Mendes Reis (Mig). Nele, Luana volta no tempo para resgatar um velho berimbau perdido e aprende ainda mais sobre a cultura de seu povo.

Nesse mesmo ano, a produção dos gibis é retomada, com mais seis números de histórias inéditas. O escritor Julio Emílio Braz retorna ao projeto, adaptando contos para a seção “Causos da Vovó Josefa”, com ilustracões de Anaise Valente

Com a série de gibis alcançando a marca de 18 edições publicadas, o projeto é adotado pelas cidades de Osasco, Araraquara e Olímpia em São Paulo e Contagem em Minas Gerais.
Em 2010, mais um livro é lançado pela FTD: ASAS DA LIBERDADE, com ilustrações de Mig. Nele, Luana viaja no tempo e acompanha o sofrimento de seus antepassados africanos e luta ao lado de José do Patrocínio pela libertação dos escravos.

 Capas da terceira fase da revista, lancada em 2008. Números 13 a 15.

Ilustração extraída do livro A RODA QUE ILUMINA O MUNDO.
Desenhos de Mingo de Souza. Cores de Alexandre Silva.

E O PROJETO CONTINUA...
Ainda em 2010, três novos títulos são produzidos de forma independente.


Um misto de histórias em quadrinhos e livro infantil. Assim é "A RODA QUE ILUMINA O MUNDO". O livro apresenta uma novidade: dessa vez, Luana viaja para o futuro, atendendo a um pedido de Leonardo da Vinci, para salvar uma cidade prestes a ser destruída. A obra tem a colaboração de dois excelentes artistas: José Wilson Magalhães, arte-finalista com passagens por títulos como Superman e Wolwerine, na arte-final e Fernando Ventura, desenhista e roteirista especializado em quadrinhos Disney, trabalhando comigo na colorização das ilustrações.

 Luana viaja no tempo com seu berimbau mágico e chega a Tecnópolis, no ano de 2519.
Extraído do livro inédito "LUANA E A RODA QUE ILUMINA O MUNDO".
Desenhos de Mingo de Souza. Cores de Alexandre Silva.

O livro HISTÓRIAS DA VOVÓ JOSEFA, é uma reunião dos melhores contos publicados no gibi. Já  TURMA DA LUANA, é uma reedição de algumas HQs, incluindo uma aventura inédita, no formato de álbum para livraria. Todos os três títulos estão inéditos.

Em breve, a revistinha da LUANA também será republicada. Serão oito edições, com as melhores histórias da série.

 Luana faz parte da exposição "O NEGRO NOS QUADRINHOS" em comemoração ao mês da consciência negra. Em cartaz na GIBITECA HENFIL. Centro Cultural São Paulo. 
De 22 de outubro a 15 de dezembro de 2013. Grátis.

Com os quatro livros da FTD adotados por escolas do Brasil inteiro, e a volta das revistinhas, Luana torna-se cada vez mais atuante na educação de nossas crianças,  ensinando a cultura africana, discutindo e trabalhando o racismo na sua origem e transformando-se em espelho e referência para muitas crianças.

E assim o projeto está aí, a mais de uma década. Com muita luta, enfrentando percalços, Luana continua sua caminhada.
Mas como menina negra, guerreira, esperta e capoeirista que é, com certeza vai passar pelas dificuldades com mais confiança, pois não está sozinha.

Junto a ela estão milhares de Luanas...Zecas...meninos e meninas por todo o Brasil, que querem ser respeitados e se orgulhar de sua origem...de seu passado...para assim então, poder construir o futuro...com raça e dignidade.
De cabeça erguida.



Para conhecer a coleção AVENTURAS DE LUANA, acesse:
http://www.ftd.com.br/detalhes/?id=3118

Para comprar os quadrinhos da LUANA:
aroldomacedo@uol.com.br
alexand0901@yahoo.com.br

BIBLIOGRAFIA E AGRADECIMENTOS:
Nobu Chinem
http://papodemacumba.blogspot.com.br/2010/12/por-que-os-herois-nunca-sao-negros.html
cadernodeeducacao.com.br/news/um-mestre-dos-quadrinhos

4 comentários:

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  2. ME APAIXONEI.. QUERO TODAS AS COLEÇÕES...

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  3. Muito bom, merecia mais divulgação... só não da caracterização estereotipada do personagem japonês

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  4. Muito bom, merecia mais divulgação... só não da gostei caracterização estereotipada do personagem japonês

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