quarta-feira, 26 de outubro de 2011

...E NÓS CHEGAMOS LÁ!!!

Acabo de voltar dos Estados Unidos, onde além de descansar, fui conhecer o NEW YORK COMIC CON, um dos maiores eventos de cultura pop do mundo! E fiquei muito feliz com a presença de vários desenhistas brasileiros na chamada "Artist Alley", ou beco dos artistas, local onde os fãs podem conhecer de perto os artistas de seus gibis preferidos. Essa história de brasileiros desenhando hqs de super-heróis para o exterior é antiga, e começou lá no fim dos anos 1980.

O COMEÇO
Voltando bastante no tempo, é bom ressaltar que o reconhecimento do talento de nossos quadrinhistas no exterior é antigo. Entre as décadas de 1980 e 1990, a Editora Abril representada por Waldir Ygaiara, Primaggio Mantovi, Julio de Andrade e Euclides Miyaura exportavam hqs Disney produzidas aqui no Brasil, para vários países, como Itália, Portugal, Espanha, Estados Unidos, entre outros. O Estúdio Disney brasileiro que funcionava dentro da Editora, foi considerado por muito tempo o segundo maior criador de material Disney do mundo. Além, claro, do nosso grande Maurício de Sousa, também reconhecido internacionalmente e exportando suas revistas para muitos países. No fim dos anos 1980, a Agência Commu, da Bélgica, já exportava o trabalho de brasileiros para a Europa, através da publicação de trabalhos autorais de Mozart Couto, Rodval Matias, Cézar Lobo, Júlio Emílio Braz e Arthur Garcia. Foi nessa época que Helcio de Carvalho e JP Martins, fundadores do Estúdio Art & Comics, foram para os EUA com um portfólio embaixo do braço, mostrar seus trabalhos de tradução e adaptação em mais de uma centena de títulos publicadas pela Abril Jovem. Levaram também portfólios de desenhistas brasileiros e após dois anos de tentativas conseguiram o que parecia impossível. Começaram vertendo para o inglês a série "Inferno", novo nome dado a "Paralelas" e Vôo Livre", trabalhos de Watson Portela publicados pela Press Editorial na década de 80. Mas foi o desenhista Marcelo Campos quem realmente abriu caminho, fazendo as 56 páginas mensais da série "DeathWorld" da Adventure Comics.


Reprodução de uma matéria de Franco de Rosa, sobre o início dos trabalhos para os EUA.
Folha da Tarde, 31/01/1991

Campos desenhava de madrugada e ainda trabalhava de dia na Abril Jovem. Além disso ainda assumiu a produção de outra série "Retief and ther War Lord", que deveria ser desenhada por Watson Portela e ele assumiu para não furar os prazos. Chegou a parar no hospital devido ao stress. E ainda era chamado de "vendido" pela turma daqui. Diziam que ele havia traído o mercado brasileiro. Sim, rolou um preconceito. Mas abriu caminho para toda uma geração.

Capa do n. 1 de DEATHWORLD, primeiro trabalho de Marcelo Campos para os EUA.

Página de Marcelo Campos em DEATHWORLD

Anúncio da minissérie PARANOIA, desenhada e pintada por Kipper, uma das primeiras
produções do Art & Comics para a Editora Eternity


Na sequência vieram " Paranóia" com desenhos pintados á mão por Henrique Kipper, "Force One" de Otávio Cariello, "Jungle Love" de Rene Michelleti e "Daddy Does Dallas" de Valdir Fernandes. Todas com capas de Hector Gomez Alísio. De 1990 até 1993, vários artistas da primeira geração de desenhistas agenciados, como Mike Deodato, Luke Ross, Roger Cruz, Klebs Junior, Manny Clark, Ed Benes, Fabio Laguna, e Joe Bennet fizeram trabalhos para editoras como Caos, Eclipse, Inovation, Continuity Comics, e alguns chegaram a levar calotes, coisa que artista brasileiro já estava acostumado.
Estranhou os nomes? Sim, para ingressar no mercado dos EUA, era preciso "americanizar" o nome. Daí Deodato Borges Filho, virou Mike Deodato. Luciano Queiroz virou Luke Ross, e Bene Nascimento, tornou-se Joe Bennett. Só para citar alguns. Isso devido ao fato de o artista brasileiro ser desacreditado lá fora. Achavam que eles não cumpririam os prazos, em uma época que não havia internet. Tudo era enviado por SEDEX.
Mas a partir de 1993, as grandes editoras começaram a se interessar pelo traço brasileiro. Marcelo Campos fez " Liga da Justiça" para a DC, Mike Deodato fez "Mulher Maravilha", Luke Ross fez "New Gods".  Com a internet, começa a ficar mais fácil o contato e surge a segunda geração de desenhistas, revelando o talento de Ivan Reis, Sam Hart, Adriana Melo, Edde Wagner, Eddy Barrows.
Em 1998, surge a Escola Impacto, do pioneiro Klebs Junior, que também começa a agenciar os seus melhores alunos e de lá até hoje revelou nomes como Renato Arlem, Wellington Alves, Carlos Paul, Wagner Reis, Carlos Rafael, Geraldo Borges entre tantos outros.
O surgimento da Quanta Academia de Artes, também colaborou revelando nomes como Renato Guedes, que atualmente desenha o Wolverine para a Marvel. Na década de 2000, começa a aparecer o trabalho dos desenhistas Joe Prado, Greg Tocchini, Daniel HDR, Sérgio Cariello, Eduardo Barros, Paulo Siqueira, Adriano Batista. Os arte finalistas: Oclair Albert e Ruy José. Os coloristas Hermes Tadeu (já falecido) e o excelente Rod Reis.
De 2005 para cá surge a chamada terceira geração, com nomes como Amilcar Pinna, José Wilson Magalhães, Wellington Alves, Diógenes Neves, Ig Guara.
Apesar de Marcelo Cassaro já ter publicado sua série de sucesso "Victory" pela Image Comics em 2003, foi na segunda metade da década que o mercado americano começou realmente a apreciar não só o desenho, mas também os roteiros, as idéias do artista brasileiro. Em 2005, Rafael Albuquerque lança "Crimeland" também pela Image. Rafael Grampá lança "Mesmo Delivery" pela Dark Horse. E chegamos aos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, com a excelente minissérie em dez edições "Daytripper" pela Vertigo/DC, ganhando os principais prêmios daqui e do exterior.

HOJE EM DIA´
Eddy Barrows mostrando seu trabalho nos EUA

Hoje temos também grandes coloristas trabalhando para os EUA. Além do já citado Rod Reis (Art & Comics), temos Ivan Nunes, Cris Peter, Vinicius Andrade, Débora Carita, Bruno Hang, Frank Martim, a maioria agenciada pelo Estudio Impacto.
Perseverança, disciplina, talento e profissionalismo. São as principais exigências para o aspirante a desenhista de hqs para os EUA. Mas convenhamos, depois que essa turma toda aí de cima, trabalhou e fez bonito, acredito que ficou um pouco mais fácil. Nós brasileiros, hoje dividimos as mesas de autógrafos com as feras do quadrinho mundial. Coisa impensável a vinte anos atrás.
Na última Comic Con, realizada no Javits Center em Nova York, pode-se constatar também a grandeza e a seriedade do mercado americano de quadrinhos. Um centro de convenções inteiro dedicados as hqs e seus derivados. Mais de 600 expositores, uma legião de fãs e os curiosos "cosplayers", pessoas que que se vestem como seu personagem predileto, utilizando roupas, armaduras e tudo mais. Um bom lugar para fazer contatos com editoras, artistas, ou simplesmente reencontrar amigos. Jornalistas de vários países fazendo a cobertura, inclusive do Brasil, pois esbarrei nos corredores com Manoel de Souza, editor da Mundo dos Super-Heróis, que estava lá cobrindo o evento.


Eu e meu amigo Nilton Sperb (que me hospedou por lá) entre cosplayers no NYCC


Na chamada "Artist Alley" pude literalmente "tietar" esses meus queridos companheiros do traço e vibrar com o sucesso deles, como mostram as fotos a seguir.
Eu, ao lado do colorista Rod Reis (Aquaman e tantos outros títulos).


Com Joe Prado (Aquaman)


Com Oclair Albert (Demon Knights)


Com o grande Daniel HDR



Com meu amigo Klebs Junior

Com tudo isso, só nos resta esperar os próximos capítulos dessa emocionante saga dos artistas brasileiros de hqs rumo ao reconhecimento internacional, provando que não somos campeões só no futebol, mas também na ponta do lápis e do pincel.

BIBLIOGRAFIA:
-Manoel de Souza. revista Mundo dos Super-Heróis, seção Entrevista, vários números. Editora Europa.
-Franco de Rosa. matéria Quadrinhistas do Brasil invadem os EUA. Folha da Tarde, 31/01/1991.


3 comentários:

  1. Valeu pela cobertura, Alexandre. A internet agilizou muita coisa, mas os prazos são cada vez mais apertados, isso prova a qualidade dos brasileiros que mantém o nível trabalhando mais rápido. Acho que você já é um jornalista de quadrinhos, parabéns.
    Abração,
    W!lson.

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