quarta-feira, 15 de agosto de 2012

KIDNEWS! ...E O QUADRINHO BRASILEIRO INVADIU AS ESCOLAS!



Em uma época em que revistas em quadrinhos de sucesso eram canceladas, devido a recessão econômica provocada pelo governo do então presidente Fernando Collor de Mello, uma grande ideia era lançada, apesar de tudo apontar para ser um retumbante fracasso. Afinal, Urtigão, Turma do Arrepio, Chapolim e Chaves, estavam se retirando das bancas. Não era hora de lançar uma revista mix, ainda mais só com quadrinhos nacionais. Mas, e se ela não fosse para as bancas, mas sim, distribuída nas escolas? E se não fosse uma revista, mas sim, um jornal, tablóide? E se buscasse patrocinadores para "bancar" a sua distribuição aos alunos? Todas essas questões passaram pela cabeça do desenhista e animador Paulo José, e seu sócio, Roberto Munhoz, também desenhista e roteirista.
Assim nasceu KIDNEWS, jornal infantil no formato 1/2 tablóide, com 08 páginas, sendo quatro coloridas. A tiragem inicial era de 30.000 exemplares, distribuídos gratuitamente nas principais escolas particulares de São Paulo. O público era bem definido e logo atraiu bons anunciantes. Já que o jornal era só de quadrinhos, a ideia era criar anúncios no formato de hqs, com personagens especialmente criados para tal empresa e seus produtos. Isso na verdade, era um aprimoramento da ideia que o desenhista Ely Barbosa tivera no início da década de 1980, quando lançou o JORNALZINHO DO CACÁ, encartado no jornal METRÔ NEWS, distribuído gratuitamente nas estações de metrô de São Paulo. Em 1990, também existiu o SPORT GANG, jornal criado pela dupla Jal e Gual, voltado aos alunos, com quadrinhos criados também por Otavio Cariello e Kipper.

Jornalzinho do Cacá, de Ely Barbosa. Distribuído junto ao Metrô News, nas
estações de Metrô de São Paulo.

Capa da edição 18 (abril de 1995) que foi distribuída durante o HQ MIX.

Para produzir o jornal mensalmente, o desenhista Paulo José após uma longa carreira de animador e desenhista (fundou a Thalia Filmes), com passagens pelos estúdios de Maurício de Sousa, Hanna Barbera, Editora Abril (revista do FAUSTÃO) e Globo (REVISTA DA XUXA), criou junto a Roberto Munhoz, a Editora Bingo Comunicação, situada em um belo sobrado no bairro do Sumaré.
KIDNEWS chegava ao público "ancorado" pelo Sapo Xulé, criação de Paulo José, baseado na cantiga de roda "O Sapo não lava o pé", que já tinha se transformado em brinquedos e games de grande sucesso.
O conteúdo editorial era variado, alternando hqs com personagens institucionais, passatempos, séries culturais para serem utilizadas para trabalhos e discussões durante o ano letivo, concursos e também quadrinhos sem vinculação alguma com qualquer empresa.
Além de uma pequena equipe interna, o jornal contava com a assessoria de psicólogos e pedagogos, e também de desenhistas colaboradores, que eram convidados por Paulo José para ali publicarem seus personagens, muitos deles inéditos. Era uma grande oportunidade.


A partir do numero 3, a publicação passa a ter 16 páginas, sendo 8 coloridas.
Em 1994, sua tiragem atingiu a marca de 100.000 exemplares mensais, prosseguindo assim até 1996. A partir do numero 16 (fevereiro-1995), seu formato mudou para 1/4 de tablóide, ficando assim bem mais adequado ao seu público, por se aproximar das demais revistas infantis. Circulou em mais de 200 escolas particulares de São Paulo, além de escolas públicas de Vila Paulicéia e Indaiatuba.
KIDNEWS deu uma grande contribuição ao quadrinho brasileiro, abrindo suas páginas para que artistas novos ou veteranos, publicassem seus personagens. Durante os seus 5 anos de publicação, pudemos apreciar o trabalho dos seguintes autores:
JAL (SPORT GANG) do jornal homônimo
Genival de Souza (TED)
Heloísa Galves (HOLDA, OS DUENDES)
José Miguel Lara (ANDRÉ)
Adeir Rampazzo (ORELHINHA)
Luiz Ferré (TV COLOSSO) em hqs criadas por Marcelo Alencar e Sérgio Furlani
Verde (SAM E BABI)
Airon (KIKA, FELINA)
Jorge Barreto
Henrique Farias (Capitão Panaca)
Rosana Munhoz (BRASÃO)
Paulo José (BINGO, SAPO XULÉ, O INDIOZINHO SEM NOME, GATOS & CIA, URBANINHO, DR. MURA)

Página de AS AVENTURAS DO INDIOZINHO SEM NOME, personagem de grande sucesso do jornal. Ele buscava realizar um ato de bravura, para aí então, segundo a tradição de sua tribo, ganhar um nome. Mas ele era amigo de todos os bichos e pássaros da floresta, então ficava difícil. Criação de Paulo José. Roteiros de Roberto Munhoz. 

Capa do número 15 ( novembro -1994). Uma bela amostra de boa parte dos personagens que saíam no jornal.

Para que os patrocinadores entrassem no jornal em forma de hq, várias famílias de personagens foram criadas por Paulo José. A saber:
A TURMA DO BUBBALOO (Chicletes Adams)
CHOKITO (Nestlé)
MINI CHICLETES
TODDYNHO
BICANO (canetas BIC)
REACHER (Johnson & Johnson), personagem cujos direitos autorais foram adquiridos pela empresa, para depois utilizá-lo em campanhas publicitárias no Brasil e na Argentina
BIT KIDS (BIT Company)
OS PLAYLOKOS (Playcenter)
LEE KIDS (calcas Lee)
Muitos personagens fizeram tanto sucesso, que ganharam publicações próprias, que circulavam como brinde junto a seus produtos, ou eram distribuídas gratuitamente em diversos locais.

Exemplos de revistas avulsas, com personagens que saíram do KIDNEWS.

OS PLAYLOKOS circularam no Playcenter (tradicional parque de diversões de São Paulo), em revistinhas que ensinavam a utilizar seus brinquedos.
TODDYNHO virou uma série de mini-revistas que vinham de brinde na compra do achocolatado nos supermercados.

Série em quadrinhos do TODDYNHO. A embalagem com três Toddynhos, vendida nos supermercados, vinha com um exemplar de brinde.

Em 1995, KIDNEWS publicou uma série de grande sucesso: OS CEM ANOS DO ÔNIBUS. Em 6 capítulos mensais, patrocinados pela Mercedes-Benz, contava a história desse popular meio de transporte. Para criar o roteiro da série, Roberto Munhoz fez várias visitas aos arquivos da empresa. Assim foi criado o BUS, um ônibus vindo do futuro, que levava duas crianças, Bruna e Renato,
até o ano de 1895, na Alemanha, onde o ônibus fora criado, para contar a sua história até chegar aos dias atuais. Motivou um concurso de redação nas escolas, com direito a prêmios, cujo resultado foi publicado junto ao último capítulo da série.

Capa da edição com o primeiro capítulo da série OS CEM ANOS DO ÔNIBUS.


Página de OS CEM ANOS  DO ÔNIBUS. Roteiro de Roberto Munhoz, desenhos de Altino Lobo, arte final de Patrícia Zaccarias e cores de Alexandre Silva.

KIDNEWS também acompanhava os alunos durante as férias. Em janeiro de 1996, saiu a edição especial KIDNEWS PRAIAS, totalmente colorida, distribuída gratuitamente nas praias do Guarujá, litoral de São Paulo.

KIDNEWS PRAIAS. Sucesso total.

Com o sucesso da publicação, tentou-se levar seus personagens para as bancas. Foi então que em 1995, foi lançada a revista de atividades do SAPO XULÉ, publicada pela própria EDITORA BINGO. A ideia era a de um personagem diferente a cada edição. Porém, esse foi o único número publicado.
Em fins de 1996, a sociedade foi desfeita, e a Editora Bingo fechou. KIDNEWS continuou saindo, pelas mãos de Paulo José, que abriu outra empresa, a Editora Kidnews. Com menos patrocinadores, a publicação caiu para 8 paginas e o seu alcance também era menor.

Capa da Revista de Atividades com o SAPO XULÉ. No número 2, seria o INDIOZINHO SEM NOME.


Dois únicos números lançados da revista KIDNEWS, pela Editora PRESS em 1997.

Em 1997, ainda com o jornal em circulação tentou levá-lo novamente para as bancas. A revistinha KIDNEWS, com 32 páginas coloridas, teve apenas duas edições publicadas pela Editora PRESS.
Com o cancelamento da revista, veio também o fim do jornalzinho KIDNEWS, que tanto divertiu e ensinou crianças e adultos, pois, segundo pesquisa, os pais também liam a publicação.
Para mim, que trabalhei como colorista do tablóide durante quase 4 anos, a falta que faz é a da equipe maravilhosa que se formou. Além de Paulo José e Munhoz, tínhamos o talento de Altino Lobo, artista versátil que desenhava boa parte das hqs (hoje atuando nos estúdios MSP), a arte final do saudoso Wanderlei Feliciano, Tomaz Edson (Estúdio GIBIOSFERA), Patricia Zaccharias, arte finalista oficial do jornal (falecida em outubro de 2012), Denise Ortega, Marcelo Conquista, José Wilson Magalhães, Ana Paula Medeiros, Washington Andrade, Marcia Garbelini, Tania Ramos, Rolando Di Sessa. Saudades também das festas de fim de ano, que reunia todos os colaboradores.
KIDNEWS é pouco divulgado em artigos e publicações que tratam da história de nossos quadrinhos, porque teve uma circulação restrita, porém sua importância é inquestionável. Motivou o desenhista Altemar Domingos a criar em 2007, o EURECA! SUPERKIDS, tablóide infantil também distribuído nas escolas.
Roberto Munhoz atualmente faz parte da equipe de roteiristas dos Estúdios Mauricio de Sousa.
Paulo José retornou aos quadrinhos em 2006, criando roteiros para os gibis do MENINO MALUQUINHO da Editora Globo. Mas voltou mesmo com força total à animação, produzindo em parceria com a Cinema Animadores a série do SAPO XULÉ. Planejado para ter 26 episódios de 2 minutos e meio cada, o projeto foi premiado em 2006 no I MITV (1º. Fórum Internacional de entretenimento, organizado pela Converge Editora / Tela Viva) e a série foi veiculada em 06 episódios em setembro de 2008, pela Rede TV!, sendo a primeira animação brasileira a ser exibida em HD.
O Sapo Xulé foi licenciado pela Estrela e virou boneco de vinil. A série transformou-se em DVD-Books, lançados pela Editora Callis, além da sua musiquinha virar ring tone da TIM. Participou também como convidada no Anima Mundi 2009. Foi exibida no Kidscreen Summit, em Nova York, evento voltado ao entretenimento infantil.

Coleção de DVD-Books da Editora CALLIS, lançada em 2008. 

Vejam que O Sapo Xulé, âncora do nosso saudoso KIDNEWS, continua por aí, aprontando
das suas. Quem sabe, nessas suas andanças, ele não desperte nas pessoas a vontade de ver o velho jornalzinho circulando de novo. Talvez agora como um portal na internet, quem sabe. O quadrinho brasileiro agradece.

3 comentários:

  1. Muito bom, Chan! Adorei o blog! Abração

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  2. Valeu irmão!!! obrigado!! abraaaaço!

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  3. Caraca Alexandre, eu cheguei a finalizar páginas do Toddynho, pena que não tenho as cópias!
    Abração.
    W!lson.

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