segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A ANIMADA CARREIRA DE SANDRO CLEUZO


Tinha tudo para dar errado!
Quem iria se arriscar a sair do país, com pouca idade, pouco dinheiro, sem falar inglês, sem ser indicado por ninguém, e tentar a carreira de desenhista de animação em um país desconhecido, sem ao menos ter a certeza de
que iria ser bem recebido?
Sandro Cleuzo apostou nisso. 



A DEMISSÃO BENÉFICA
Conheci o desenhista Sandro Cleuzo em 1987, quando trabalhei no Estúdio Ely Barbosa. Éramos da equipe que fazia as revistas Turma da Fofura, O Gordo & Cia e Patrícia, para a Editora Abril. Ele, desenhista. Eu, colorista.

 Página da HQ PAPAI NOEL EXISTE, publicada em TURMA DA FOFURA nº 7,
Editora Abril, Dezembro de 1987.
Desenhos de Sandro Cleuzo e colorização minha.

Sandro vinha de um estágio, em um grande estúdio de quadrinhos e animação de São Paulo, onde havia descoberto a sua verdadeira paixão e vocação, apesar de isso ter lhe custado a sua permanência por lá. Enquanto treinava para desenhar os personagens do estúdio, foi convidado a conhecer o departamento de animação da empresa, que ficava em outro prédio e ficou encantado: era aquilo que ele queria fazer na vida!!! Animação!!

Porém, ao mostrar interesse em mudar de área, foi sumariamente demitido pela esposa do dono! — Se você não está satisfeito aqui nos quadrinhos, então, vá embora!!!!  — disse ela, aos berros ao menino que tinha só 15 anos.

Na época, a demissão lhe fora extremamente traumática, porém, ao sair do estúdio, depois de tentar, implorando, mais de uma vez para ela reconsiderar sua demissão, recebeu de um funcionário de lá, um número de telefone. Ligou, e imediatamente começou a trabalhar. 
O número era do Briquet Filmes.


Comercial do Variguinho, produzido pela Briquet Filmes. Um dos primeiros trabalhos
de Sandro Cleuzo em animação.

Estava finalmente trabalhando com animação, primeiro como intervalador, e logo passando a animar comerciais para TV.
Nesse meio tempo foi que o Estúdio Ely Barbosa o convidou a desenhar quadrinhos e paralelamente à animação, começou a fazê-lo.  
Mas o sonho era maior que o sonhador. 

Cartaz do filme A RATINHA VALENTE (The Secret of NIMH, 1982), produção dos
estúdios de Don Bluth.

COM A CARA E A CORAGEM
O sonho era sair da animação publicitária e trabalhar em longa metragem, porém no Brasil não existia mercado. Teria que trabalhar no exterior.
Ao invés de taxar o sonho de impossível, como muitos o fariam, ele arregaçou as mangas e se pôs a trabalhar num portfólio. 
Economizou, comprou dólares e após quatro anos de trabalho na Briquet Filmes, arrumou as malas, e mesmo com muitos o chamando de louco, partiu com o amigo Edison Gonçalves (também animador), para Dublin, na Irlanda, atrás do seu sonho. Com apenas 19 anos.
Mas, o que tinha por lá? 
O Estúdio de Don Bluth

Quando chegaram ao estúdio que produziu A Ratinha Valente (The secret of NIMH, 1982), foram imediatamente aconselhados a voltar ao Brasil. — Não é assim que as coisas funcionam! — disseram a eles. — Vocês tem que voltar e nos enviar um portfolio para análise!
Voltaram naquele dia para o hotel, desanimados. Retornar ao Brasil, jamais! Eles tinham portfolio pronto! Só queriam ter a oportunidade de mostrá-los. 
Voltaram no dia seguinte e receberam a mesma recomendação: retornar ao Brasil. Não teriam chance alguma. 
Depois de muita insistência na recepção, eles finalmente conseguiram ser levados à presença de Don Bluth, que após ver os portfólios imediatamente os contratou: Sandro como animador e Edison Gonçalves como assistente de animação. 
De lá saíram com um curso de inglês, lugar para morar por seis meses, e ainda ganharam um tour de limusine por Dublin.

Sandro em 1993, nos estúdios de Don Bluth.



Fachada do prédio, que foi sede dos estúdios de Don Bluth, em Dublin, na Irlanda, nos anos 1990. Para conhecer mais sobre o estúdio, vale assistir ao vídeo que Sandro postou no youtube mostrando a sede toda por dentro. 
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=KSG-dws3n9w

E assim começava a tão sonhada carreira internacional. Foram 4 anos na Irlanda e mais dois no Arizona, onde Don Bluth levou sua equipe para montar a FOX ANIMATION STUDIOS.

Sandro trabalhou nos filmes Um Duende no Parque (A Troll in Central Park, 1994), A Polegarzinha (Thumbelina, 1994), O Cristal e o Pinguim (The Pebble and the Penguin, 1995) e o grande sucesso Anastasia (1997).


 Sequência do filme A polegarzinha (Thumbelina, 1994), dirigido por Don Bluth, Gary Goldman e John Pomeroy.



Trailer oficial de Anastasia, longa dirigido por Don Bluth e Gary Goldman



O SONHO REALIZADO
Mas o sonho era ainda maior. Decidiu arriscar e mandar seu portfolio para a Disney. Foi aprovado, e em 1997 ele finalmente entrava nos Estúdios Disney de Burbank, na Califórnia
Sua estreia por lá, foi no filme Fantasia 2000 , onde animou parte da sequência final "The Firebird".



Sequência, "The Firebird", do filme FANTASIA 2000, produção dos estúdios Disney.

Para ele, estar na Mecca da animação, convivendo com grandes animadores do mundo inteiro era algo impensável alguns anos atrás.
Depois de Fantasia 2000, vieram Tarzan, e o seu filme preferido: A nova onda do imperador (The Emperor's New Groove, 2000), onde ficou responsável por alguns personagens.

O filme, dirigido por Mark Dindal, é uma comédia que conta a história de  Kuzco, um imperador  inca, que sofre um golpe armado por sua conselheira Yzma. Ela, que na verdade é uma bruxa, o transforma em uma lhama e pretende tomar para si o império. Kuzco tem que voltar à forma humana e lutar contra ela, contando apenas com a ajuda de Pacha, um simpático camponês.

 

 Cena do filme "A nova onda do Imperador", com dublagem do personagem Kuzco,
feita pelo ator Selton Mello

Trabalhou depois como Supervisor de animação em Nem que a vaca tussa (Home on the Range, 2004), em uma época em que a Disney estava optando por trabalhar mais com 3D.

Sandro sempre demontrou verdadeira paixão pela animação tradicional. Ele faz 3D, fez vários cursos, inclusive na Disney e também nos estúdios de Don Bluth. Mesmo assim, preferiu remar contra a maré. 

Sandro e amigos de trabalho, em frente à sede dos estúdios Disney, em Burbank, Califórnia


Ao final da produção, foi convidado para O Galinho Chicken Little (2005), mas como queria continuar na animação tradicional, foi transferido para o estúdio da Flórida, onde começou a trabalhar no longa My Peoples, que iria misturar o 2D com 3D. Porém, no meio da produção, a Disney cancelou o longa, fechou o estúdio e abandonou de vez a animação tradicional. 
Todos os funcionários foram demitidos.
Foi aí que Sandro finalmente retornou ao Brasil.

 Cena do filme "Nem que a vaca tussa", filme dirigido por Will Finn e John Sanford



O RETORNO, OU... UM PÉ AQUI E OUTRO LÁ
Chegando aqui, montou seu estúdio de animação em um belo sobrado, próximo ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Pegou alguns trabalhos. Em um deles, chegou a contratar quinze animadores. 
Isso não o impediu de voltar para o exterior, sempre que fosse convidado para um bom trabalho.
Foi assim que em 2006, retornou aos EUA para trabalhar em A PRINCESA E O SAPO, que representava a grande volta dos Estúdios Disney a técnica 2D. Apesar do relativo sucesso, o filme não cativou os executivos da Disney a ponto de manterem toda uma equipe para criar novos projetos e novamente, todos saíram. 

Trailer oficial do filme "A Princesa e o Sapo"  

Sandro novamente retornou ao Brasil, e passou a trabalhar em algumas sequências para o filme espanhol Chico & Rita e para o seriado Family Guy.


Em 2012, recebeu convite da Dreamworks e partiu novamente para participar de um novo filme: o longa Me and My Shadow.


O filme conta a história de uma sombra aborrecida de estar vinculada a um humano nada interessante chamado Stanley, e decide assumir seu próprio controle para encontrar alguma emoção. O diretor Mark Dindal (que dirigiu O Galinho Chicken Little) estava à frente do projeto. O filme seria lançado neste ano (2014), porém repetiu-se o mesmo expediente da Disney com "My Peoples". Foi cancelado, apesar de ter 40% de suas cenas concluídas.  Novamente um estúdio americano desiste de fazer um longa em animação tradicional, mesmo misturando com 3D.
Mesmo assim, Sandro continua firme em seu propósito, e segue sua carreira preferindo sempre animar em 2D.

Trabalhou recentemente no design dos personagens para o filme Angry Birds e acaba de lançar um livro contando seu processo criativo de fazer design e animação. 

 Primeira imagem divulgada do próximo filme dos Angry Birds


Foi consagrado artista do ano de 2013, pelo Festival Nemoland, na Itália. Entrou para a Nemo Academy of Digital Arts, e na companhia de grande mestres da animação mundial, deu aulas e lançou dois livros com suas técnicas.

 Palestra e workshop na NEMOLAND 2014, na Itália

Participa de eventos internacionais de animação como o último Lucca Comics and Games (Festival de Quadrinhos, Games e Animação) da cidade de Lucca , na Itália.
O próximo será o CTNX Animation, nos dias 21, 22 e 23 de novembro, em Burbank, Califórnia



Sandro entrou no mundo virtual como um personagem, o Inspetor Cleuzo. Através de um blog, ele apresenta seus trabalhos recentes e antigos, sua técnica, fotos de workshops e eventos que realiza e participa pelo mundo afora. 
Acesse: http://www.inspectorcleuzo.blogspot.com

Nada mal para o menino que saiu do Brasil, com pouco dinheiro e experiência, mas muito, muito talento e perseverança, e uma incrível determinação em prosseguir fazendo o que realmente é a sua paixão: desenhar personagens, e vê-los ganharem vida, apenas folheando uma sequência de movimentos. Pura animação tradicional.

Uma paixão de menino, que ainda guia os passos desse grande artista brasileiro. 



  Sandro Cleuzo, ao lado de Victor Navone recebendo o troféu Nemoland, em 2013, na Itália.  


 


 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

TRISTE PARTIDA

 Cedraz deixa como legado, uma belíssima obra. Seus personagens infantis não vivem em um mundo cor de rosa, mas em um com tonalidade mais para o ocre, da terra seca e batida, e mesmo assim são alegres e felizes, como toda criança deve ser

Infelizmente não deu tempo do criador da TURMA DO XAXADO, vê-la chegar à televisão, ou mesmo à uma grande editora. Afinal, se fosse depender de "algumas", eles jamais teriam saído da terra de Jorge Amado.
Porém, a turminha criada em 1998 pelo desenhista baiano Antonio Luiz Ramos Cedraz, vendo que tudo era muito difícil mesmo, arregaçou as mangas e, tal e qual um retirante, botou o pé na estrada e saiu para conquistar seu espaço.

Teve gente que ajudou, claro!
Primeiro, de sua terra natal. O jornal A TARDE, de Salvador, foi quem solicitou à Cedraz uma série de tirinhas. Já aposentado, o ex-bancário pôde finalmente se dedicar integralmente à sua paixão, que eram as histórias em quadrinhos, pois durante muito tempo, mesmo precisando pagar as contas, nunca deixou de batalhar pelo seus trabalhos em HQ.

Xaxado nasceu como personagem secundário da TURMA DO PIPOCA, gibi de Cedraz publicado pela Sisal Editora, que teve cinco números produzidos, e só um publicado.

Lá atrás em 1989, Cedraz já tinha sido destaque do 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos de Araxá, MG, e publicado inúmeros fanzines, além de suplementos infantis em jornais.
Entre tantos personagens criados, pensou em apresentar algo inédito para o jornal. Lembrou-se de sua infância vivida na cidade de Miguel Calmon (BA), e também na cidade de Jacobina, onde cresceu e passou a dar aulas para o curso primário.

E aí surge, XAXADO, o neto de cangaceiro, cuja única coisa herdada do avô, foi o chapéu. Alegre, esperto, e sempre atento aos problemas da vida no campo, ele se destaca entre seus colegas, e vive numa típica cidade do interior do nordeste brasileiro. Toca sanfona e ainda trabalha na roça pra ajudar a família. Seu melhor amigo é Zé Pequeno, um garoto típico do interior, até no jeito de falar. Ingênuo e preguiçoso, vive se metendo em confusões. Completam a turma a Marieta, apaixonada pela Língua Portuguesa; Arturzinho, filho de um rico coronel fazendeiro; Capiba, que sonha em ser cantor nordestino e é fã de Luiz Gonzaga e Marinês, irmã de Capiba e namorada de Zé Pequeno. Para completar, ainda tem o Padre (pároco da igreja matriz), o jumento Veneta, a galinha caipira Odete, o porquinho Linguicinha e o Saci, habitante da mata, sempre aprontando alguma para a turma.


Toda essa turma reunida foi parar no jornal A Tarde.
Nascia ali uma das mais incríveis criações dos quadrinhos brasileiros.
A TURMA DO XAXADO combinava quadrinho infantil com crítica social, algo inédito e difícil de se fazer, e é justamente aí que se configurava sua grande dificuldade em alçar vôos maiores.
Xaxado observa e reflete sobre o que vê, tal e qual a Mafalda, do argentino Quino.

De cara, conquistaram o público local, mas queriam mostrar suas histórias para todo o Brasil. E esbarraram nas dificuldades, comuns para quem nasce fora do eixo Rio-São Paulo. E também, na temática de suas histórias, que mostravam entre as aventuras da turma, a dura realidade do povo brasileiro que vive fora das grandes cidades, coisa que muitos se recusam a ver. Afinal, como diz a letra da música de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, eternizada na voz de Elis Regina: "O Brasil não conhece o Brasil, o Brasil nunca foi ao Brasil".

Mas como eu disse no início, tal e qual muitos de seus filhos, que abandonam o sertão e a seca e partem num pau-de-arara rumo à uma vida melhor, a turminha botou os pezinhos na estrada de terra e prosseguiu, querendo mostrar para todo mundo que são felizes, mesmo com tantos problemas à sua volta.

 
A dura realidade do sertão nordestino, é narrada em "Morte e Vida Severina".
Cedraz também a descreve nos quadrinhos, com humor e poesia. 

Acima, trecho do especial "Morte e Vida Severina", produção da Rede Globo de 1981, dirigida por Walter Avancini, baseado na obra de João Cabral de Melo Neto, com músicas de Chico Buarque.
   


Muitas editoras disseram não para as criações de Cedraz. Outras nem o receberam, afinal, o mundo da TURMA DO XAXADO não é cor de rosa. Como uma história em quadrinhos pode mostrar para as crianças, a seca, o coronelismo, a prepotência dos poderosos contras as classes baixas, o sincretismo religioso, o desemprego, o descaso da saúde pública, o desmatamento da natureza e até falar de REFORMA AGRÁRIA? 

Tudo isso era ousadia demais para alguns, como para a EDITORA GLOBO, por exemplo, que em 2006, logo após perder Maurício de Sousa para a PANINI, recebeu todo o projeto da TURMA DO XAXADO para apreciação, e nem o respondeu de volta.

Mostrar a realidade do Brasil para as crianças e ajudá-las a formar opinião? Não, de jeito algum. Era melhor continuar mostrando o mundo de casas de telhados perfeitos, com janelas abertas e cerquinha branca na frente...Ah!...e Papai Noel descendo pela lareira no fim do ano...





A seca


Reforma Agrária



Mas felizmente muitos apoiaram, e se as grandes editoras lhes fechavam as portas, outras menores, abriam.
O apoio incondicional do jornal A Tarde e o sucesso da publicacão das tirinhas por lá (são publicadas desde 1998), motivou a Editora Escala, de São Paulo, a finalmente colocar nas bancas um gibi da TURMA DO XAXADO.
Isso aconteceu em 2000, com um título que combinava HQs com atividades infantis e que a partir do número 3, virou formatinho e passou a publicar só as HQs, enquanto as atividades foram parar em outros dois títulos. No total, Foram publicadas cinco edições de quadrinhos e mais trinta de atividades.

Estreia em 2001, da revista da TURMA DO XAXADO nas bancas, pela Editora Escala

Sincretismo religioso

A destruição da natureza

Mas foram as editoras de livros didáticos que mais publicaram as tirinhas do Xaxado. Seus autores começaram a solicitar às editoras, que comprassem as tiras para utilizá-las em suas obras.
E daí foram surgindo as premiações.  Seis Troféus HQ MIX, além de ser Mestre do Quadrinho Nacional pelo Prêmio Angelo Agostini, da AQC.
Cedraz publicou vários livros, muitos deles, com o apoio do Governo do Estado da Bahia, através do programa Fazcultura.

  Lendas brasileiras sempre presentes nas histórias da turma

Cartilhas educacionais sobre como combater a Dengue, como economizar àgua, educação para o trânsito, incêndios florestais e muitas outras, são produzidas pelo Estúdio Cedraz, que conta com a colaboração de desenhistas, roteiristas e coloristas. Tudo tinha a supervisão do mestre.
Vários jornais passaram a publicar as tirinhas do Xaxado, entre eles o jornal O SUL, de Porto Alegre! Pois é. Era a turminha chegando ao extremo sul do País.

 Cartilhas de combate à Dengue, produzidas em seus estúdios

Em 2010, uma nova tentativa de retorno às bancas, aconteceu pela HQM Editora de São Paulo.
A nova revista Xaxado e sua turma, tinha 32 páginas coloridas, em papel encorpado e trazia novas histórias da turminha, anúncios dos vários livros publicados e depoimentos de leitores e colegas, que davam as boas vindas à nova publicação. Foram lançadas quatro edições.

 Capas dos números 1 e 2 de Xaxado e sua turma; HQM Editora, 2010


 No último mês de janeiro, o site Quadro a Quadro festejou a carreira de Antonio Cedraz, na primeira edição do evento Mestre dos Quadrinhos, com uma exposição-homenagem de vários desenhistas brasileiros e um badalado jantar para convidados.
Na foto, Lucas Pimenta (do site Quadro a Quadro) e Antonio Cedraz.


Uma empresa passou a licenciar os personagens para merchandising.
Uma série animada começou a ser produzida pela TVE BAHIA. Trata-se de uma série de 21 episódios, com produção de Chico Liberato, um dos pioneiros da animação no Brasil, autor de "Boi Aruá", de 1983, premiada pela Unesco.

Infelizmente, Cedraz não teve a oportunidade de vê-la concluída.
Ele nos deixou no último dia 11 de setembro, aos 69 anos, vitimado por um câncer.

O maior mérito e o mais incrível na trajetória do grande Cedraz é ter feito tudo isso, ter influenciado tantos artistas, ter publicado em tantos lugares, ter chegado aonde chegou, sem o apoio da mídia, ou de grandes editoras.
Como disse no início, a turminha botou o pé na estrada de terra e guiadas pelo mestre Cedraz, chegaram a lugares inimagináveis para quem recebeu tantos nãos na caminhada.

 Cedraz, na Bienal do Livro da Bahia

Ele criou um universo riquíssimo com a TURMA DO XAXADO, mostrando às crianças o Brasil verdadeiro e seus problemas sociais, mas também a sua riqueza cultural, suas crenças, suas lendas e também sua alegria de viver, sempre em histórias bem elaboradas, que fazem o público se divertir e principalmente se emocionar.
Não são poucos os relatos de leitores do Xaxado, que vão às lágrimas ao ler determinada história.

 No álbum MSP 50, em homenagem aos 50 anos de carreira de Maurício de Sousa, Cedraz participou com uma história onde o Cascão vai visitar Xaxado e sua turma e se encanta por perceber que lá não existe água...

...e no final acaba pedindo a Deus que chova, para alegrar um pouco o coração dessa gente! 
Do álbum MSP 50 artistas, volume 1, págs 112 a 114, Editora PANINI


  Assim como Patativa do Assaré retratou com maestria a alma nordestina na música A Triste Partida, que virou sucesso na voz de Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado também o fizeram na literatura.  
Cedraz, com certeza, fez o mesmo nos quadrinhos.

Se uma criança, de pé no chão, lá do sertão de algum lugar desse Brasilzão, abrir um livrinho do Xaxado, um gibi, ou mesmo ler uma tirinha sua em qualquer lugar e viajar na história, se identificar com os personagens, se divertir, se emocionar e isso lhe abrir os olhos, passando a ter esperança num futuro melhor, Cedraz terá alcançado seu objetivo.

Eu não tenho dúvidas de que isso já esteja acontecendo.

Abaixo, uma das melhores HQs do Xaxado, e que para mim, representa tudo o que o mestre Cedraz pensava e acreditava.

Feita com o coração e com a alma.


Clique no link para asssistir a homenagem da TVE ao mestre Cedraz 


DEPOIMENTO DE GONÇALO JÚNIOR
autor de A Guerra dos Gibis, entre outros
Perder um amigo dói muito.
Perder o melhor amigo dói demais.
Conheci o cartunista Antonio Cedraz quando eu saía da adolescência, em 1983. Ele era uma celebridade entre as crianças de Salvador, na época. Fazia sozinho, da primeira à última página, toda semana, o suplemento infantil do Jornal da Bahia, o Joba. Ali, publicava passatempos e seus personagens em quadrinhos, como Jobinha, criação sua para aproximar os leitores mirins do jornal. Como colocava no rodapé o endereço da sua casa, escrevi para ele. Falei que admirava seu trabalho e pedia dicas como me tornar um desenhista. Ele me respondeu e iniciamos uma troca de correspondência pelos Correios, embora apenas o Dique do Tororó e duas ou três ruas separassem nossas casas. Um dia, convidou-me para conhecer seu estúdio. Era um sábado à tarde e lá fui eu conhecer meu ídolo. Fiquei maravilhado com seu canto para desenho, sua prancheta, seus milhares de gibis, enquanto dona Lucineide, sua esposa, servia-me suco de mangaba com bolo. Começava ali uma amizade única em minha vida. A mais longa, a mais constante, a mais verdadeira.


Eu achava que podia ser desenhista de história em quadrinhos. Acreditava que conseguiria aprender essa arte que tanto me fascinava. Mostrei a Cedraz uma pilha de desenhos, e ele, com muito jeito, disse que tinha uma equipe grande de desenhistas fazendo histórias para ele, mas precisava mesmo era de um roteirista. E que eu levava jeito. Como assim? Eu sabia desenhar, pensei. Indignado, fui para casa. Um dia depois, conclui que ele tinha razão e comecei a criar histórias. No sábado seguinte, levei 20 historinhas de três quadrinhos cada, rascunhadas. Cedraz aprovou apenas uma e sugeriu que eu melhorasse outras três. O resto não ficara bom. Uma semana depois, voltei com mais 20 novas tiras. Ele gostou de cinco. Na nova visita, escolheu oito. E por aí foi, sempre aumentando. Tirou do seu salário uma soma e me pagou. Foi a primeira remuneração da minha vida. Por alguns anos, comprava meus discos e gibis com a grana das tirinhas que ele desenhava mas não conseguia publicar. Certa vez, vendeu algumas histórias nossas para uma editora de Cuba. Babávamos ao ver nossos nomes nos gibis bancados pelo regime de Fidel Castro. Pagamento? Sim, mas só poderíamos retirar quando fôssemos àquele país, o que nunca aconteceu.


São muitas as lembranças de Cedraz. Nunca brigamos, nunca discutimos. Toda vez que vinha a um evento em São Paulo, hospedava aqui em casa. Eram longas noites de confidências e cumplicidade, falávamos de nossas vidas, sonhos e projetos, decepções, frustrações. Mas lá atrás aconteceu algo que me valeu por toda a vida. Eu editava um jornalzinho (fanzine) impresso em mimeógrafo a álcool, bem rudimentar, semelhante àquelas apostilas e provas de escola. Um dia, ele me perguntou porque eu não fazia como os outros editores e adotava a fotocópia. Ficava mais profissional, mas fácil de reproduzir os desenhos. Expliquei que ficaria caro para mim. Afinal, seriam 100 exemplares de dez páginas cada, em um total de mil páginas! Demais para um estudante cujo pai funcionário público se matava para bancar a escola dos quatro filhos. Ele não apenas me convenceu a aumentar cada edição para 32 páginas cada como, por anos, imprimiu  todos os exemplares para mim, sempre às escondidas dos colegas, no centro de treinamento e recrutamento do Banco Econômico, onde ele trabalhou por toda a vida até se aposentar – pouco antes da falência da instituição.


A melhor homenagem que ele poderia fazer a mim, no entanto, veio depois, ao batizar um de seus personagens com meu nome. Era um menino que queria ser jornalista. O mesmo menino que um dia lhe escreveu uma carta. Aquele que encontrou no amigo mais velho o apoio para ajeitar a camisa, apertar os cadarços do sapato e escolher um caminho a seguir. Uma estrada que seguimos juntos desde então.  E assim continuará, pois a força do querido amigo está aqui ao meu lado, mais viva do que nunca.
DEPOIMENTO DE SIDNEY FALCÃO
Desenhista dos estúdios Cedraz

Eu o conheci em 1984 num curso de desenho animado, aqui em Salvador, eu tinha 15 anos de idade.Já conhecia os trabalhos dele nos jorrnais como as tirinhas do Turma do Joinha, criação dele da década de 1970. Mas foi no curso que conheci pessoalmente. A partir de 1985, passei a trabalhar com ele eventualmente, seja fazendo "frilas" pra ele, já não coneguia dar conta tal, pois o volume de trabaho era grande. Fiz HQ's e tirinhas da Turma do Pipoca. Fizemos juntos ilustrações de livros e cartilhas institucionais.

Por volta de 1997 quando se aposentou do banco onde trabalhava, Cedraz decidiu montar um equipe e se dedicar exclusivamente à produção de HQ's e ilustrações. Foi uma experiência gratificante para mim.

Em 1999, o jornal "A Tarde", um dos maiores jornais do Norte/Nordeste, passou a publicar as tiras do Xaxado, no começo semanalmente e depois diariamente. Foi uma visibilidade impressionante e uma resposta rápida público, muitos mais rápida do que uma revista em banca. Foram 10 anos tiras diárias, mais de 2 mil tirinhas!!! Isso permitiu que fechássemos contrato coma Editora Escala que lançou gibi mensal, revistas de colorir e passatempo da Turma do Xaxado. Além disso, ganhamos prêmios nacionais e anda tivemos tiras do Xaxado publicadas em jornais de outros estados como o jornal "O Sul", de Porto Alegre.

Todo esse sucesso, esse êxito do Xaxado deu maior projeção a Cedraz e cravou o nome dele na galeria dos grandes nomes do quadrinho nacional. Cedraz mrecia isso, pois foi um batalhador, um guerreiro dos quadrinhos desde a década de 1970. Se fazer quadrinhos no Brasil é difícil, imagine aqui na Bahia onde não temos espaço em jornal e muito menos editora de quadrinhos. Ele conseguiu abrir caminho para as novas gerações de ilustradores e quadrinhistas baianos como o Flávio Luiz, Luiz Augusto(autor do "Fala Menino!") entre outros.

Sempre foi um homem generoso, simples e humilde. Cansei de ver moleque novo com a pasta cheia de desenhos debaixo do braço procurando ele pra pedir dicas e conselhos. Cedraz foi o cara que mais apoiou as gerações de quadrinhas que surgiram aqui na Bahia a partir dos anos 1990. Quando havia eventos e debates promovidos por jovens cartunistas e quadrinhistas baianos, Cedraz era sempre chamado pra participar...e participava com toda a boa vontade. Considero ele como um "paizão" dos quadrinhistas e cartunistas baianos.


DEPOIMENTO DE SUELY FURUKAWA

Nós fomos apresentados a Antonio Cedraz por Carlos Avalone, desenhista na antiga Divisao de Publicações Infanto-Juvenis da Editora Abril. Em uma época em que não imaginávamos a Internet, e-mails e muito menos as redes sociais, Avalone trocava figurinhas sobre o mundo das Histórias em Quadrinhos, através de cartas enviadas a Cedraz. Tempo em que DDD era inacessível de tão caro, eles eram amigos por correspondência. Quando soube que Paulo Paiva e eu iríamos passar nossa lua-de-mel na Bahia, passando por Salvador, Avalone nos deu telefone do Cedraz. Diretor de Arte do Banco Econômico, Cedraz era das raras pessoas que possuía telefone privativo em Salvador. Hospedados em um antigo hotel decadente da periferia soteropolitana, ligamos para Cedraz. Em poucas horas, ele estava lá, com seu fusquinha cor de laranja, exigindo que fechássemos a conta pra irmos diretamente pra casa dele. Nunca tinha ouvido falar da gente. Éramos os amigos de Avalone, seu correspondente. Era final de julho de 1979, o começo de uma incrível amizade que completou agora 35 anos. Através de Cedraz, conhecemos toda comunidade de desenhistas de Salvador, como Nildão, Caó e Lage. Com a ajuda dele, PP retomou contato com Setúbal, artista paulistano há muito tempo radicado em Salvador. Amigo para horas boas e ruins... Foi em momentos de nossa maior dificuldade, quando PP, após sofrer um grave AVC, ficou 35 dias em coma e 5 meses no hospital, que Cedraz se mostrou amigo para todas as horas. Me ligava regularmente naqueles dias de esperança alguma. Quando chegava exausta do hospital, me enchia de coragem, contando que rezava diariamente por nós. Pouco depois da alta do PP, veio de Salvador nos visitar. Uns dois anos depois, ele começava a sua luta contra o câncer. Incontáveis cirurgias, baterias de quimioterapia e toda sorte de tratamentos. A cada hospitalização, nos telefonava após a alta, comunicando que vencera mais uma batalha. Cedraz ainda tinha muitos planos... Mesmo sabendo que um dia o guerreiro seria vencido pelo câncer, a notícia de seu falecimento, na manhã de hoje, nos pegou de surpresa. Taí um homem que viveu intensamente, realizou uma obra incrível, tanto na vida pessoal como profissional. Autênticos personagens brasileiros, especialmente nordestinos, com riquíssima pesquisa, retratando nosso folclore como ninguém. Nós, amigos, temos a obrigação de dar continuidade à Turma do Xaxado, divulgando e perpetuando a obra de Antonio Cedraz.


    A Triste Partida, de Patativa do Assaré, na voz de Luiz Gonzaga



AGRADECIMENTOS:
Gonçalo Junior
Sidney Falcão
Suely Furukawa
Blog do Xandro
(blogdoxandro.blogspot.com)
Quadro a Quadro
(Lucas Pimenta)

PARA QUEM AINDA NÃO CONHECE O TRABALHO DE ANTONIO CEDRAZ, ACESSE:
http://www.xaxado.com.br

terça-feira, 29 de abril de 2014

A "ARREPIANTE" TRAJETÓRIA DE CESAR SANDOVAL


No fim dos anos 1980, com a mudança do Rio de Janeiro para São Paulo, a Editora Globo (antiga RGE), buscava ampliar e diversificar sua participação no mercado de gibis nas bancas, já liderado por Maurício de Sousa, sua grande contratação de 1987.

Tinha dois novos projetos nacionais nas mãos. Um deles era a REVISTA DA XUXA, que aproveitava o sucesso da apresentadora na TV, e o outro, um projeto totalmente inédito, sem apoio nenhum de mídia. Um negócio arriscado, em uma época em que, por cautela, se apostava muito em versões para os quadrinhos de desenhos animados, de apresentadores de TV e programas infantis, cujo retorno era 100% garantido.

Esse projeto chamava-se A TURMA DO ARREPIO, e era isso mesmo: um negócio muito arriscado para os editores da Globo.

O AUTOR 

 
César Sandoval vinha de uma carreira de enorme sucesso.
Começou na lendária revista RECREIO, como assistente de arte, no início dos anos 1970. Tornou-se depois, o Chefe de Arte mais jovem da Editora Abril, cuidando dos títulos não-Disney da casa.
Foi para a Inglaterra, trabalhar como animador no Grupo Vision, e quando voltou ao Brasil, abriu o Sketch, um dos estúdios de animação mais importantes e produtivos dos anos 1980.

 

Criado por Fábio Del Santoro, Wilson Perron e Heitor Carrillo para a GILLETTE, o comercial  PACHECO CAMISA 12, foi desenvolvido e animado por César Sandoval, tornando-se um dos maiores sucessos da propaganda dos anos 1980.
Marcou época!


O comercial da menininha Claybom, foi outro grande
sucesso da década na TV.


Com uma carreira consolidada na publicidade, César aceitou o desafio de criar a versão infantil do quarteto OS TRAPALHÕES,  a pedido do próprio humorista Renato Aragão, que queria entrar na área de licenciamento, visando o lançamento de produtos para crianças. Nessa época, transformou também o apresentador SÉRGIO MALLANDRO em personagem de HQ, criando na sequência, uma série de produtos com o personagem.

Renato Aragão e Cesar Sandoval

O gibi dos TRAPALHÕES foi lançado em 1987 e o de SÉRGIO MALLANDRO no ano seguinte, ambos pela Editora Abril. Com um programa de licenciamento bem estruturado, as revistas e os produtos fizeram muito sucesso, o que impulsionou Sandoval a tirar da gaveta um projeto autoral antigo.

Depois de 11 anos sendo publicados pela Bloch Editores, o quarteto
OS TRAPALHÕES, chegava à Editora Abril, em sua versão infantil.


Este anúncio foi veiculado no número 1 da revista. Fazia parte de um vigoroso plano de marketing criado para promover e lançar produtos com a estampa do famoso quarteto da TV.


O PROJETO
A TURMA DO ARREPIO começou a ser criada a partir da seguinte premissa:  
E se o Frankenstein tivesse um filho? Como seria?  E como seria o neto do Conde Drácula?
A ideia era fazer uma versão mirim dos monstros do cinema. Inicialmente seriam bebês, e o nome seria Baby Monsters. Porém, achou-se por bem crescê-los um pouquinho, tomando o cuidado em não deixá-los violentos nem sanguinários. Essa tarefa foi entregue ao ilustrador Roberto Fukue, que teve total liberdade para recriar o visual dos personagens em outra faixa etária.

E assim foram nascendo os personagens.
O primeiro foi o Draky, herdeiro de uma nobre família de vampiros e intelectual da turma.
Depois vieram o filhote de lobisomem Luby, que adora hambúrguer e odeia gatos, a mumiazinha Tuty, que adora fazer curativos, o Stein, um menino biônico, neto do Frankenstein e que adora consertar coisas e a Medéia, uma menina aprendiz de feiticeira, que nunca acerta fazer seus próprios feitiços, o que sempre coloca a turma em grande confusões. Tem também o morceguinho Belfedo, personagem criado em 1971 para uma HQ e que César atribuiu ao universo da turminha tornando-o  bicho de estimação de Draky.

Como personagens secundários: Epitáfio, o porteiro zumbi do Edifício do Arrepio,  Seu Doroteu, o síndico, a aranha Magnólia, que fez sua teia no canto da portaria e a "dragoa" de estimação da medéia, Dragmar.



O LANÇAMENTO
A TURMA DO ARREPIO chegou às bancas em outubro de 1989, em 32 páginas coloridas, entrando na onda da espantomania, devido a sucessos do cinema como A hora do Espanto (1987) e Brinquedo Assassino (1988). Porém, o gibi era bem mais leve.

Aventuras com uma boa dose de humor, enfocando o dia-a-dia do Edifício do Arrepio, um prédio onde moravam os cinco protagonistas, faziam a alegria dos pequenos, que corriam às bancas todos os meses para comprar a revista. Logo transformou-se em um grande sucesso, tranquilizando os executivos da editora.

A EQUIPE
Para produzir seu primeiro título em quadrinhos (OS TRAPALHÕES e SÉRGIO MALLANDRO, eram produzidos dentro da Editora Abril), o estudio Sketch de Sandoval, contratou bastante gente e reuniu um time de primeira.

Profissionais talentosos trabalharam  no gibi.
Nos desenhos, Gustavo Machado, Enrique Valdez, Sérgio Morettini, Marcos Uesono, Ricardo José da Silva, Eduardo Vetillo, Cláudio Vieira de Oliveira e Irineu Soares Rodrigues.
Nos roteiros, Mario Mattoso, Roberto Vieira, Denise Ortega, Gerson Teixeira, entre outros.
Na arte final, o talento de Rosana Valin, Cláudio Ishii, Ricardo Martins e Tomaz Edson.
Como Diretores de Arte: Roberto Fukue, Moacir Rodrigues Soares e Kimio Shimizu.

Além desses, muitos outros profissionais iniciaram sua carreira na revista, com destaque para Luke Ross, desenhista de Secret Avengers (Marvel).

DEPOIMENTO DO DESENHISTA ROBERTO FUKUE
Desde os tempos da Abril, o Cesar se destacava com seus traços de muito talento, levando-o a se desvencilhar da estrutura rígida da editora e seguir caminho próprio.
Durante o período em que trabalhei na Sketch, constatei que só talento artístico não basta para conduzir um negócio. Mão firme e embates acalorados fazem parte dessa receita de sucesso...  
Foi um período muito bom. Só posso dizer isso!



Anúncio veiculado nas revistas da Editora Globo, promovendo os produtos
da TURMA DO ARREPIO.


DE NEGÓCIO ARRISCADO AO SUCESSO ABSOLUTO
Devido ao sucesso da revista, os personagens estamparam muitos produtos no mercado, de marcas como Grendene, Leco e Danone, destacando-se no merchandising brasileiro. Mais de 20 produtos foram lançados, com destaque para as mochilas da Grotaferrata, sucesso absoluto entre as crianças.

Os personagens também participaram de várias promoções e eventos, como o Mês das Crianças no Playcenter, em São Paulo. Até um concurso de roteiros foi criado para interagir com os leitores, com direito a muitos prêmios.

Anúncio de lançamento do concurso de roteiros.

Mês da Criança, no extinto parque de diversões Playcenter,
com a TURMA DO ARREPIO.

Algum tempo depois, César Sandoval conseguiu trazer para a Globo, outra criação sua: Sérgio Mallandro em quadrinhos, mesmo depois de 20 edições lançadas pela Abril Jovem.
E deslocou o desenhista Moacir Rodrigues Soares para a nova revista.

DEPOIMENTO DA ROTEIRISTA DENISE ORTEGA
César Sandoval realizou comigo algumas reuniões para conversar sobre ideias para histórias, características dos personagens etc. A lembrança que guardo dele é de um profissional criativo, falante e hiperativo... No bom sentido! Para mim, seu jeito "elétrico" de se comportar e falar sobre o universo de seus personagens e planos para o futuro era altamente motivador e me proporcionava a sensação de liberdade para criar roteiros diferenciados. Gostei muito dessa experiência de escrever para a Turma do Arrepio. Eu me diverti bastante com eles!


Capa do número 1 de SÉRGIO MALLANDRO em quadrinhos. Ilustração de Moacir Rodrigues Soares. Editora Globo, 1990.

DEPOIMENTO DO DESENHISTA GUSTAVO MACHADO
Conheci César Sandoval quando era bem jovem e me dedicava aos desenhos animados,
em meados dos anos oitenta.

Houve uma imediata empatia entre nós, desde o primeiro trabalho que fizemos. César sempre foi um artista cheio de ideias, e muitas vezes me convidava para ajudá-lo a desenvolver um novo projeto, além das animações comerciais que o seu estúdio, a Sketch Filmes produzia e eu participava.

Um artista talentoso, engraçado e agitado, com um grande tino comercial.

Com uma habilidade especial para criar personagens cativantes, sejam mascotes para publicidade ou personagens para quadrinhos, tive o prazer de desenhar muitos deles, como “Os trapalhões”, “Turma do Arrepio” e “Sérgio Mallandro em quadrinhos”.
Um homem de criação sempre antenado com as tendências do mercado, e sempre com a marca do bom gosto e qualidade nas suas criações. Saudades dos nossos bons papos sobre trabalho e vida!


ARREPIANDO EM OUTROS PAÍSES
 A TURMA DO ARREPIO chegou a circular em Portugal, e também ganhou uma edição internacional com o nome de Creepy Monters, publicada pela VID Editorial do México. O sucesso conseguido naquele país, onde foram lançadas mais de 50 edições, fez com que a revista fosse distribuída no Panamá e também em outros países da América Central.

CREEPY MONTERS, versão mexicana da turminha. VID Editorial, México, 1992.

O CANCELAMENTO
Em 1993, o mercado de gibis no Brasil entrou em recessão. Plano Collor e inflação galopante fizeram com que as editoras cancelarem vários títulos e a TURMA DO ARREPIO estava entre eles. A série em quadrinhos encerrou sua carreira após 43 edições.

Porém, com a quantidade de produtos com a turminha no mercado, era preciso continuar com os personagens na mídia.

Uma série de livros infantis foi lançada em 1994 pela Editora Melhoramentos, mas era preciso algo maior, bem maior, para continuar garantindo os contratos assinados.



A SÉRIE DE TV
A TURMA DO ARREPIO chegou à TV, em um especial para o Dia das Crianças, com 45 minutos de duração exibido pelo SBT em 1996. Em vez de desenho animado, optou-se por colocar atores interpretando os personagens.

Do sucesso desse especial, nasceu a série diária, estreando em 12 de Maio de 1997 às 17h:30, pela extinta Rede Manchete, de Adolpho Bloch.
Com produção da Chroma Filmes de Odorico Mendes e direção de Arlindo Pereira e Rodolfo Silot, a série era totalmente gravada em um estúdio em São Paulo.

ELENCO:
Flavia Beghin
Milton Brum
Marcelo Medici 
Sérgio Cavalcante
Mauricio Agrela
Manipulação e voz de Belfedo: Eduardo Alves
Manipuladores: Mauro de Ballentti e Paulo Balardim
Próteses dos personagens confeccionadas por Sidney Massaru Oda


Abertura do programa



 O primeiro trabalho do ator Marcelo Medici na TV, foi no seriado A TURMA DO ARREPIO, interpretando o porteiro Epitáfio.


 Apesar da TV Manchete estar em uma crise sem precedentes (que culminou algum tempo depois com o fechamento da emissora), o programa chegou a dar 5 pontos de audiência! Um feito e tanto  para uma emissora à beira da falência.






Durante os nove meses em que esteve no ar, o programa manteve um público cativo em frente à TV e conseguiu manter e ampliar o número de produtos licenciados com seus personagens.
Porém, com  a morte de Adolpho Bloch e a crise na emissora, o programa foi retirado do ar.


OUTRAS FRENTES DE TRABALHO
Com o fim do programa e a crise dos quadrinhos, Cesar Sandoval engavetou sua criação de maior sucesso e abriu novos caminhos.
BETINHO CARRERO

 
Em 1999, criou a pedido do empresário Sérgio Murad (nome verdadeiro de Beto Carrero), o projeto Betinho Carrero, logo transformado em outro grande case de marketing.
Escolhido como garoto propaganda do extinto Unibanco, o personagem acompanhado de sua turma virou revistas de atividades e passatempos voltadas para a criança, como parte de um grande campanha publicitária criada pela agência Agnelli, para promover vários produtos da empresa.

Algum tempo depois, Betinho Carrero chega aos quadrinhos, porém não mais pelas mãos de Sandoval. A revista mensal lançada em bancas, trazia a arte do Belli Studio, de Santa Catarina e era publicada pela JB World Entretenimento.


MARCELINHO CARIOCA

O ex-jogador do Corinthians, também recorreu ao talento de Sandoval quando decidiu criar um projeto voltado às crianças.
Transformado em personagem, Marcelinho Carioca estreou em 2000, em um livro com dicas de como se tornar um craque no futebol.
Foi o campeão de vendas da 16ª Bienal Internacional do Livro realizada em 2000, em São Paulo. Sua "Cartilha do Marcelinho Carioca", vendeu nada menos do que 2.876 exemplares, antes mesmo de chegar às livrarias.


A TURMA DO ARREPIO VOLTA ÀS BANCAS

Impulsionado por internautas de todo o Brasil, que pediam nas redes sociais a volta da turminha, Cesar Sandoval associa-se a um pequena editora de São Paulo e começa a planejar o retorno de sua criação mais famosa.

Assim, em junho de 2009, chega às bancas, a nova revista 'A TURMA DO ARREPIO", disposta a matar a saudade dos fãs (muitos deles já casados e com filhos), e também a conquistar uma nova legião de fãs.

Lançada pela Editora As Américas, a publicação é na verdade um "remake" da série antiga da Editora Globo. Foram selecionadas as melhores histórias para republicação, que ganharam novas cores, trabalhadas por Alexandre Silva com colaboração de Fernando Ventura e Gerson Campos.


Sandoval conseguiu patrocínio para a nova revista, algo difícil em se tratando de quadrinhos. Com dois anunciantes por edição, possibilitou uma impressão de qualidade e uma boa distribuição, que só não foi melhor, por causa da tiragem inferior a trinta mil exemplares. Mesmo assim houve uma festa de lançamento, na Casa das Rosas em São Paulo e a participação na 16ª FEST COMIX, tradicional evento de quadrinhos, também na capital paulista.

Com a revista nas bancas, Sandoval buscou voltar ao merchandising com seus personagens. Em 2010, o chicle de bola BRINQ, trazia uma coleção de 43 figurinhas da turma, com muitas cenas tiradas do novo gibi e um álbum para guardá-las. Foi lançado também um livro infantil com a personagem Medéia, pela mesma editora da revista. Cogitou-se a volta do programa de TV, algo ainda em estudo, com a utilização de novíssima tecnologia, alternando esquetes animadas e cenas com atores.

O projeto era republicar todas as hqs das 43 edições da Globo, porém, devido ao custo alto de impressão e dificuldades de mercado, a série se encerrou com 8 edições lançadas trimestralmente.
Mais uma vez, a turminha saiu de cena.
Mas pode voltar a qualquer momento. Afinal, eles são imortais.
Imortais são todos os personagens que cativam o público e marcam uma época, como aconteceu com a TURMA DO ARREPIO.



César Sandoval continua criando "enlouquecidamente"! Sua imaginação não pára.
A mola propulsora da vida de um artista é criar...sempre!
Mesmo em uma época onde a tecnologia parece querer superar a criação, a arte genuína sempre prevalece.
Porque vem acompanhada de sentimentos e emoções. E não um simples apertar de teclas e botões.

Que os novos artistas das HQs se inspirem nos grandes criadores de outrora, como o nosso César Sandoval.

Para terminar, um texto extraído de seu próprio site, dirigido aos novos aspirantes a desenhistas de HQs, e que eu acho maravilhoso:

Um conselho aos chegantes, jovens correndo atrás de seu espaço para seus quadrinhos e animações:

OUSEM! MAS ESTUDEM! Formem-se! 
Personagens e criações são efêmeros, principalmente num país sem memória como o nosso. Fora da educação, da capacitação, não há sucesso para você, personagem principal de uma história sui generis, a história de sua vida!

Perseverança é fundamental! 
Nossa loucura pessoal é que nos defende da loucura geral. 

Acreditar enlouquecidamente na sua criação é tão importante quanto
a criação propriamente dita! 
Sucesso, bonequeiros!
Enlouqueçam!

César Sandoval 

Agradecimentos e bibliografia:
Gustavo Machado
Denise Ortega
Roberto Fukue
Sessão Retrô - Youtube
Peu Gordyano