sábado, 10 de agosto de 2013

TURMA DO BARULHO: UM FURACÃO QUE CHACOALHOU AS HQS INFANTIS


TENTOU-SE DE TUDO

Turma da Fofura, Os Trapalhões, Fofão, TV Colosso, Menino Maluquinho, Senninha... durante dez anos, foram inúmeras as tentativas da Editora Abril de substituir os personagens de Maurício de Sousa. Afinal, ao sair da casa em 1987, Maurício não só levou suas criações para a Editora Globo, como também seu enorme faturamento em bancas. E abriu um buraco nas finanças da editora.
Para os quadrinhistas foi excelente, pois abriu espaço para que eles mostrassem suas criações.
Isso encorajou o desenhista Jótah em parceria com a produtora e colorista Sany (experts em desenhos infantis, tendo participado com animações para o programa Rá-Tim-Bum da TV Cultura, revistas da LBV, ilustracões para livros didáticos e jogos infantis) a entregar em 1993, um projeto de uma nova hq para a Abril. E acabou engrossando a fila de candidatos à vaga de Maurício na casa.

UMA EXPLOSÃO NAS BANCAS



E assim, no mês de abril de 1996, chegou às  bancas o primeiro número da TURMA DO BARULHO,  a mais ousada, irreverente, anárquica e divertida hq infantil (ou pré-adolescente) já criada no Brasil. Uma ousadia que, comparando, fez com que as outras hqs infantis parecessem histórias da carochinha. Talvez por isso seu projeto tenha ficado 4 anos nas gavetas do Grupo Abril. Foi a última tentativa da Abril Jovem com hqs nacionais. Tinha 32 páginas coloridas e saiu com tiragem de 30 mil exemplares.

As histórias giravam em torno do dia-a-dia de uma turma na escola, só que mostradas por outro ângulo, poucas vezes adotado pelas hqs infantis. A gíria, o palavrão, a pixação nos muros, o costume de “matar aula e colar na prova, o builling sofrido e também praticado,  a turma do fundão, o piercing, o “pum” em sala de aula, o "te pego lá fora", as brigas e rixas entre turmas, a paixão por video games, a loira do banheiro. Enfim, tudo de bom ou ruim que fez e faz parte da infância de qualquer criança estava lá, com muito bom humor.
Jótah teve a coragem de não só mostrar o universo lúdico da criança, mas também o seu lado mais humano, sarcástico, rebelde. Qual criança na vida nunca caçoou de outra ou mesmo falou um palavrão? 

  A TURMA DO BARULHO: da esquerda para a direita: Bob, Tóbi,
Carol, Kid Bestão, Milu e Babi
 
ADOLESCENTES AOS 10 ANOS
 
Os personagens da TURMA DO BARULHO tinham os hormônios à flor da pele e refletiam uma geração que entrava na adolescência mais cedo.
Várias situações foram criadas nas histórias para mostrar o comportamento dessa nova geração. Duas meninas (Milu e Babi) já estão querendo namorar e se apaixonam perdidamente por qualquer representante do sexo masculino. Os meninos espiam as mulheres se trocando ou tomando banho, e até se atrevem a dar uma espiada por debaixo da mesa, na cor da calcinha da professora. Travessuras de criança que já despertam para a sexualidade.

— ISSO NÃO ACONTECE COM A TURMA DAS OUTRAS REVISTAS!!
Raphael Vieira, 9 anos, sobre as histórias se passarem quase todas dentro da escola.

Espiar a menina tomando banho...

ou namoricos que iam além da mãozinha dada...os personagens da Turma do Barulho não eram assexuados. 

A PRODUÇÃO

Para dar conta da produção das hqs, Jótah montou um estudio na Rua Direita, no centro de São Paulo e reuniu um time  de artistas vindos em sua maioria da animação.
Enrique Valdez e Rosana Valin (hoje nos estúdios MSP), Jarbas Valin, Tomaz Edson, Jean Okada, Nelson Lima e Paulo Santos, formavam a equipe que produzia o gibi. Para compor um visual moderno e diferente do habitual, seus artistas empregaram uma diagramação que valorizava as cenas soltas, algumas sem requadro e cores contrastantes.

 Colocar ou não um brinquinho? Era um dilema da nova geração...

Do desenhista JEAN OKADA, autor do album Kário, dívida de sangue,
sobre a Turma do Barulho:


Participar do gibi da Turma do Barulho foi uma experiência incrível. Nessa revista pude realizar meu sonho de participar de uma publicação mensal, ver nas bancas um trabalho em que eu colaborava... Foi também um gibi onde cada um dos colaboradores colocou muito de si no projeto, pois a Turma nos fazia trazer à tona muito de nossas experiências pessoais, com amigos de infância e da escola, pra colocarmos tudo nas histórias que fazíamos. Acho que conseguimos quebrar algumas barreiras e fizemos um gibi infantil bem ousado. Fomos o mais longe que nos permitiram ir. Sou muito grato ao Jótah por essa grande oportunidade!





O LANÇAMENTO

O lançamento do primeiro número foi tumultuado. Uma troca repentina do papel inicialmente pensando para a impressão do gibi, fez com que os tons de pele de todos os personagens ficassem muito escuros, quase negros. Realmente, a cor de pele escolhida seria mais morena, porém, para um papel de melhor qualidade. Isso só pode ser consertado no número 3, quando adotou-se uma tonalidade mais clara.
A capa foi mudada diversas vezes ate chegar a sua versao final. Houve uma certa censura por parte da editora, principalmente no linguajar dos personagens, pois temiam chocar o publico. Mesmo assim era comum encontrar expressões como bunda, mijão, boiola, nomes que até hoje só aparecem nos quadrinhos da MAD. 

 A partir dessa edição, a tonalidade da pele dos personagens ficou mais clara,
para se adequar à impressão no papel jornal. Compare com a capa do número 1,
no início da matéria.

Para promover a revista, o estudio produziu, com recurso próprios, um comercial animado, que foi veiculado no sul do país.
A TV Globo noticiou o lançamento, inclusive com uma entrevista com seu criador, feita pela jornalista Sandra Annemberg.
Foram destaque no Festival Internacional de Quadrinhos do HQ MIX, ocorrido no Sesc Pompeia. Ao lado da Turma da Mônica, Senninha e dos personagens do Cartoon Network,  a Turma do Barulho apareceu no telão em um video clip ao som de uma banda de rock.

— ELES USAM UM VOCABULÁRIO IGUAL AO NOSSO!!
Luíza Ramos, 9 anos

Esportes radicais como o skate, eram os preferidos da turminha.


Do desenhista TOMAZ EDSON , dono do Estúdio Gibiosfera
sobre a Turma do Barulho:


Fui indicado pelo Enrique Valdez e, acabei produzindo letras e balões.
O Jota alugou uma sala comercial enorme em um velho edifício na Rua Direita. Era quase um andar inteiro e tinha pé direito duplo. Muito legal.
Quando li a primeira história e percebi que os roteiros e desenhos tinham outro pique de humor que não estamos acostumados a ver em edições infanto juvenis pensei: "Duvido que a Editora Abril vai publicar essa turma com toda aquela preocupação de politicamente correto e bláblábla´... "
Enfim, o fato é que o Jota conseguiu um contrato, marcou época e ganhou uma legião de fãs.
Uma curiosidade técnica: lembro que boa parte dos profissionais que lá trabalharam vieram da animação e você sabe que animador de formação, via de regra, tem uma dificuldade enorme em produzir quadrinhos e adequar os seus desenhos ao formato impresso. Isso não ocorreu na Turma do Barulho porque o Jota soube muito bem dirigir o pessoal e padronizar os diferentes traços e estilos dos desenhistas sem que para isso os desenhos virassem carimbinhos.
Enfim, foi uma época que me traz boas recordações que fazem parte de minha vida e meu portfólio.


 Nessa história publicada no número 1, Babi coloca um sutiã da irmã e já se acha
uma mocinha...


— AS OUTRAS REVISTAS SÃO MUITO INFANTIS, POIS NÃO TEM PALAVRÕES!!!!
Flávio Pecelli, 10 anos


Em 1996 quando eu tinha 8 anos de idade, ja era fã de gibis, foi aí que meu pai chegou com a Edição número 1 da Turma do Barulho, lançada pela editora Abril Jovem. Li o Gibi do inicio ao fim e gostei muito das histórias, dos personagens e do desenho. Era diferente de todos os gibis infantis que eu costumava ler na época! Então todos os meses eu ia com meus pais nas bancas de jornal comprar a revistinha mensal. O universo das histórias se encaixava bem com a realidade da escola que eu estudava, as tirações de sarro, o bullying, os palavrões, o valentão da sala, o CDF, as meninas assanhadas, inclusive eu e alguns outros alunos usavam brinquinho nessa época! KkKkKkKk A revistinha fez sucesso não só comigo, outros alunos também curtiam, teve uma vez que vi até a Professora de Educação Fisica lendo uma edição.... Fiquei muito triste quando acabou, mas hoje, depois de tanto tempo, garimpei nos sebos e consegui comprar os números que eu não tinha, e consegui ler com o mesmo entusiasmo que eu tinha na infância...
Felipe S. Borges

A Folhinha de São Paulo destinou a capa e mais quatro páginas para falar sobre a nova turminha das bancas. O jornalista Thales de Menezes fez uma bela materia sobre o lançamento e a equipe da Folhinha levou o gibi para apreciação dos alunos do Colégio Augusto Laranja em São Paulo. As crianças opinaram e gostaram principalmente da linguagem do gibi, mais próxima da sua realidade, do dia-a-dia na escola, com suas aprontações, paqueras e aventuras. O pequeno estudio da Rua Direita passou a receber cartas do Brasil inteiro. A Turma do Barulho conquistava uma boa parcela do publico infantil.
Cautelosamente, Jótah deixou para fazer o lançamento oficial da revista só no número 5, periodo em que já se pode saber se o título “pegou”ou não. Em um pequeno espaço da livraria Melhoramentos, mais de trezentas pessoas, entre artistas de hqs, e publico em geral, se acotovelavam para folhear a revista e saber o que a turma estaria aprontando nessa nova edição. Um sucesso! Teve até apresentação do coral da LBV. Isso foi no domingo.

 Capa da FOLHINHA DE SÃO PAULO, com matéria especial sobre a TURMA


E DEPOIS, O SILÊNCIO…

No dia seguinte a revista foi cancelada. A Abril Jovem já estava em crise, o que resultou no seu fechamento no ano seguinte, quando voltou a ser um departamento dentro do grupo. Muitos títulos foram cancelados e a Turma do Barulho foi junto. O motivo alegado foram as baixas vendas.
Jótah colocou um advogado para verificar o que havia de encalhe nos depósitos. Ele foi e retornou dizendo: 
 —Desculpe, não posso pegar o seu caso!
Da empresa Character que cuidaria do possível licenciamento dos personagens veio a seguinte resposta:   
—“Você está mexendo com gente grande. É só o que eu posso dizer…
O que realmente aconteceu com um título que despontava para o sucesso e repentinamente foi cancelado, não se sabe.
Seus personagens ainda tiveram uma sobrevida, através da pequena Editora Press, de Sérgio e José Guimarães. Com a coordenação e edição de Carlos Mann, o título foi relançado durante o ano de 1997, com um total de seis edições.
Jótah continuou a sua carreira e hoje é um dos maiores ilustradores do Brasil, além de ter também vários livros de sua autoria.

 Capa do primeiro número da TURMA DO BARULHO pela Editora PRESS.



— ESSA REVISTA É BEM PARECIDA COM A VIDA REAL!!!
Thiago Nanini, 9 anos
 As histórias também focavam em temas polêmicos, como por exemplo, fumar na adolescência, sempre mostrando o que era legal e o que não era.

E assim A TURMA DO BARULHO veio, chacoalhou o mercado de quadrinhos,  teve boa aceitação de publico, causou indignação, revolta e admiração em muita gente, e como um cometa passou rapidamente  e desapareceu. Dificilmente é mencionada em premiações ou mesmo em publicações que tratam da história da hq brasileira.

Curiosamente na mesma época, a banda Mamonas Assassinas, causava a mesma indignação ao fazer crianças e jovens de todo o Brasil  cantarem frases como “Oh Maria, essa suruba me excita”. Sua curtíssima carreira terminou quando um acidente aéreo matou todos os seus integrantes. E tal e qual o gibi também marcou época. Os dois, o grupo musical e o gibi tinham um único propósito: DIVERTIR!
 


O mundo estava mudando, mas a mídia foi perceber isso algum tempo depois.

Hoje, alguns quadrinhos já dialogam com uma nova criança, antenada, conectada com o mundo…
Um “pequeno adulto”, como bem disse Maurício de Sousa, em entrevista a Fernando Vives da revista Carta Capital.
A Turma do Barulho sacou tudo isso lá em 1996. 
Com  uma visao mais sarcástica e bem humorada, trouxe para as bancas a galera que está aí hoje.
Uma pena, porque... 
...talvez fosse cedo demais.




Ficou curioso e quer ler os quadrinhos da TURMA DO BARULHO?
Procure nesses endereços…pode ser que você encontre uma ou mais edições.

http://www.maniadegibi.com/loja/
http://www.guiadosquadrinhos.com/ 
http://www.mercadolivre.com.br

PARA CONHECER MAIS SOBRE JÓTAH, O CRIADOR DA TURMA DO BARULHO:
http://www.biografiajotahautorilustrador.blogspot.com.br/

BIBLIOGRAFIA E AGRADECIMENTOS:

• Capa do número 1, restaurada pelo fã Felipe S. Borges.
• Trechos de entrevistas realizadas pelos jornalistas Thales de Menezes e Maristella do Valle para a Folhinha de São Paulo, edição 1706, de 10 de maio de 1996.
• www.tonyfernandespegasus.blogspot.com - TONY FERNANDES
• acervo.folha.com.br







sexta-feira, 28 de junho de 2013

UM TALENTO QUE ATRAVESSA GERAÇÕES

a trajetória de Izomar Camargo Guilherme



UM SONHO DE MENINO

Capa de Izomar para a revista MAZZAROPI

Nos anos 1950, enquanto desenhava belissimas capas para a Editora La Selva, Jayme Cortez formava pelo Brasil um pequeno fã-clube. Eram jovens aspirantes a desenhistas, que queriam trabalhar com hqs. Na pequena cidade de Assis, interior de São Paulo, um jovem se preparava para mandar seus desenhos para avaliação. Sonhava em trabalhar com histórias em quadrinhos, era sua paixão. 

Viajou então para a capital, e esperava sair daquele sobrado da V. Mariana, sede da La Selva, com algum trabalho embaixo do braço. Cortez avaliou seus desenhos e soltou a seguinte frase:  — Isso não pode ser o trabalho de um profissional! —e jogou em cima da mesa, aquelas folhas rabiscadas com tanta esperança. 

Para muitos o que poderia ser um trauma, para o jovem Izomar Camargo Guilherme foi estímulo.  A rudez das palavras (caso semelhante teria ocorrido com Julio Shimamoto, outro grande mestre), serviram para que ele aprimorasse seu traço e melhorasse cada vez mais. Essa era a intenção de Cortez
Tanto que algum tempo depois, ele encomendou o primeiro trabalho ao rapazote. 


Assim, o jovem passou a desenhar para a revista FUZARCA E TORRESMO, com roteiros de Claudio de Souza. Fazia também a arte final a pincel. Tudo era feito em cartolina, pois não existia papel especial. 

Dali se seguiram participações em CAREQUINHA E FRED, com histórias de uma página, e as incríveis capas da revista MAZZAROPI, que até então eram feitas apenas pelo Cortez.

                   Capa de Izomar Camargo Guilherme para a revista MAZZAROPI, n. 18.


Na revista FANTASIA, também da La Selva (1960-61), Izomar fazia tudo. Roteiro, desenho e arte final. Para ela, criou os personagens Dingo e Dungo, que fizeram grande sucesso.
Aventurou-se também no gênero "terror", sempre convidado por Cortez, cujo traço imitava com perfeição.

Até ser convidado pelo seu amigo Waldyr Igayara de Souza, a trabalhar na Abril. A pequena editora paulista já caminhava para ser a líder e ameaçava a supremacia dos grupos cariocas, como Ebal, O Cruzeiro, Bloch e RGE (Roberto Marinho). 
Seu trunfo eram os gibis Disney e a produção de suas hqs no Brasil, iniciada em 1961. 

Izomar começou fazendo capas para a revista ZÉ CARIOCA, e depois muitas hqs, quase sempre em parceria com Igayara nos roteiros.


Página da hq UM FESTIVAL EMBANANADO, uma das muitas feitas pela dupla Igayara e Izomar. Produzida em 1968, satirizava os festivais de música da época. Foi republicada em 2012, no ESPECIAL ZÉ CARIOCA 70 ANOS.


Em 1968 participou junto a Igayara, Sonia Robatto e Ruth Rocha, da criação de um marco na história das  publicações brasileiras: a revista RECREIO. 
Denominada a "revista-brinquedo", RECREIO vinha direcionada às crianças em idade pré-escolar e trazia contos, atividades e brinquedos para recortar e montar. 

Foi um sucesso estrondoso, chegando a ser adotada em escolas por todo o país, como material paradidático. Lançou muitos autores como Ana Maria Machado, Flavio de Souza,  Eliana Sá, e fez saltar no jovem Izomar a veia de escritor. Entre muitos contos infantis que escreveu e ilustrou, GELOSO, O GELINHO (publicada em RECREIO n. 60, 1970) foi um dos que mais fez sucesso, tanto que motivou a Editora Moderna a transformá-lo em livro alguns anos depois.

A revista RECREIO foi um divisor de águas e deu impulso à produção de literatura infantil, lançando novos autores




Com o sucesso da publicação, Izomar torna-se Diretor de arte da editora, atuando no Departamento de Criação, cuidando das capas e também do conteúdo de boa parte dos títulos em quadrinhos da década de 1970 e 80. Sob sua direção estavam Henrique Farias, Luiz Podavin, Napoleão Figueiredo, Paulo José da Silva, entre outros. 
Deu oportunidade e orientou muitos jovens na arte dos quadrinhos. Como fez em 1972, quando  recebeu em sua sala um menino de apenas 13 anos que sonhava desenhar quadrinhos Disney. O menino apelidado depois de Chin era Euclides Kioto Miyaura, considerado hoje um dos maiores desenhistas Disney brasileiros, publicando inclusive em outros países.

Em paralelo, Izomar continuou sua carreira como autor infantil, lançando as obras A LAGARTIXA QUE VIROU JACARÉ, UM PEIXINHO DO OUTRO MUNDO e BRIGA DE UMA NOTA SÓ, todas ilustradas por ele. Seus livros acabam de chegar  à Europa, Estados Unidos e América Latina.




E assim Izomar foi se distanciando dos quadrinhos e se dedicando mais a escrever e desenhar. Ao sair da Abril na segunda metade da década de 1990, passou a ilustrar livros didáticos. 

Aos 74 anos, Izomar é um artista incansável. Continua atuante, desenhando para várias editoras. Por opção, não aderiu à modernidade.

É um dos últimos representantes de uma geração em que a arte era feita em papel Schoeller, a lápis, coberto com nanquim preto e colorida com tintas guache, ecoline ou aquarela. Arte pura, sem computador.


 Mural com desenhos feitos pelos alunos da Escola Presidente Vargas, em abril de 2013, após a leitura da obra A LAGARTIXA QUE VIROU JACARÉ.

Quer encontrá-lo? Quando não está debruçado na prancheta fazendo o que mais gosta, poderá vê-lo em suas caminhadas diárias pela Avenida Paulista, próximo de sua casa. Ou em uma cafeteria que frequenta na mesma avenida, onde entre suas altas gargalhadas e seu bom humor, cativa a todos contando histórias da vida. Que o diga a atendente Cristina, fã do freguês assíduo.

Capa de Izomar para a edição do Círculo do Livro de EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA,
obra de Monteiro Lobato.

Eu o encontro quando olho para um quadro na parede do meu escritório, que protege a arte original de capa do gibi MAZZAROPI, feita por ele em 1958. Apesar do papel amarelado pelo tempo, a arte continua belíssima e parece que foi feita ontem. 

Essa capa me transporta para o tempo da Editora La Selva, de Jayme Cortez, dos gibis do MAZZAROPI, OSCARITO E GRANDE OTELO e dos grandes profissionais que se formaram ali, do menino Izomar que sonhava em desenhar quadrinhos e o fez com maestria, ensinando e lançando muitos profissionais. 

E quando volto aos dias de hoje, o encontro firme, forte e atuante, ilustrando para livros didáticos e paradidáticos em editoras como Moderna, Saraiva, FTD, entre outras.

 O quadro da esquerda é a capa original da revista MAZZAROPPI, n. 18, criação e arte de Izomar (veja a reprodução da capa impressa lá pra cima). Ao lado, capa também original do mestre Jayme Cortez para FUZARCA E TORRESMO. Ambas dos anos 1950.

Sua arte, enquadrada ali na parede, sobrevive ao tempo e atravessa gerações. 

O artista também.   





Os livros de Izomar podem ser adquiridos aqui:

http://www.modernaliteratura.com.br/main.jsp?lumPageId=4028818B30410B7A01304BB1FE4E5C7C&itemId=9EB72E05F55A4BE39D5C981BE8232001

Agradecimento especial:
Alexandre Miasato Uehara

FONTES CONSULTADAS:

Marcos Dhotta - carissimascatrevagens.blogspot.com




bibliotecadaescolapresidentevargas.blogspot.com.br

Museu Mazzaropi

Especial Zé Carioca 70 Anos - Editora ABRIL, nov. 2012.





domingo, 19 de maio de 2013

E O PALHAÇO O QUE É?.... PERSONAGEM DE GIBI! - Parte 1






Em 18 de setembro de 1950, era inaugurada a PRF-3 TV Tupi de São Paulo, a nossa primeira emissora de televisão, com shows de vários artistas, como Hebe Camargo e Ivon Cury.
Logo na estreia, um número cômico do grande ator e comediante Mazzaropi, que havia feito muito sucesso no rádio. Esse comediante caipira se apresentou em muitos palcos antes de chegar à TV, entre eles, o circo. De grande popularidade, as companhias circenses consagraram artistas que seguiram o mesmo caminho. Além de Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo, Fuzarca e Torresmo, Arrelia e Pimentinha, Carequinha e Fred, também foram para o rádio e depois para a TV. E para não ficar só na memória, já que nem vídeo tape existia, eles foram parar nos gibis, iniciando uma prática que se tornaria constante nas décadas seguintes!
Então, ABRAM-SE AS CORTINAS, POIS VAI COMEÇAR O ESPETÁCULO!!

COMO VAI, COMO VAI, COMO VAI?
EU VOU BEM, MUITO BEM, BEM, BEM!

ARRELIA E PIMENTINHA





Waldemar Seyssel era o verdadeiro nome do palhaço Arrelia, que após fazer muito sucesso junto a seu irmão, o palhaço Aleluia, chega à televisão em 1951, com o programa "Circo do Arrelia"pela TV Paulista. Trouxe para a telinha um novo parceiro, seu sobrinho Walter Seyssel, chamado de Pimentinha. Estava formada aí, uma das maiores duplas cômicas da história da TV brasileira.
Todo mundo ria com as trapalhadas dessa dupla na TV. Seus bordões faziam sucesso entre a criançada. Em 1953, a dupla de palhaços troca de emissora e estreia na TV Record.


Página da hq Super-palhaço, escrita por Flávio de Souza, com desenhos de Messias de Mello

Capa de Messias de Mello

Não demorou muito para eles chegarem ao gibi. Estrearam nas bancas em 1956, pela Editora La Selva, com os belíssimos traços do desenhista Messias de Mello, este que também havia trabalhado no circo, bem antes, como cartazista, e até ajudara a montar e desmontar a lona. Messias foi um dos maiores desenhistas de sua época, lançou e influenciou muitos artistas, sendo reverenciado até hoje.
A revista durou até 1959. O programa de televisão foi bem mais duradouro chegando até 1974!




O Anão Teodorico, roteiro de Flávio de Souza, desenhos de Messias de Mello

*
 
ASSIM EU NÃO AGUENTO! - Torresmo
AGUEEEEENTAAAAA!!! - gritavam as crianças

FUZARCA E TORRESMO



Capa de Jayme Cortez

Nascido dentro do circo de seus pais, José Carlos Queirolo (Torresmo), fez carreira por todo o Brasil, junto ao seu parceiro cômico Albano Pereira (Fuzarca). A  dupla Fuzarca e Torresmo estreou na TV no dia 12 de outubro de 1950, como um presente da TV Tupi Difusora, para o Dia das Crianças. Dali em diante, passaram a participar de vários programas, fazendo sempre esquetes cômicas de grande sucesso. Tiveram gibi nas bancas de 1955 a 1959. Com a morte de Fuzarca em 1975, Torresmo passou a se apresentar com seu filho Pururuca.
História de Jayme Cortez. Desenhos de João Batista Queiroz, que foi um dos primeiros a
desenhar hqs Disney no Brasil




História de Jerônimo Monteiro


A dupla fez tanto sucesso que gravou vários discos. Esse é um deles.


*

O BOM MENINO, NÃO FAZ XIXI NA CAMA
O BOM MENINO, NÃO FAZ MALCRIAÇÃO...

HOJE TEM MARMELADA???
TEM! TEM! TEM!  
                                                           
CAREQUINHA E FRED


Também dentro de um circo, em 1915, nasceu George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha. De longa carreira de sucesso nos palcos e no rádio nas décadas de 1930 e 1940, chegou à televisão em 1951, sendo o primeiro palhaço a ter um programa só seu, o Circo Bombril, chamado algum tempo depois de Circo do Carequinha. Ao lado de outro grande artista, o palhaço Fred, ele alegrava a criançada das décadas de 1950 e 1960.


Roteiro de Cláudio de Souza. Desenhos de João Batista Queiroz

Chegou aos quadrinhos em 1958, em histórias escritas por Cláudio de Souza e desenhadas por Julio Shimamoto e João Batista Queiroz.
Prosseguiu com sua carreira na TV, trabalhando em várias emissoras, sempre com atrações infantis. Comandou o programa "Circo Alegre" na TV Manchete  nos anos 1980, que foi precursor do "Clube da Criança" que lançou a apresentadora Xuxa.
Em 2005, com 90 anos, Carequinha interpretou a si mesmo na série "Hoje é Dia de Maria".

"Hoje o palhaço é figura secundária. Antigamente, era o querido do circo.
E a criança também mudou um pouco. Ela tinha aquele sorriso simples, comum.
Hoje, ela assiste a coisas indecentes na internet, escuta imoralidades na
televisão e se habitua a falar e a fazer tudo isso, infelizmente".
­

Carequinha

                                                        
OSCARITO E GRANDE OTELO


Anúncio de lançamento de OSCARITO E GRANDE OTELO em quadrinhos





Desde os cinco anos de idade, Oscarito já se apresentava no circo. Nascido em 1906, esse ator, comediante, acrobata e trapezista, também passou pelo teatro de revista, antes de chegar as telas de cinema. Através da Cia Cinematográfica Vera Cruz, estrelou filmes de grande sucesso na década de
1950, como Carnaval Atlântida, Dupla do Barulho e Matar ou Correr, sempre ao lado de seu fiel parceiro, o também ator e comediante Grande Otelo. Este, nascido em 1915, se apresentou no circo e no teatro de revista, antes de chegar ao cinema. Participou do primeiro filme da Atlântida, "Moleque Tião".


Página da hq O PANDEIRO MÁGICO, história de Flávio de Souza e
belíssimos desenhos de Messias de Mello

Durante a década de 1950, a dupla de comediantes reinou absoluta no cinema e na preferência do público, chamando a atenção da Editora La Selva, que entre 1957 e 1959, publicou um gibi mensal da dupla. Assim chegava às bancas, Oscarito e Grande Otelo em quadrinhos, com roteiros de Claúdio de
Souza, Alberto Maduar, entre outros. Os desenhos ficaram a cargo de Messias de Mello, João Batista Queiroz, Aylton Thomaz e Juarez Odilon.







MAZZAROPI




Amacio Mazzaropi nasceu em 1912 em São Paulo, mas foi criado na cidade de Tremembé, no interior. Começou a carreira contando anedotas e causos em apresentações no Circo La Paz. Em 1946, estreia na Radio Tupi, o programa Rancho Alegre, levado á TV em 1950, com o mesmo nome.
Em 1952, estreia seu primeiro filme, Sai da Frente, produzido pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Nesse mesmo ano, cria sua própria produtora de filmes, e começa a colecionar sucessos. Sucessos que o levaram para as páginas de um gibi, lançado em 1956, também pela La Selva. A equipe da editora, utilizava fotos de Mazzaropi tiradas por Zaé Junior, como base para os desenhos.


Jayme Cortez fez as capas do número 1 ao número13


A partir do número 14, as capas passaram a ser assinadas por Izomar Camargo Guilherme

Essa primeira fase da revista foi até 1958 e saíram 14 numeros. Algum tempo depois, em 1965, a La Selva decide retornar com o título, lançando mais 20 edições, encerrando sua publicação em 1967. Jayme Cortez fazia a maioria das capas e também produzia os cartazes dos filmes de Mazzaropi.


Capa de Jayme Cortez


EDITORA LA SELVA

Fundada em 1950, a Editora La Selva enxergou no sucesso das duplas circenses e nos astros do cinema, uma oportunidade de criar revistas em quadrinhos nacionais. Seu proprietário Vito La Selva, já contava com uma equipe de colaboradores extremamente talentosa que cuidava das revistas da casa, principalmente a TERROR NEGRO, seu primeiro grande sucesso. Dessa equipe faziam parte: Reinaldo de Oliveira, Milton Julio, Claudio de Souza, Alberto Maduar, Flávio de Souza, Messias de Mello, João Batista Queiroz, Miguel Penteado, Aylton Thomaz, Izomar Camargo Guilherme, Gedeone Malagola, Nico Rosso, Sérgio Lima, Syllas Roberg, Jerônimo Monteiro, Julio Shimamoto, Juarez Odilon, Veneziano, José Fioroni Rodrigues e Jayme Cortez, como Diretor Artístico e Capista.
Funcionando em uma casa na V. Mariana, em São Paulo, o ambiente era sempre alegre e festivo, afinal de contas, quem comandava era uma família italiana.


Jayme Cortez e Mazzaropi na sede da Editora La Selva

Aos sábados e domigos eram oferecidos almoços e jantares a todo o elenco da casa, e tudo era motivo pra uma festa ou confraternização. Editando quadrinhos de terror, aventuras, clássicos da literatura e infantis, a La Selva prosseguiu até 1968, quando fechou as portas.


O QUE VEIO DEPOIS
Nas décadas seguintes, o circo e seus alegres palhaços continuaram a aparecer nas histórias em quadrinhos. Em 1972, chegava às bancas de jornais de todo o país, acompanhando de grande campanha, inclusive na TV, a revista SACARROLHA, uma criação de Primaggio Mantovi. Era o resultado de um concurso interno da Rio Gráfica e Editora, cujo ganhador receberia como prémio, a publicação de seu personagem e um contrato de três anos. Primaggio atingiu a marca de 36 edições, sempre retratando o ambiente alegre e festivo do circo, tendo o palhaço Sacarrolha como protagonista.



Na década de 1980, surge pela Editora Abril, o palhaço ALEGRIA, também em revista mensal. 

Criada por uma equipe comandada por Waldyr Igayara de Souza, o palhacinho acabou ficando com o copyright da Editora Abril e foi licenciada para vários produtos. Sua revista teve um total de 57 edições.
A TURMA DO LAMBE LAMBE, de Daniel Azulay, também tinha um pé no circo, através do personagem Tristinho. Derivado do programa de TV de grande sucesso, chegou aos quadrinhos via Editora Abril, também nos anos 1980. Também nessa década vemos surgir o palhaço BOZO (SBT) e a dupla ATCHIM E ESPIRRO.

Ainda surgiram outros que, mesmo não usando a roupa de palhaço, usavam e abusavam das mesmas brincadeiras e truques circenses para agradar às crianças, como SÉRGIO MALLANDRO e CHAVES, mas o maior palhaço televisivo que surgiu após a trupe de cômicos da década de 1950, foi Renato Aragão e o seu quarteto OS TRAPALHÕES. 
Herdeiro das tradições circenses, Renato Aragão declarou em entrevista que, aos quinze anos, chegou a assistir um filme com Oscarito dezoito vezes, e declarou: "Quero ser esse cara!" E partiu para realizar seu sonho.
Começou na TV nos anos 1960, juntou-se ao artista circense Manfried Sant'Anna (Dedé), depois a Mussum e Zacarias. Passaram por diversas emissoras até chegar à TV GLOBO em 1977 e se consagrarem junto ao público e crítica. É claro que virariam gibi, lançado em 1976, por Edmundo Rodrigues e a Bloch Editores. Em meados de 1979, o gibi passa a ser produzido pelo Estúdio Ely Barbosa e torna-se um grande sucesso, sendo lembrado até hoje.




A tradição circense está morrendo. Tudo hoje é muito mais sofisticado e tecnológico. O espetáculo que se fazia sob lonas e encantava adultos e crianças, não é mais o mesmo, embora ainda existam boas e grande companhias circenses. Na TV, eles ainda resistem, com moderado sucesso, vide a dupla Patatí Patatá.
As histórias em quadrinhos perpetuam a tradição e o mundo do circo. Apesar de serem difíceis de se achar, procurando com paciência nos sebos e sites de gibis antigos, ainda se encontra exemplares de clássicos como ARRELIA E PIMENTINHA, FUZARCA E TORRESMO, OSCARITO E GRANDE OTELO, que iniciaram a prática de se adaptar sucessos da TV para as hqs.
Sob o comando de Jayme Cortez, grandes desenhistas emprestaram seu talento para esses gibis e muitos inclusive, começaram sua carreira ali.  Um deles ainda está na ativa, e nos conta na segunda parte dessa matéria, como era produzir esses clássicos das hqs.



Na próxima semana:
PARTE 2

Entrevista com
 IZOMAR CAMARGO GUILHERME 



Bibliografia

www.infantv.com.br
www.maniadegibi.com
www.messiasdemello.com.br
www.museudomazzaropi
www.gibiraro.com.br - Kendi Sakamoto
www.sallesfanzineiro.blogspot.com.br
http://tonyfernandespegasus.blogspot.com.br/2012/01/editora-la-selva-imigrantes-italianos.html
Gonçalo Junior - A GUERRA DOS GIBIS - Cia das Letras
Bigorna.net