quarta-feira, 15 de agosto de 2012

KIDNEWS! ...E O QUADRINHO BRASILEIRO INVADIU AS ESCOLAS!



Em uma época em que revistas em quadrinhos de sucesso eram canceladas, devido a recessão econômica provocada pelo governo do então presidente Fernando Collor de Mello, uma grande ideia era lançada, apesar de tudo apontar para ser um retumbante fracasso. Afinal, Urtigão, Turma do Arrepio, Chapolim e Chaves, estavam se retirando das bancas. Não era hora de lançar uma revista mix, ainda mais só com quadrinhos nacionais. Mas, e se ela não fosse para as bancas, mas sim, distribuída nas escolas? E se não fosse uma revista, mas sim, um jornal, tablóide? E se buscasse patrocinadores para "bancar" a sua distribuição aos alunos? Todas essas questões passaram pela cabeça do desenhista e animador Paulo José, e seu sócio, Roberto Munhoz, também desenhista e roteirista.
Assim nasceu KIDNEWS, jornal infantil no formato 1/2 tablóide, com 08 páginas, sendo quatro coloridas. A tiragem inicial era de 30.000 exemplares, distribuídos gratuitamente nas principais escolas particulares de São Paulo. O público era bem definido e logo atraiu bons anunciantes. Já que o jornal era só de quadrinhos, a ideia era criar anúncios no formato de hqs, com personagens especialmente criados para tal empresa e seus produtos. Isso na verdade, era um aprimoramento da ideia que o desenhista Ely Barbosa tivera no início da década de 1980, quando lançou o JORNALZINHO DO CACÁ, encartado no jornal METRÔ NEWS, distribuído gratuitamente nas estações de metrô de São Paulo. Em 1990, também existiu o SPORT GANG, jornal criado pela dupla Jal e Gual, voltado aos alunos, com quadrinhos criados também por Otavio Cariello e Kipper.

Jornalzinho do Cacá, de Ely Barbosa. Distribuído junto ao Metrô News, nas
estações de Metrô de São Paulo.

Capa da edição 18 (abril de 1995) que foi distribuída durante o HQ MIX.

Para produzir o jornal mensalmente, o desenhista Paulo José após uma longa carreira de animador e desenhista (fundou a Thalia Filmes), com passagens pelos estúdios de Maurício de Sousa, Hanna Barbera, Editora Abril (revista do FAUSTÃO) e Globo (REVISTA DA XUXA), criou junto a Roberto Munhoz, a Editora Bingo Comunicação, situada em um belo sobrado no bairro do Sumaré.
KIDNEWS chegava ao público "ancorado" pelo Sapo Xulé, criação de Paulo José, baseado na cantiga de roda "O Sapo não lava o pé", que já tinha se transformado em brinquedos e games de grande sucesso.
O conteúdo editorial era variado, alternando hqs com personagens institucionais, passatempos, séries culturais para serem utilizadas para trabalhos e discussões durante o ano letivo, concursos e também quadrinhos sem vinculação alguma com qualquer empresa.
Além de uma pequena equipe interna, o jornal contava com a assessoria de psicólogos e pedagogos, e também de desenhistas colaboradores, que eram convidados por Paulo José para ali publicarem seus personagens, muitos deles inéditos. Era uma grande oportunidade.


A partir do numero 3, a publicação passa a ter 16 páginas, sendo 8 coloridas.
Em 1994, sua tiragem atingiu a marca de 100.000 exemplares mensais, prosseguindo assim até 1996. A partir do numero 16 (fevereiro-1995), seu formato mudou para 1/4 de tablóide, ficando assim bem mais adequado ao seu público, por se aproximar das demais revistas infantis. Circulou em mais de 200 escolas particulares de São Paulo, além de escolas públicas de Vila Paulicéia e Indaiatuba.
KIDNEWS deu uma grande contribuição ao quadrinho brasileiro, abrindo suas páginas para que artistas novos ou veteranos, publicassem seus personagens. Durante os seus 5 anos de publicação, pudemos apreciar o trabalho dos seguintes autores:
JAL (SPORT GANG) do jornal homônimo
Genival de Souza (TED)
Heloísa Galves (HOLDA, OS DUENDES)
José Miguel Lara (ANDRÉ)
Adeir Rampazzo (ORELHINHA)
Luiz Ferré (TV COLOSSO) em hqs criadas por Marcelo Alencar e Sérgio Furlani
Verde (SAM E BABI)
Airon (KIKA, FELINA)
Jorge Barreto
Henrique Farias (Capitão Panaca)
Rosana Munhoz (BRASÃO)
Paulo José (BINGO, SAPO XULÉ, O INDIOZINHO SEM NOME, GATOS & CIA, URBANINHO, DR. MURA)

Página de AS AVENTURAS DO INDIOZINHO SEM NOME, personagem de grande sucesso do jornal. Ele buscava realizar um ato de bravura, para aí então, segundo a tradição de sua tribo, ganhar um nome. Mas ele era amigo de todos os bichos e pássaros da floresta, então ficava difícil. Criação de Paulo José. Roteiros de Roberto Munhoz. 

Capa do número 15 ( novembro -1994). Uma bela amostra de boa parte dos personagens que saíam no jornal.

Para que os patrocinadores entrassem no jornal em forma de hq, várias famílias de personagens foram criadas por Paulo José. A saber:
A TURMA DO BUBBALOO (Chicletes Adams)
CHOKITO (Nestlé)
MINI CHICLETES
TODDYNHO
BICANO (canetas BIC)
REACHER (Johnson & Johnson), personagem cujos direitos autorais foram adquiridos pela empresa, para depois utilizá-lo em campanhas publicitárias no Brasil e na Argentina
BIT KIDS (BIT Company)
OS PLAYLOKOS (Playcenter)
LEE KIDS (calcas Lee)
Muitos personagens fizeram tanto sucesso, que ganharam publicações próprias, que circulavam como brinde junto a seus produtos, ou eram distribuídas gratuitamente em diversos locais.

Exemplos de revistas avulsas, com personagens que saíram do KIDNEWS.

OS PLAYLOKOS circularam no Playcenter (tradicional parque de diversões de São Paulo), em revistinhas que ensinavam a utilizar seus brinquedos.
TODDYNHO virou uma série de mini-revistas que vinham de brinde na compra do achocolatado nos supermercados.

Série em quadrinhos do TODDYNHO. A embalagem com três Toddynhos, vendida nos supermercados, vinha com um exemplar de brinde.

Em 1995, KIDNEWS publicou uma série de grande sucesso: OS CEM ANOS DO ÔNIBUS. Em 6 capítulos mensais, patrocinados pela Mercedes-Benz, contava a história desse popular meio de transporte. Para criar o roteiro da série, Roberto Munhoz fez várias visitas aos arquivos da empresa. Assim foi criado o BUS, um ônibus vindo do futuro, que levava duas crianças, Bruna e Renato,
até o ano de 1895, na Alemanha, onde o ônibus fora criado, para contar a sua história até chegar aos dias atuais. Motivou um concurso de redação nas escolas, com direito a prêmios, cujo resultado foi publicado junto ao último capítulo da série.

Capa da edição com o primeiro capítulo da série OS CEM ANOS DO ÔNIBUS.


Página de OS CEM ANOS  DO ÔNIBUS. Roteiro de Roberto Munhoz, desenhos de Altino Lobo, arte final de Patrícia Zaccarias e cores de Alexandre Silva.

KIDNEWS também acompanhava os alunos durante as férias. Em janeiro de 1996, saiu a edição especial KIDNEWS PRAIAS, totalmente colorida, distribuída gratuitamente nas praias do Guarujá, litoral de São Paulo.

KIDNEWS PRAIAS. Sucesso total.

Com o sucesso da publicação, tentou-se levar seus personagens para as bancas. Foi então que em 1995, foi lançada a revista de atividades do SAPO XULÉ, publicada pela própria EDITORA BINGO. A ideia era a de um personagem diferente a cada edição. Porém, esse foi o único número publicado.
Em fins de 1996, a sociedade foi desfeita, e a Editora Bingo fechou. KIDNEWS continuou saindo, pelas mãos de Paulo José, que abriu outra empresa, a Editora Kidnews. Com menos patrocinadores, a publicação caiu para 8 paginas e o seu alcance também era menor.

Capa da Revista de Atividades com o SAPO XULÉ. No número 2, seria o INDIOZINHO SEM NOME.


Dois únicos números lançados da revista KIDNEWS, pela Editora PRESS em 1997.

Em 1997, ainda com o jornal em circulação tentou levá-lo novamente para as bancas. A revistinha KIDNEWS, com 32 páginas coloridas, teve apenas duas edições publicadas pela Editora PRESS.
Com o cancelamento da revista, veio também o fim do jornalzinho KIDNEWS, que tanto divertiu e ensinou crianças e adultos, pois, segundo pesquisa, os pais também liam a publicação.
Para mim, que trabalhei como colorista do tablóide durante quase 4 anos, a falta que faz é a da equipe maravilhosa que se formou. Além de Paulo José e Munhoz, tínhamos o talento de Altino Lobo, artista versátil que desenhava boa parte das hqs (hoje atuando nos estúdios MSP), a arte final do saudoso Wanderlei Feliciano, Tomaz Edson (Estúdio GIBIOSFERA), Patricia Zaccharias, arte finalista oficial do jornal (falecida em outubro de 2012), Denise Ortega, Marcelo Conquista, José Wilson Magalhães, Ana Paula Medeiros, Washington Andrade, Marcia Garbelini, Tania Ramos, Rolando Di Sessa. Saudades também das festas de fim de ano, que reunia todos os colaboradores.
KIDNEWS é pouco divulgado em artigos e publicações que tratam da história de nossos quadrinhos, porque teve uma circulação restrita, porém sua importância é inquestionável. Motivou o desenhista Altemar Domingos a criar em 2007, o EURECA! SUPERKIDS, tablóide infantil também distribuído nas escolas.
Roberto Munhoz atualmente faz parte da equipe de roteiristas dos Estúdios Mauricio de Sousa.
Paulo José retornou aos quadrinhos em 2006, criando roteiros para os gibis do MENINO MALUQUINHO da Editora Globo. Mas voltou mesmo com força total à animação, produzindo em parceria com a Cinema Animadores a série do SAPO XULÉ. Planejado para ter 26 episódios de 2 minutos e meio cada, o projeto foi premiado em 2006 no I MITV (1º. Fórum Internacional de entretenimento, organizado pela Converge Editora / Tela Viva) e a série foi veiculada em 06 episódios em setembro de 2008, pela Rede TV!, sendo a primeira animação brasileira a ser exibida em HD.
O Sapo Xulé foi licenciado pela Estrela e virou boneco de vinil. A série transformou-se em DVD-Books, lançados pela Editora Callis, além da sua musiquinha virar ring tone da TIM. Participou também como convidada no Anima Mundi 2009. Foi exibida no Kidscreen Summit, em Nova York, evento voltado ao entretenimento infantil.

Coleção de DVD-Books da Editora CALLIS, lançada em 2008. 

Vejam que O Sapo Xulé, âncora do nosso saudoso KIDNEWS, continua por aí, aprontando
das suas. Quem sabe, nessas suas andanças, ele não desperte nas pessoas a vontade de ver o velho jornalzinho circulando de novo. Talvez agora como um portal na internet, quem sabe. O quadrinho brasileiro agradece.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

PATRULHA DO UNIVERSO NA INTERNET



PATRULHA DO UNIVERSO, a primeira Graphic Novel Disney produzida inteiramente no Brasil, foi lançada em abril de 1991, pela Editora Abril Jovem. Com roteiro de Gerson Teixeira, cenários de Watson Portela, personagens de Eli Leon, arte final de Antonio Lima e colorização minha, foi publicada na Itália, França e Espanha, mas nunca foi republicada por aqui. No ano passado, fiz uma pequena matéria contando a respeito desse trabalho em    alexandrehq.blogspot.com/2011_02_01_archive.html   Vários sites disponibilizam a publicação na ìntegra, porém o amigo Luiz Dias fez um belíssimo trabalho, colocando toda a edição na chamada "VERSÃO PARA FOLHEAR", em scans de excelente qualidade. Fiquei muito feliz com a atenção e o carinho com que o amigo tratou esse nosso trabalho. Para uma conferida, clique no link abaixo:
http://issuu.com/chutinosaco/docs/patrulha_do_universo

E meus sinceros agradecimentos a Luiz Dias e também a Eudes Honorato, que fez os scans.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

QUADRINHOS PARA TODOS OS GOSTOS



Kendi Sakamoto, o maior colecionador de gibis do Brasil ( acervo de mais de 70.000 títulos), faz um belíssimo trabalho em prol da memória do quadrinho brasileiro. Através de seu programa de entrevistas QUADRINHOS PARA QUADRADOS E REDONDOS, que vai ao ar todas as terças-feiras das 09 as 10 horas pela CLICTV (http://www.clictv.com.br/) conteúdo UOL, ele nos apresenta um convidado a cada semana, falando sobre roteiros, desenhos, personagens, revista antigas e novas, experiências e novidades no mundo dos quadrinhos. Também nos apresenta um pouco de seu enorme acervo, mostrando títulos das décadas de 1950 e 60, principalmente de faroeste, gênero que mais aprecia. Tive o enorme prazer de ser entrevistado em seu programa, falando um pouco da minha carreira, mas o melhor, foi ter conhecido pessoalmente essa figura sensacional que é o Kendi, um engenheiro, empresário, consultor especializado em call-center, que fez dos quadrinhos sua grande paixão.
Para assistir clique aqui:

http://mais.uol.com.br/view/13071065

segunda-feira, 2 de julho de 2012

24º TROFÉU HQMIX - UMA NOITE MEMORÁVEL!



Serginho Groisman, apresentador e Marcelo Alencar, presidente do HQ MIX 

Pela primeira vez em toda a sua história, a cerimônia de entrega do TROFÉU HQMIX, aconteceu em um sábado e em um horário bastante interessante: 17 horas, o que ainda permitiu aos presentes, continuar desfrutando da noite de sábado em outro local, já que a festa terminou as 20 horas. Pra mim, e acredito que pra muita gente também, não foi necessário. Talvez, sim, continuar o papo com grandes amigos que reencontrei, e mesmo assim o fizemos, mas nas próprias dependências do Sesc Pompéia, afinal, já passava das 22 horas quando saímos de lá!!!
O fato é que o TROFÉU HQ MIX caminha para a sua excelência. Mérito da comissão organizadora, presidida pelo querido amigo Marcelo Alencar. Ano após ano, aparando as arestas, procurando o local ideal (passamos por um teatro que praticamente nos "expulsava", assim que a premiação terminava, e passamos por uma choperia, onde não se ouvia sequer o nome do premiado, tampouco seus agradecimentos, pois não se toma chopp com os amigos em silêncio...), chegamos ao teatro do Sesc Pompéia. Que ainda não é o ideal, pois o desconforto das cadeiras e sua plateia dividida pelo palco (eu sei, Lina Bo Bardi tentou inovar, mas...), exigiu uma ginástica do Serginho Groismann e dos premiados, que viravam o pescoço para uma plateia e depois para a outra em seus discursos e agradecimentos. Porém isso não tira o brilho de uma noite memorável, onde o grande homenageado foi o meu grande amigo, Primaggio Mantovi, cujo personagem Sacarrolha, materializou-se na estatueta do ano. Aliás, deve-se destacar sempre o brilhante trabalho de Olintho Tahara, que a cada ano se supera! E pensar que em alguns anos atrás o prêmio foi uma pizza!!! Mas isso já é outra história. Eu sei porque desde a sua criação, fui em quase todos os eventos do HQ MIX. Apóio e sempre apoiarei qualquer manifestação de valorização de uma classe artística, de um mercado de trabalho. Também contribuo com o meu voto, procurando analisar o trabalhos dos indicados e se possível até indicar outros que não estão na cédula. Também vou ao Angelo Agostini. O público deve comparecer, os artistas devem comparecer, não só quando são indicados ou premiados. O que se vê nessa noite é uma franca representação do que se tem feito de melhor nas artes gráficas brasileiras.
Ver e aplaudir Marcatti, recebendo o título de Grande Mestre das HQS (merecidíssimo!), esse cara que me incentivou a trabalhar com quadrinhos, lá em 1982, quando me convidou pra ir até a sua casa e conhecer a sua já lendária impressora Rex Rotary!
Assistir a bela homenagem feita  a Mauro Martinez dos Prazeres, falecido recentemente, pelos seus companheiros de trabalho, Toninho Mendes, Leandro Luigi Del Manto e Douglas Quintas Reis, além de seu filho.
Aplaudir o Primo (Primaggio Mantovi) que de tão emocionado não sabia bem o que dizer, mas não importa, pois da plateia podíamos sentir o seu coração pulsando de felicidade!
Se emocionar com a declaração e agradecimento pela parceria de irmãos, como foi o belo discurso de  Vítor Cafaggi, para sua irmã Lu Cafaggi.
E finalmente o reencontro e contato com amigos queridos e as vezes distantes, não por querer, mas por  essa nossa correria diária em busca de um lugar ao sol, o papo fica sempre para segundo plano.
Foi bom rever a todos. E isso o HQ MIX nos proporciona. E também saí com mais 20 cards para a minha coleção. UAU! Só ganha quem vai.
Então no próximo vá! Você só tem a ganhar...não só em cards, mas em cultura, em conhecimento, em oportunidades.

Primaggio Mantovi recebendo merecida homenagem


O palhacinho Sacarrolha vira troféu

Mauricio de Sousa recebe troféu das mãos de Sonia Luyten

E discursa ao lado de Sidney Gusman e suas gêmeas


Marcatti, Grande Mestre

Homenagem a Mauro Martinez dos Prazeres



Leandro Luigi Del Manto (Devir) lembrando sua parceria com Mauro Martinez dos Prazeres



Laerte recebendo mais um prêmio



Grandes amigos. Destaque para Lilian Mitsunaga.



Fábio Moon e Gabriel Bá



André Diniz e seu excelente Morro da Favela



O editor da revista MUNDO DOS SUPER HERÓIS, Manoel de Souza, recebendo o
prêmio junto aos colegas de redação



Reencontro com o desenhista Aluir Amâncio



Eu e Primo, e a edição comemorativa de 40 anos do Sacarrolha nas mãos



Grandes amigos. Da esquerda para a direita: Altemar Domingos, Tomaz Edson, Denise Ortega, Fernando Ventura, José Wilson Magalhães e Aparecido Norberto. Boa parte, começou nos Estúdios Ely Barbosa, como eu.





sábado, 9 de junho de 2012

MERCADO DE QUADRINHOS NO BRASIL: ILUSÃO OU REALIDADE?


imagem original do site AMBROSIA. http://www.ambrosia.com.br/


Fui ao SPCON, evento realizado em São Paulo para promover a chegada do "reboot" da DC Comics ao Brasil, chamado de OS NOVOS 52. Muito bem organizado, com palestras interessantes de nossos artistas brazucas que atuam no mercado americano, o evento reuniu uma boa parcela de fãs e leitores dos personagens mais conhecidos do planeta. Nada comparado ao que eu vi em Nova York no ano passado, quando estive no NEW YORK COMIC CON, bem na época do lançamento do mesmo evento da DC.
Eles tem um mercado de quadrinhos fortíssimo, apoiado em personagens criados a 40 50, 60 anos atrás e que se tornaram franquias. Que não envelhecem. Quadrinho lá é indústria. Liderada por duas grandes editoras, MARVEL e DC, ela emprega roteiristas, desenhistas, arte finalistas, coloristas, editores, capistas, e um sem número de pessoas que trabalham internamente nas editoras.
Voltando ao SPCON, lá estávamos nós aplaudindo e saudando nossos artistas que fazem sucesso lá fora. Aplaudindo o mercado americano. E eu observo aqueles jovens vibrando, com um brilho no olhar, com aquela gana e vontade de fazer hqs para eles. Parece ser a única saída para quem quer trabalhar com quadrinhos, pois não temos mercado por aqui. Não temos uma indústria. Já tivemos algo parecido, em outros tempos. Hoje não mais.



COMBO RANGERS, hq de Fábio Yabu, fez sucesso em revistas publicadas pela JBC e PANINI, mas mesmo assim não impediu o afastamento de seu autor do mercado de quadrinhos. Partiu para a literatura infantil, lançando a série PRINCESAS DO MAR, que já virou desenho animado exportado para vários países e originou a criação de vários produtos com suas personagens.

Alguns dizem por aí que o mercado de hqs no Brasil está em expansão. De que nunca tivemos tantos títulos e uma produção tão intensa. Livrarias abrem espaços para hqs. O governo comprando hqs para distribuir nas escolas e bibliotecas. Novos autores, temas diversos. Mas não é indústria. Não faz com que nossos artistas possam viver só de quadrinhos, que é o sonho de todo mundo. Um álbum de hq exposto na livraria, com uma tiragem de cinco mil exemplares, emprega quantos artistas? No máximo há o autor/roteirista e o desenhista, ás vezes com o auxílio de um arte finalista. E também o colorista, quando a verba destinada a publicação de tal obra permita uma impressão a quatro cores, o que muitas vezes não é possível. Dois, três ou quatro artistas que ganham apenas UMA vez, pela produção de tal obra. Os royaltes da vendagem? Ora, divididos entre editora, autor e desenhista! Repassados a eles a cada seis meses. Pouco, a menos que sua hq tenha a vendagem de um Paulo Coelho, ou de um título do Padre Marcelo Rossi, cuja tiragem é de no mínimo trinta mil exemplares.
O modelo americano ainda é o que, a meu ver, funciona em termos de mercado. Essa é a minha opinião. Pega-se personagens, ícones, franquias de sucesso. Superman, Batman, X-Men. Coloca-se artistas talentosos para  trabalhar com esses personagens. Não em álbuns, que são vendidos em livrarias. São revistas mensais, que a cada número, traz o trabalho de cinco, seis, sete artistas. Somados a quantidade de revistas (a DC relançou 52 títulos no ano passado), temos uma indústria. De pessoas que vivem de quadrinhos. Trabalham só nisso. Pelo menos a maioria.
Mas e aqui no Brasil? O único que enxergou isso já nos anos 1970, foi o Maurício de Sousa. E emprega o modelo até hoje. Infelizmente é o único estúdio de quadrinhos existente no Brasil, com aproximadamente 250 pessoas apenas na sua sede, no bairro da Lapa, em São Paulo. Fora os colaboradores externos.
Nos anos 1970, 1980 e parte de 1990, nós tinhamos muitos artistas que viviam só de trabalhar com quadrinhos. A Editora Abril mantinha um grande número de profissionais contratados para desenhar histórias Disney, no seu lendário Estudio. Mantinha também o Departamento de Quadrinhos Nacionais, que produzia títulos próprios (Alegria, Os Trapalhões) e firmava parceria com estúdios externos para produzir títulos como Fofão, Turma da Fofura, Faustão, entre outros.
Na década de 1990, a Editora Globo fizera o mesmo, trabalhando com estúdios externos, que produziam títulos de sucesso como Turma do Arrepio, Revista da Xuxa, Sérgio Mallandro, Leandro e Leonardo, Chaves & Chapolim. Esses estúdios empregavam muitos artistas, tal e qual o modelo americano (Marvel e DC).
Uma análise dos tantos títulos que foram produzidos no Brasil nas últimas décadas, podemos ver que o gênero que mais foi bem aceito por aqui foi o INFANTIL. Mauricio de Sousa está aí para provar.



Lançada em 2004, a revista RONIN SOUL apresentava um trabalho de nível internacional e prometia vida longa, mas parou na segunda edição.


 Realmente super-heróis brasileiros nunca foram bem aceitos. E então, porque não voltamos a investir no gênero infantil? A Abril já deu o pontapé inicial, lançando um concurso e publicando três títulos de hqs bastante competentes, todos brasileiros: UFFO, Gemini 8 E Garoto Vivo. Precisamos fazer o nosso mercado voltar a ser indústria. Do jeito que está (álbuns em livrarias) não é indústria. Esses artistas produzem um álbum e depois voltam a ilustrar para publicidade, para livros e revistas, dar aulas, para se manter e pagar as contas. OK, esse mercado é fortíssimo, principalmente o de livros didáticos, este sim uma verdadeira indústria, mantida pelo governo que compra suas obras anualmente para distribuírem aos milhões de estudantes de todo o Brasil. Liderado por editoras como Ática/Scipione, Moderna, Saraiva e FTD, esse mercado emprega um grande número de profissionais internos e trabalha com muitos estúdios que produzem ilustrações para tais obras. Basta folhear um livro didático para encontrar trabalhos de artistas que passaram pelos quadrinhos. Mozart Couto, Rodval Matias, André Vazzios, Weberson Santiago, Jotah e Sany (lembram-se de Turma do Barulho?), Rogério Soud (grande desenhista dos Trapalhões na Abril), Natália Forcat, Carlos Avalone (criador do Carrapicho). Eles não se afastaram dos quadrinhos por vontade própria. Acredito que muitos adorariam trabalhar só com as hqs se tivessem como se manter fazendo isso.

TURMA DO BARULHO, lançada pela Editora Abril Jovem em 1996. Jotah e Sany, seus autores atuam hoje no mercado de livros didáticos e paradidáticos.

E o mercado de publicações independentes? Pior! Só faz quem realmente não pensa em ganhar dinheiro com isso e quer mostrar o seu trabalho. Admiro. É paixão pura. Quadrinhos muito bons são publicados dessa forma, infelizmente, alcançando um público pífio. Precisamos de apoio. Do Governo e principalmente das editoras e distribuidoras. Os editores precisam voltar a acreditar em nós e em nossos quadrinhos. Temos criações que podem sim, se tornar grandes franquias e gerar receita, tanto para as editoras, como para o mercado através de merchandising, mas, principalmente para seus artistas viverem só delas. Mas falta apoio e boa vontade dos editores de esperarem um certo tempo, para o personagem se firmar e garantir um público fiel, e não cancelar a revista já  no segundo número. Exemplo disso é Antonio Cedraz, que criou a excelente TURMA DO XAXADO, e disse em entrevista que chegou a mostrá-la para a Globo, na época da saída do Maurício para a Panini. Eles preferiram investir no Sítio do Picapau Amarelo. Que cumpriu o seu papel por um tempo, dando oportunidade a grandes artistas de trabalharem em seus três títulos mensais. Mas depois desistiram das hqs.


~
Excelente iniciativa do editor Alexandre Lancaster, lançada em setembro de 2011 e ganhadora do HQ MIX em fevereiro último, a revista AÇÃO MAGAZINE abre espaço para o mangá produzido no Brasil. Prometia ser mensal, mas até agora sairam só duas edições. Será que ainda volta ao mercado?



DUNGEON CRAWLERS, minissérie nacional de Marcelo Cassaro, foi uma bela iniciativa do Estúdio Art&Comics (Mythos Editora), em publicar hq brasileira. Mas não houve continuidade. Seu desenhista Daniel HDR, hoje atua no mercado americano e seu colorista Ricardo Riamonde, parou de trabalhar com hqs. 

Quando vejo jovens aplaudindo e vibrando com o sucesso de nossos artistas que trabalham para a MARVEL e a DC, penso em quantos conseguirão realizar esse sonho, que mais parece o de um aspirante a jogador de futebol. É um funil, onde poucos conseguem. E não conseguindo, olham para cá e veêm um deserto de oportunidades. Não conseguem trabalhar com hq infantil e muito menos com outro gênero. É preciso que se saiba e conheça as dificuldades de se trabalhar com hqs por aqui. É preciso que as escolas de formação de desenhistas na área, mostrem também a nossa realidade de mercado, para que se formem profissionais conscientes, e aí sim, com preparo suficiente para enfrentar os percalços dessa profissão ao mesmo tempo tão apaixonante e tão difícil para nós.
Em tempo: Márcio Baraldi escreveu "O QUADRINHO NACIONAL ESTÁ DESPENCANDO!" um dos melhores artigos que já li sobre a situação dos quadrinhos no Brasil.
Leia em   http://www.bigorna.net/index.php?secao=artigos&id=1303946092

domingo, 22 de abril de 2012

UM BRASILEIRO EM GAME OF THRONES



Em 2011, estreou no canal HBO, a série GAME OF THRONES, baseada no best-seller AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO, sucesso mundial de autoria de George R. R. Martin, que já rendeu cinco volumes com mais de 15 milhões de exemplares vendidos. No Brasil é publicado pela editora LEYA. Com a estreia na tv, a obra ficou conhecida por um público bem maior, fez uma multidão de fãs (só nos EUA a série já foi vista por 4,2 milhões de espectadores) e passou a aparecer em outras mídias, como os quadrinhos. A iniciativa foi da editora americana DYNAMITE em parceria com a BANTAM BOOKS.


Capa alternativa de ALEX ROSS

Capa especial para o NEW YORK COMIC CON - Outubro de 2011

A série em quadrinhos A GAME OF THRONES, é uma maxissérie mensal em 24 edições de 29 páginas, que adapta o primeiro livro da saga. Foi lançada em setembro de 2011 e foi destaque em outubro durante a NEW YORK COMIC CON. A primeira edição fez tanto sucesso que teve uma segunda tiragem. Com adaptação de Daniel Abraham, desenhos de Tommy Patterson e capas de Mike S. Miller e do excelente Alex Ross, a série traz um dado interessante para nós: um colorista brasileiro. Sim, direto de Itu, interior de S. P., um rapaz de 39 anos, agenciado pelo estúdio IMPACTO do desenhista Klebs Junior, faz um trabalho que valoriza ainda mais o traço de Patterson, com uma paleta de cores equilibrada e de extremo bom gosto. Contando com um minucioso trabalho de pesquisa em cima da obra de Martin, o que se pode ver é uma adaptação fiel á obra. Os castelos e paisagens de Westeros são brilhantemente retratados pela equipe, que inclui nosso artista brazuca.

Conheçam agora IVAN NUNES, um brasileiro em A GAME OF THRONES!

Qual a sua formação?
Sou formado em Processamento de Dados mas a vontade de pintar e desenhar vinha desde pequeno o que acabou me direcionando para outro lado.

Conta pra gente como foi seu início de carreira e como vc chegou ao estúdio IMPACTO.
Como disse sempre gostei de arte e isso me levou diretamente aos quadrinhos. Na minha opinião, as histórias em quadrinhos englobam tudo o que você puder aprender em desenho e atualmente em pintura. Sempre trabalhei como desenhista artístico e como hobby tentava entrar no mercado de quadrinhos, aos poucos fui colorindo meus trabalhos pra ver o resultado final e quando percebi gostava mais de colorir do que desenhar (não! estou mentindo, as duas coisas são ótimas!), mas passei a me dedicar mais as cores e quando achei que estava num nível bom comecei a procurar alguém para me representar, foi quando encontrei a IMPACTO, encaminhei alguns trabalhos ao Klebs, ele achou que eu tinha potencial e estamos juntos no mercado americano há mais de 6 anos.




Quais foram seus trabalhos anteriores a A GAME OF THRONES?
Tenho muitos, a grande maioria pela Dynamite. Hoje a quantidade de comics que eu colori já passam de 90, sendo os principais, Army of Darkness (20 edições), Battlestar Galactica, Raise the Dead, Superpowers II, Meet the Bad Guys, Black Terror, Green Hornet (21 edições), Game of Thrones, Bionic man, além de várias edições one-shot e uma tonelada de capas (já chegam a 170).

Vc fez algum teste para a Dynamite antes de iniciar o seu trabalho na série?
Sim. Eu já conhecia os livros e quando esse teste caiu em minhas mãos tentei agarrar com unhas e dentes. Dentre os que o fizeram, foram escolhidos os três melhores e alguns ajustes solicitados diretamente por Daniel Abraham que procurava fidelidade absoluta aos detalhes do livro. Acabei conseguindo e isso foi muito bom.


Como é o processo de trabalho na série A GAME OF THRONES? Vc teve referências para criar as cores dos cenários/personagens? Assistir a série auxilia no seu trabalho de colorização?No início recebi as referências dos personagens principais, pois Abraham quer que os quadrinhos sejam fiéis em relação aos livros de George R.R. Martin. Principalmente cores de cabelos e olhos, cores de  algumas roupas relativas a cada reino, etc. O restante, como cenários e ambientes foi deixado à meu cargo mas para isso eu procuro referência nos livros que descrevem muitos dos cenários. Quanto à série da HBO, eu a uso para inspiração (eu adoro essa série) mas não para cores uma vez que ela não segue 100% o que é descrito nos livros.



Quais são seus artistas preferidos?
Me inspiro em vários mas sempre tentei ter o meu estilo, apesar dele variar de acordo com o desenhista que estou trabalhando. Por exemplo hoje trabalho simultaneamente em Game of Thrones e Bionic-Man. Se você ver as duas revistas os estilos de cor parecem muito diferentes. No caso do Jonathan Lau (Bionic man) já trabalho com seu traço há 3 anos
e sei o que ele gosta. Já Tommy Patterson (Game of Thrones) faz cenários mais indefinidos o que me dá mais margem para uma melhor ambientação. Mas voltando a pergunta, são eles Peter Steigerwald, Justin Ponsor, Marte Gracia, Kinsun Loh entre outros.

Vc trabalha sozinho? Além de trabalhar como colorista, vc ensina sua técnica tb?
Sim, trabalho. Nunca tentei ensinar, mas acredito que não seria muito bom nisso uma vez que trabalho mais com a prática e meus instintos. Na verdade acho que tenho muito a aprender antes de começar a ensinar.
Muitos artistas aqui no Brasil, tem que trabalhar em outras áreas, como publicidade, livros didáticos, storyboard, além das hqs. Dá para viver só de quadrinhos?
Atualmente eu vivo. E eu acho que um colorista pode viver ainda melhor nesse ramo, porque apesar de um desenhista ganhar mais, em geral ele consegue fazer uma revista por mês enquanto um bom colorista com prática pode colorir até três revistas. Logicamente que estamos falando do mercado internacional.

O lançamento de A GAME OF THRONES  foi no NYCC 2011. A série já está sendo publicada em vários países. Vc já esteve ou foi convidado a participar de convenções internacionais de hq?
 Não. E não ligo muito pra isso. Acho que o que eu preciso mostrar e o que eu quero que gostem é o meu trabalho de colorização.




Cena da série da HBO. Final da primeira temporada.
Na série em quadrinhos, ela acaba na edição 24.

Vc tem ou está participando de algum projeto de quadrinhos nacionais?
Não. Até porque acho que são poucos os que se arriscam em nosso País. Mas gostaria muito de que um dia pudéssemos ser reconhecidos por aqui pelo que fazemos aqui.

O que vc pode dizer para as pessoas que querem ser coloristas de hq?
Fazer hoje em dia o que se gosta é um privilégio para poucos, mas já li em algum lugar que se você trabalha com o que gosta então não precisará trabalhar um só dia em sua vida.
Se querem ser coloristas, dediquem-se a isso, procurem cursos de colorização de quadrinhos (isso lhe poupará muitos anos que você gastaria aprendendo sozinho), vejam muitos quadrinhos (na verdade estudem muitos quadrinhos). Imagine que você estivesse colorindo cada quadro daquela revista, se questione porque o colorista usou esta cor e não aquela em determinado local e principalmente treinem muito. Só a prática levará a perfeição. Não desgastem seu relacionamento com agentes e editores tentando fazer eles engolirem cores que nem mesmo você está satisfeito, seja autocrítico e só mostre seu portfolio quando você achar que já tem um nível razoável para ser reconhecido.




 Depois de entrevistá-lo via e-mail, ainda me bateu a curiosidade de saber mais sobre o seu dia-a-dia, e Ivan ainda me contou que acorda as 7 horas da manhã, e só pára quando termina as três páginas diárias de sua produção. Além de A GAME OF THRONES, ele está fazendo THE BIONIC MAN, outra adaptação da DYNAMITE, da série O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE DÓLARES, no traço de Jonathan Lau.
Para conhecerem um pouco mais sobre o trabalho de Ivan acesse:
<http://www.ivan-nes.deviantart.com>

O blog ALEARTE QUADRINHOS agradece a Ivan Nunes que inaugurou a nossa série de entrevistas.





Depois de um ano focando a produção de quadrinhos das décadas de 1980, 1990 e 2000 (que ainda vamos continuar) o blog agora inicia uma série de entrevistas focando o trabalho de artistas ainda pouco divulgados pela mídia, ou até bastante conhecidos, mas que aqui terão a oportunidade de mostrar uma outra faceta do seu trabalho, nos contando curiosidades, passagens engraçadas, casos e bastidores do mundo das hqs!