quarta-feira, 31 de agosto de 2011

SIGAM-ME OS BONS, OU SEJA, OS FÃS DE CHAVES E CHAPOLIM!



É o grande curinga do SBT! Desde 1984 quando começou a ser transmitido pela TV de Silvio Santos, o seriado Chaves obtém excelentes índices de audiência. Criado por Roberto Gomez Bolaños, em 1971, no México, foi logo adaptado para os quadrinhos, sendo publicado também em países como Argentina, Colômbia, Costa Rica, Panamá, Porto Rico e Estados Unidos. No Brasil, a revista do Chaves começou a ser publicada em setembro de 1990, pela Editora Globo. Curioso, pois batia a TV Globo em audiência, mas foi publicada pela própria editora do grupo. Investindo fortemente no mercado de gibis infantis, em uma época que pipocavam títulos de hqs baseados em apresentadores e programas de TV, a Globo decidiu não importar as hqs já publicadas lá fora, mas sim, iniciar uma produção própria por aqui. Chamaram Ruy Perotti, um dos maiores desenhistas de hqs do Brasil, criador de personagens como Sugismundo, Satanésio e Variguinho, para produzir o gibi, através de seu estúdio, o Signo Arte. O estúdio Cartoon, dos irmãos Roberto e Rosana Munhoz também foi convidado, respondendo por roteiros e desenhos.
Porém, com a saída de Perotti logo no início do projeto, a Globo confiou a produção a Eduardo Vetillo, um dos maiores quadrinhistas brasileiros, desenhista do faroeste CHET, SPECTREMAN, OS TRAPALHÕES, URTIGÃO e muitos outros. Através de seu estúdio INART, Vetillo montou uma equipe para produzir as revistas, que contava com nomes como Rosana Valin, Sérgio Morettini e Vanderlei Feliciano, só para citar alguns. Além da revista mensal, tinha os almanaques e o álbum de figurinhas. Era um enorme sucesso, com vendas sempre acima de cem mil exemplares! Certa vez, contando com o sucesso do programa homônimo no SBT e a vendagem da revistinha, Vetillo sugeriu a Editora Globo a produção
da revista do Chapolim, personagem também muito querido do público e que merecia uma revista própria. --Você dá conta? -- perguntaram a ele. Com a afirmação, começou então a produção do título do CHAPOLIM, que chegou as bancas em junho de 1991, tornando-se outro grande sucesso da casa.

A partir daí a GLOBO decidiu dividir a produção das histórias com o estúdio TANGO, de Sérgio Morettini, que passou a fazer as hqs do CHAVES, ficando as histórias do CHAPOLIM com Eduardo Vetillo pelo INART. Morettini, grande desenhista argentino radicado no Brasil, montou o estúdio apenas para produzir a revista. Profissional experiente, dos quadrinhos DISNEY, TRAPALHÕES, XUXA, e o AMIGO DA ONÇA, contou muitas vezes com o trabalho de artistas como Marcos Uesono e Rosana Valin na arte final. Vetillo, por sua vez, contava comigo na colorização e Vanderlei Feliciano na arte final. Vale lembrar que as duas revistas traziam hqs dos dois personagens, porém sempre com mais histórias do personagem título.

CAPA DO NÚMERO 12 DE CHAPOLIM. DESENHO DE EDUARDO VETILLO. CORES MINHAS.

Foram publicados 32 números do Chaves e 15 do Chapolim entre os anos de 1990 e 1993.
Houve também a publicação de vários números da série GIBIZINHO, com Chaves e Chapolim. Eram revistinhas de 32 páginas no formato de bolso (9,5x13,5 cm) publicando todos os personagens nacionais da casa, como Sérgio Mallandro, Xuxa, Mônica, Cebolinha, e Turma do Arrepio.

CAPAS DA SÉRIE GIBIZINHO

Como toda a criação das hqs era feita por aqui, pôde-se colocar os personagens em situações e ambientes bem brasileiros, como é o caso da hq abaixo. Nela, o Chapolim contracena com lendas do folclore brasileiro, como o Saci e a Iara e envolve-se na luta pela preservação da mata atlãntica e dos animais em extinçâo.

PÁGINAS DA HQ "SOS MATA ATLÂNTICA" PUBLICADA EM CHAPOLIM 13. DESENHOS DE EDUARDO VETILLO. COLORIZAÇÃO FEITA POR MIM.

Tanto CHAVES quanto CHAPOLIM foram grande sucesso de vendas e só pararam por causa dos tempos bicudos que se vivia, pós impeachment do então Presidente Fernando Collor. Morettini chegou a contar que foi com o trabalho feito para as revistas do CHAVES, que comprou seu próprio apartamento em São Paulo, e fixando residência aqui, pode desenvolver muitos outros trabalhos de sucesso, como o seu próprio personagem, o MICO LEGAL, pela Editora Escala (prêmio HQ MIX de melhor revista infantil de 2001).
Vetillo reafirmou seu potencial como desenhista, sendo inclusive elogiado pelo próprio Roberto Gomes Bolãnos, em uma breve visita ao Brasil.
As revistinhas são disputadas a tapas em sebos e lojas virtuais. Afinal, marcaram época e deixaram saudades. Na década de 2000, surge o desenho animado do CHAVES, produzido pelo filho de Bolãnos e também exibido pelo SBT. Na esteira do sucesso do desenho, veio um novo álbum de figurinhas, publicado pela Editorial Televisa e lançado aqui pela Panini. Os personagens vieram em novo traço, bem diferente daquele dos anos 1990. Criou-se uma expectativa pelo retorno da revista em quadrinhos nesse novo traço, o que ainda não aconteceu.
CAPA DO ÁLBUM DE FIGURINHAS, BASEADO NO DESENHO ANIMADO DO CHAVES. DÉCADA DE 2000.

Ultimamente os personagens criados por Bolãnos, tem sido muito lembrados, pois o SBT está comemorando 30 anos. Foi produzido um programa especial, com os atores do casting do SBT interpretando os personagens da vila do CHAVES, contando também com uma reprodução fiel do cenário original do programa. Afinal, um dos grandes responsáveis pelos 30 anos de sucesso da rede de Silvio Santos, é o nosso querido Chaves e o impagável Chapolim.
Para finalizar, veja abaixo a reprodução de um trecho da hq "QUEM PODERÁ ME AJUDAR", onde o próprio roteirista das hqs do Chapolim, clama por sua ajuda, já que ele perdeu os roteiros que entregaria para a editora. Porém, Chapolim se vinga dele, quando descobre que as enrascadas em que sempre aparecia, era fruto de sua imaginação. Pois é, ele não contava com sua astúcia!
NESSA AVENTURA QUE SE PASSA DENTRO DA EDITORA GLOBO, EDUARDO VETILLO HOMENAGEOU O PESSOAL DA REDAÇÃO. FLÁVIA CECCANTINI, SOLANGE LEMES, GISLEINE DE CARVALHO ENTRE OUTROS VIRARAM PERSONAGENS DA HQ. PUBLICADA EM CHAPOLIM 14 (JULHO DE 1992).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

UM ESTÚDIO E UMA EDITORA OUSADA

A Editora Abril que sempre foi a líder absoluta dos quadrinhos no Brasil durante as décadas de 60, 70 e 80, viu seu reinado desmoronar quando em 1987 a RGE (Rio Gráfica e Editora, braço editorial das Organizações Globo) tirou dela seu maior artista: Maurício de Sousa. Suas revistas sempre foram campeãs de vendagem, abaixo apenas dos personagens Disney. Mas para abrigar um ícone do porte de Maurício a RGE precisava mudar. E mudou. Tudo. Virou oficialmente Editora Globo, mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo, e instalou-se ao lado dos estúdios de Maurício, na Rua do Curtume, no bairro da Lapa. Em pouco tempo já era a líder, passando inclusive as publicações de Walt Disney. Mas faltava ainda entrar no milionário ramo dos quadrinhos de super-heróis. A Abril já publicava a algum tempo os heróis da Marvel e da DC, as duas maiores editoras de hqs dos EUA. Em setembro de 1989, a arrancada começou, lançando com grande estardalhaço a minissérie ORQUÍDEA NEGRA, de Neil Gaiman e Dave Mckean, seguida de outros sucessos como V DE VINGANÇA, A GUERRA DE LUZ E TREVAS, O PRISIONEIRO, entre outras. Todas minisséries. Para a Globo publicar tantos títulos, era necessário o apoio de estúdios externos, para fazer a tradução e adaptação. É aí que surge o STUDIO IMAGIA, capitaneado por Nilton Sperb e Karin Nielsen. Com o know-how necessário, como ex-editores de super-heróis na Abril, o IMAGIA foi o responsável pela arrancada da Globo nessa área, e, em uma época que qualquer informação passada para a concorrente poderia prejudicar os negócios, foram então considerados o parceiro ideal, pois não trabalhavam com os títulos de heróis da Abril, todos entregues ao Estúdio Artecômix. Daí não foi nenhuma novidade, quando a Globo entregou ao Imagia o seu primeiro título mensal de super-heróis, DREADSTAR, O GUERREIRO DAS ESTRELAS, lançado em julho de 1990 (veja matéria neste blog). 
Mas a grande novidade ainda estava por vir. Em maio de 1990, a Globo lança com ampla divulgação, a graphic novel EXCALIBUR, e dois meses depois a mensal MARVEL FORCE, com grandes personagens, como MOTOQUEIRO FANTASMA, CAVALEIRO DA LUA, FORÇA DE ATAQUE MORITURI, NOVOS GUERREIROS, GUARDIÕES DA GALÁXIA, além do próprio EXCALIBUR. Isso causou revolta e indignação entre os diretores e editores da Abril, pois seguindo a sua cronologia, EXCALIBUR só seria publicada no ano seguinte, já estava programada. Lançada antes, traria histórias com acontecimentos que ainda não haviam sido mencionadas nos seus títulos. Isso daria uma balançada geral no seu cronograma. Em entrevistas a jornais da época, o editor de Marvel Force, Leandro Luigi Del Manto, disse que quando isso acontecesse, publicaria matérias explicativas, o que realmente foi feito. A tradução e adaptação (decorados e colorização) também foi do IMAGIA.
 A Globo encartou em suas revistas esse folheto, contando as novidades bombásticas que estavam por vir. Marvel Force, Excalibur, Lobo, entre outras.

 Capa do numero 1 de MARVEL FORCE.


O número 3 de MARVEL FORCE, trouxe um dos personagens de maior sucesso lá fora, pela primeira vez no Brasil.

A minissérie do PANTERA NEGRA, foi lançada em dezembro de 1990. Participei fazendo os decorados.
Na sequência, a Globo lançou outros títulos, como O PRISIONEIRO, ELRIC, MUNDO SEM FIM. Séries e minisséries que fizeram sucesso. O STUDIO IMAGIA tornou-se o grande parceiro da Globo nesta guerra travada com a Abril, pela preferência dos leitores, traduzindo e adaptando todos esse títulos. Mas os tempos eram outros, tempos de Collor, e entre 1992 e 1993 tanto uma quanto a outra cancelaram inúmeros títulos, não só juvenis como infantis também. Vários estúdios fecharam e o IMAGIA foi nessa. Estava encerrada as atividades de um dos maiores estúdios de hqs do Brasil. Entre tantos títulos infantis e juvenis, era acima de tudo um centro de criação, de pessoas apaixonadas pelo que faziam. Tinha um grande número de colaboradores, entre eles, Vera Lucia Costa, José Wilson Magalhães, Sylvio Pinheiro (que depois, tornou-se sócio), Fati Gomes, Lucrécia Freitas, Mano, Cynthia Stein, Noriatsu Yoshikawa, Nilton Morise, e eu, que fazia decorado e cor. Nilton e Karin, donos do Imagia, foram viver então nos Estados Unidos, e foi lá que nasceram seus dois filhos, Johann e Stefan. Trabalhando na ONU, onde inclusive já foi voluntário em missão no Haiti, Nilton Sperb que também é formado em cinema, ainda mantém contato com as hqs frequentando comics shops e eventos como o New York Comic Con, cuja próxima edição acontece em outubro. Circulando entre os stands anonimamente como qualquer fã, ninguém é capaz de imaginar que ali está um cara que contribuiu e muito para que os leitores de todo o Brasil, pudessem conhecer e curtir os seus incríveis super-heróis, e fazer desse país um dos maiores consumidores de suas criações.
Em recente visita ao Brasil, Nilton deu uma passada em casa. Da esquerda para a direita, Terezinha e eu, Nilton, Karin e Stefan.

Faltou o fotógrafo da primeira, Johann (ao centro).

domingo, 7 de agosto de 2011

NOS CÉUS, E NOS GIBIS!

Em 14 de maio de 1952, aconteceu a primeira demonstração de um grupo da Força Aérea Brasileira, denominado ESQUADRILHA DA FUMAÇA. Formado por profissionais extremamente dedicados e destemidos, o grupo foi criado a partir do hobby de jovens capitães e tenentes, que se divertiam praticando manobras acrobáticas arriscadas exigidas na aviação de caça. O grupo tornou-se um eficiente relações públicas da Aeronática. A fama os levou a apresentações diversas por várias partes do país e até do exterior. E os levou também aos quadrinhos. Em maio de 1994, chegava ás bancas o primeiro número da ESQUADRILHA DA FUMAÇA, publicado pela Price Editora. A ideia surgiu quando o editor Marcial Godoy assistiu uma apresentação da Esquadrilha. Conversou com os integrantes e bolaram o projeto. A revista seria produzida por uma equipe montada pela editora, mas todos os roteiros seriam lidos e revisados pelos próprios pilotos e pelo Centro de Comunicação Social do Ministério da Aeronáutica. A tiragem era de 45 mil exemplares e a venda em bancas teria uma porcentagem destinada as despesas de manutenção da Esquadrilha. Duas páginas eram escritas pela própria Esquadrilha, esclarecendo que o "grau de loucura" que eles demonstravam nas acrobacias, era fruto de muito profissionalismo e treino.

Metalinguagem na estreia: o menino volta correndo pra casa, porque comprou o primeiro número da   revistinha da Esquadrilha. E aí começa a aventura!

A EQUIPE
Marcial Godoy, dono da Price Editora, até então publicando apenas catálogos farmacêuticos, chamou para a equipe de sua primeira revista em quadrinhos, uma dupla das mais prolíficas da década de 1990, Arthur Garcia e João Pacheco, este último falecido em 1995.
A dupla, responsável por revistas como FORÇA ÔMEGA (Ed. Escala) e CYBER (Vidente), criou os roteiros, as figuras e a ambientação para as hqs do grupo. Todos os integrantes da época viraram personagens pelas mãos desses dois grandes artistas. Foram criados também uma mascote e o que não pode faltar em nenhuma história: o vilão Devorak. Na verdade, ele era um ex-aviador de carga, que fora proibido de pilotar, depois de tentar roubar a carga que transportava, para vendê-la ao exterior. Mas o avião sofre um acidente, ele se salva mas é pego e punido. Desde então, torna-se inimigo número 1 da Força Aérea e da Esquadrilha. Eu fui chamado para colorir as histórias, já que trabalhava bastante com o Arthur. Na arte final, José Wilson Magalhães, hoje finalizando as artes do Renato Guedes para o Wolwerine da Marvel, e mais, Wanderlei Feliciano, Toninho Lima, Ademir Pontes e Rosinaldo.



O LANÇAMENTO
A revista foi lançada num domingo, 22 de maio, no Aeroporto Campo de Marte, em Saõ Paulo. Cerca de duas mil pessoas estavam lá para assistir gratuitamente a apresentação aérea do grupo, que começou as 11h e durou cerca de 30 minutos. No final, foi distribuído o número zero da revista, na verdade um folheto de 4 páginas, com um trecho da hq, chamando o público para acompanhar no dia seguinte nas bancas a continuação da história.
Esta é a capa do folheto (número zero) da ESQUADRILHA DA FUMAÇA, distribuído no lançamento da revista
no Campo de Marte.

Além do lançamento em São Paulo, houve outro em Pirassununga, sede da Esquadrilha, várias matérias em jornais e tv, mas uma especialmente chamou a atenção. Foi uma matéria do VÍDEO SHOW, da TV GLOBO, onde os desenhistas Arthur Garcia e João Pacheco, além de serem entrevistados, foram convidados a "voar" em um dos aviões da Esquadrilha na companhia de um dos integrantes, realizando acrobacias no ar! Uma experíência realmente inesquecível!
Inesquecível também é a revista, que teve quatro edições e hoje é raríssima. Mas a Esquadrilha continua aí, encantando multidões por onde se apresenta e fazendo a gente se sentir orgulhoso da Força Aérea Brasileira. Para conhecer mais sobre eles, acesse http://www.esquadrilhadafumaca.com.br/ e aproveite para pedir a volta do gibi. Com certeza, eles ainda tem muita história pra contar!



quinta-feira, 30 de junho de 2011

O MUNDO MARAVILHOSO DE ELY BARBOSA



Tudo tem um começo. Tudo tem uma explicação. Até nas hqs, os personagens nascem, e vão se desenvolvendo aos poucos. Em muitos títulos, no número 1, são apresentados os personagens, os vilões, as tramas e como os seus heróis nasceram, como conseguiram tais poderes e por aí vai. Mas comecei tocando nesse assunto para falar de uma edição que é muito difícil de se achar, mesmo em sebos. Estou falando do número 1 de CACÁ E SUA TURMA, lançamento de fevereiro de 1977. A Editora Abril resolveu investir nos personagens, devido ao sucesso de suas aparições no Programa Sílvio Santos, transmitido aos domingos pela TV Tupi e Record, através de vinhetas, animações e também pelo sucesso da coleção de livros SÍLVIO SANTOS PARA CRIANÇAS, editada pela Bloch, onde os personagens Lili e Dentinho interpretavam clássicos da literatura infantil, narrados pelo apresentador Sílvio Santos.
Esse primeiro número de CACÁ, é também a primeira revista em quadrinhos de Ely Barbosa, desenhista e publicitário que fez carreira nos comerciais de TV (quem não se lembra da "pulguinha dançando iê, iê, iê" da DDDRIN), e produziu o primeiro desenho animado a cores do cinema brasileiro, As aventuras do Tio Maneco. Ely começou a investir em hqs, depois que Sílvio Santos desistiu de produzir junto a ele um desenho em longa metragem com os personagens de Monteiro Lobato.
Na primeira história de CACÁ E SUA TURMA nº 1, é contada a origem das fantasias que os personagens Lili e Dentinho vestiam nas vinhetas para a tv, e nos comerciais. Fantasias encantadas, que transportavam os personagens para um mundo cheio de magia e encantamento.
Na segunda, "Edgar, o incrível sapo cantor", o mesmo personagem da coleção de livrinhos da Bloch estava de volta, com uma curiosidade: o apresentador Silvio Santos e seu braço direito Luciano Callegari virariam personagens de hq. A história se desenrola durante a gravação do programa Show de Calouros, para onde Cacá, Lili e Dentinho levam o tal sapo Edgar para tentar a carreira artística.

Nessa época Ely trabalhava com Silvio, que era dono dos "Studios Silvio Santos de Cinema e Televisão", que ocupavam o antigo endereço da extinta TV Excelsior, na Vila Guilherme. Também nessa época, Silvio acabava de ganhar a concessão de um canal de tv, inicialmente no Rio de Janeiro, e que depois tornou-se o SBT, Sistema Brasileiro de Televisão, com sede em São paulo. O roteiro é hilário, com grandes sacadas.


Página da hq, EDGAR, O INCRÍVEL SAPO CANTOR, onde se pode ver os "personagens" Silvio Santos e Luciano Calegari, CACÁ, n. 1, fevereiro de 1977.

Na terceira, é contado o nascimento do João Banana, um dos personagens mais populares de Ely, e na quarta hq, a origem do Escovão, o coelhinho amarelo, namorado da Fofura, que tanto encantou as crianças.
Com tudo isso, essa edição torna-se mais do que especial. Ela é o início do "MUNDO MARAVILHOSO DE ELY BARBOSA", que se materializou em dezenas de produtos no mercado.
De calçados, camisetas e brinquedos, a jogos de cama e velas de aniversário.

Essa primeira fase da revista durou 8 números, saiu de circulação e só voltou as bancas em fevereiro de 1980 pela Rio Gráfica e Editora (atual Editora Globo). Nessa segunda fase ganharam mais destaque Os Íncriveis Amendoins e os Tutti Frutti. Devido ao sucesso, os personagens chegaram à televisão em 1983, nos programas TV TUTTI FRUTTI e BOA NOITE, AMIGUINHOS, produzidos pelo Estudio Ely Barbosa e veiculados pela TV Bandeirantes. Na esteira do programa chegou às lojas o LP "A MÚSICA MARAVILHOSA DA TV TUTTI FRUTTI", e no teatro era encenada a peça "UM PASSEIO NO COMETA", lancada algum tempo depois em VHS, pela Globo Vídeo.



Folheto de lançamento de Cacá e sua turma, pela RGE.

Numero 1 de CACÁ E SUA TURMA, pela RGE, fevereiro de 1980.
Teve até comercial de TV, na Globo.



Em 1987, chegam as bancas pela Editora Abril três revistas de Ely Barbosa em substituição as de Maurício de Sousa, que mudaram de editora. Nessa terceira fase, da qual eu participei, não aparecem Os Tutti Fruttis e nem os Amendoins. A Lili, o Dentinho e o cãozinho Cacá também sumiram. As grandes estrelas são Nenê, Fofura e Escovão protagonistas da TURMA DA FOFURA (mensal, 64 págs.). O Gordo que tinha suas aventuras publicadas desde o CACÁ de 1977, ganha revista própria, O GORDO E CIA (quinzenal, 34 págs.). E uma nova turma é lançada na revista PATRÍCIA, (quinzenal, 34 págs.).

Este anúncio, com os personagens convidava novos talentos para trabalhar no Estúdio. E assim vieram: Paulo Borges, Denise Ortega, Tomaz Edson, José Wilson Magalhães, Tina Glória, Sandro Cleuzo, Edde Wagner, Sérgio Morettini e muitos outros. Início de 1987. 


Nos anos 1990, com o fim das revistas, Ely dedicou-se a livros infantis, lançados por várias editoras, como FTD, Maltese, Paulus e nas Paulinas, onde obteve o seu maior sucesso com a série ONDE ESTAMOS, que ainda se encontra nas livrarias.

E quase como para fechar a carreira com chave de ouro, em 2002, o Grupo Sílvio Santos relança com grande sucesso a mesma coleção de livrinhos da década de 70, com narração do apresentador. As artes foram todas refeitas e atualizadas por desenhistas como Mingo de Souza e Ademir Pontes. A fita cassete, foi substituída pelo CD. Mas a essência da obra esta lá. Após esse grande trabalho, Ely foi acometido pelo mal de Parkinson, vindo a falecer em 19 de janeiro de 2007.
Por tudo isso que contei é que o número 1 de CACÁ E SUA TURMA de 1977, é especial.
É o começo dessa maravilhosa história, desse grande artista que tantos outros formou, espalhou alegria e encantamento em quem viveu sua infância entre 1970 e 1990, e deixou muitas saudades.

Quer conhecer mais? Nos sebos, encontra-se muitos exemplares das revistas de Ely.
No facebook, tem o Clube do Ely Barbosa, criado pelo amigo Edson Parisotto, este que também trabalhou no estúdio como eu e produziu o site do Ely, que infelizmente saiu do ar. Acesse:  www.facebook.com/ely.rubens.barbosa onde você vai encontrar várias tiras e hqs dos personagens, o blog http://elybarbosaoficial.blogspot.com/  do amigo Wagner Moloch, e no Youtube, muitos vídeos dos programas postados pelo filho de Ely, Otávio Barbosa.

Dizem que a memória do brasileiro é curta. Mas quando se toca o coração, a gente não esquece nunca mais.





O Jornalzinho do Cacá, era encartado dentro do tablóide Metrô News, distribuído gratuitamente. Foi lançado com uma grande festa na Praça da Sé, em São Paulo, em 15 de março de 1981.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

NOS TEMPOS DE CONAN, O BÁRBARO

                         Capa de CONAN EM CORES n. 5, Dezembro de 1989. Todas as hqs colorizadas no Brasil.

O título A ESPADA SELVAGEM DE CONAN, foi um dos maiores sucessos da extinta EDITORA ABRIL JOVEM, nas décadas de 1980 e 1990.  A criação máxima de Robert E. Howard, chegou ao  Brasil em 1984 em uma revista mensal, formatão, trazendo histórias em preto e branco publicadas originalmente na revista SAVAGE SWORD OF CONAN, lançada nos EUA em 1974. Devido ao sucesso, o personagem se desdobrou em vários títulos, e um deles, foi CONAN EM CORES. A ideia era apresentar hqs especiais de CONAN totalmente coloridas. Devido a falta de material, algumas hqs foram colorizadas por aqui, e foi aí que surgiu a oportunidade de trabalhar com um dos meus personagens preferidos. No número 5, é publicada a premiada SAGA DO CERCO DE MAKALET, escrita por Roy Thomas e desenhada por Barry Windsor-Smith. A primeira hq, FALCÕES DO MAR, tem cores de Sérgio Furlani, que era um dos chefes de arte da época na Abril Jovem. A segunda, A VINGANÇA DO CÃO NEGRO, foi colorizada por Flávio de Barros. A terceira foi feita por mim. Chama-se o MONSTRO DOS MONÓLITOS. Pintada á mão, com ecoline (aquarela líquida) sobre um papel canson, com a história impressa em azul (chamávamos cianográfica), para depois soprepor o filme do preto.Outro colorista bastante atuante nessa série era Noriatsu Yoshikawa.
 Esse número 5, já anunciava na última página que seria publicada na próxima edição, uma das hqs mais esperadas pelos leitores: A RESSURREIÇÃO DE BÊLIT. Nela, um feiticeiro promete a CONAN trazer de volta à vida, sua amada Bêlit, a "Rainha da Costa Negra". Mas para isso a guerreira Sonja tem que morrer. Uma grande história, escrita por Roy Thomas e ilustrada por dois grandes artistas: John Buscema e Ernie Chan. Eu tive um enorme prazer em também fazer as cores para essa edição, que também tinha uma outra história, A FARSA, com cores novamente do grande Sérgio Furlani. 

Primeira página de A RESSUREIÇÃO DE BÊLIT. (maio, 1990)

Esta é uma amostra do canson (com impressão em azul), onde o colorista aplicava as cores com pincel. Reparem no rodapé, o carimbo como referência para a gráfica.
                                                          Mesma página, agora impressa.

CONAN EM CORES, teve 13 números, publicando somente histórias especiais de um dos maiores personagens das hqs, imortalizado no cinema pelo ator Arnold Schwarzenegger  e publicado em vários outros títulos como CONAN REI, CONAN, O BÁRBARO e que infelizmente saiu de nossas bancas a pouco tempo. Esperamos que volte em breve, mas enquanto isso, os sebos fazem a alegria dos fãs, mantendo em estoque muitas edições do nosso valoroso cimério.

sábado, 4 de junho de 2011

ESTUDIO SERGIO TASTALDI, O PRIMEIRO CONTATO COM A ANIMAÇÃO

Sérgio Tastaldi e eu, nos reencontramos 25 anos depois, na noite fria de 02/06, na FNAC Pinheiros. Aluno e professor, amizade para sempre.

Lá, no início da década de 1980, uma escola aqui em São Paulo era inaugurada com a missão de ensinar a técnica da animação para crianças e adultos. Era o ESTÚDIO SÉRGIO TASTALDI, que funcionava na Al. Gabriel Monteiro da Silva, no Jardim América. Em 1982, eu li alguma coisa a respeito do estúdio e lá fui eu, me matricular. Quem me recebeu foi o próprio Sérgio Tastaldi, cartunista, músico, ator e animador. Eu já conhecia o seu trabalho através da tv: era dele os desenhos que ilustravam as matérias do saudoso GLOBINHO, apresentado por Paula Saldanha, na década de 70. Tastaldi não só me recebeu muito bem, como vendo a minha dificuldade em ingressar no curso, devido ao seu custo, alto para um jovem que ganhava pouco como office-boy, fez um grande desconto nas mensalidades, para que eu pudesse pagar. E lá ia eu, todos os sábados. Do Brás, onde eu morava, pegava o ônibus elétrico Pinheiros-Belém, e cheio de alegria e esperança, ia frequentar as aulas naquele maravilhoso estúdio. Você criava o seu desenho animado, fazia as artes, pintava os acetatos,e ao final, filmava e via seu desenho pronto, exibido para os outros alunos.
Durante o tempo em que frequentei as aulas, Tastaldi me propôs um emprego, para que eu pudesse ficar mais tempo lá, desenhando, mas na época não pude ir. o Estúdio realizou vários eventos destinados ao desenho animado, como o I ENCONTRO BRASILEIRO DO CINEMA DE ANIMAÇÃO, realizado no MIS-Museu da Imagem e do Som, com palestras de grandes feras, como Walbercy Camargo, Marcos Magalhães (hoje diretor do ANIMA MUNDI|), Ely Barbosa, Daniel Messias e Mauricio de Sousa. Lá, durante o evento, o público era convidado a desenhar uma sequência de um desenho animado que ia sendo feito durante o evento por todos. No último dia, o desenho foi exibido para todo o público. Na sequência, veio a FEIRA DO DESENHO ANIMADO, no Sesc Pompéia em 1983, onde havia várias oficinas, palestras, e exibições, talvez o embrião do ANIMA MUNDI que vemos hoje. Teve também a FESTA DO BICHO DE GOIABA, personagem criado por Tastaldi para o programa homônimo da TV Radiobrás. Realizado também no Sesc Pompeia, tinha exibições de vídeo e exposição fotográfica de como se fazia um desenho animado.




Antes, bem antes do ANIMA MUNDI existir, tinha a FEIRA DO DESENHO ANIMADO no Sesc Pompeia. Matéria publicada no JORNAL DA TARDE, 1983.


Perdi contato com Tastaldi, quando saí do curso em 1984. Algum tempo depois ele estreou na TV GAZETA o programa LIG-O-PUG, com bonecos animados, ao estilo do personagem Capivara que já participava do programa REALCE com Beto Rivera, na mesma emissora. Depois passei a ler notícias a seu respeito em jornais e revistas devido ao sucesso de suas produções teatrais com A TURMA DO PAPUM de bonecos manipulados. Trabalhos que percorrem o Brasil e o exterior. Hoje reencontro meu velho amigo e professor, com um sucesso estrondoso no teatro de bonecos, na publicidade e tv. Residindo em Florianópolis, me procurou durante a sua estada em São Paulo na semana passada. Foi um presente pra mim,
 no ano em que completo 25 anos de carreira. O seu estúdio foi o meu primeiro contato com esse mundo maravilhoso da animação, dos quadrinhos, das artes em geral. E foi o meu grande estímulo para continuar investindo em meu sonho de trabalhar com tudo isso. Obrigado, Véio Tasta!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

STREET FIGHTER: O SUCESSO DA VERSÃO BRASILEIRA

CAPA DO NUMERO 1 DE STREET FIGHTER, ED. ESCALA, 1994

Na década de 1990, uma revista em quadrinhos produzida no Brasil fez bastante sucesso, utilizando-se de personagens de um famoso video game. Era a revista STREET FIGHTER. Ela chegou ao Brasil em 1994 pelas mãos da Editora ESCALA. Era no início, apenas a tradução da versão americana, produzida pela Malibu Comics, baseada no jogo de sucesso da CAPCOM. Com isso a  novata ESCALA entrava com mais um título de quadrinhos nas bancas, buscando cada vez mais a preferência dos leitores. A tradução e edição da revista foi entregue a Marcelo Cassaro e as letras à Miriam Tomi. Porém a série durou pouco nos EUA, pois a CAPCOM exigiu seu cancelamento, devido a absurdos cometidos pelos seus roteiristas, como por exemplo, a morte trágica de um dos principais personagens. Com o fim do gibi americano, a ESCALA tentou publicar as oito edições do mangá original japonês, sem sucesso. Decidiu-se então continuar a revista por aqui, com roteiros e desenhos brasileiros, expediente já utilizado por outras editoras, como a ABRIL, com ZÉ CARIOCA, LULUZINHA, HE-MAN, e outros.
A partir do número 4, surge então a nova STREET FIGHTER, com roteiro de Marcelo Cassaro, desenhos de Arthur Garcia e João Pacheco, e arte final de Toninho Lima, Alexandre Silva (meu xará) e José Wilson Magalhães. A partir do número 6, com a saída de Cassaro da ESCALA, entra o desenhista e roteirista Alexandre Nagado, que começa uma nova versão da história, ressuscitando, inclusive o Ken, personagem que havia morrido na versão da Malibu. E aí a revista deslancha. O sucesso é estrondoso, fazendo a editora investir cada vez mais na publicação, como passar do formato comic book para o formatinho e dobrar o seu número de páginas, das 24 iniciais para 48, com capa dupla! Isso aconteceu a partir da edição 14.
CAPA DO NUMERO 4, A PRIMEIRA COM PRODUÇÃO NACIONAL.


A revista movimentou um grande número de artistas brasileiros, que participaram da produção, como os já citados acima e mais: Lilian Mitsunaga, Neide Harue, Douglas Alves, Silvio Spotti, Alvaro Omine, Sonia Uemura, Noriatsu Yoshikawa, Rodrigo de Góes e este que vos escreve.
Depois da edição 16, entraria a minissérie AKUMA, a primeira escrita pelo novo editor, Rodrigo de Góes. Porém aconteceram vários problemas durante a produção, e a revista ficou fora de circulação durante um tempo. O colorista, meu amigo Noriatsu Yoshikawa, então contratado da ABRIL, estava atrasado com a colorização. A solução encontrada, foi entrar com outra história, até que a produção desta se concluísse. Aí, eu sou convidado a entrar na revista e faço a minha estreia no número 17, com novo formato (americano), colorizando a historia CASSINO, de Rodrigo de Góes, uma incursão dos personagens no universo da espionagem, bem ao estilo de James Bond.
CAPA DO NUMERO 17, MINHA ESTREIA NA REVISTA COMO COLORISTA
Colorizei a edição inteira e participei da seguinte também (número 18), trabalhando em cima dos belíssimos desenhos do meu amigo Arthur Garcia, com a competente arte final de Silvio Spotti. Com a saída de Noriatsu da revista, acabei concluindo a minissérie em três edições AKUMA, fazendo a última delas. Assim, na edição 19, finalmente chega as bancas a primeira parte de AKUMA, introduzindo novos personagens, em uma história simplesmente eletrizante.
CAPA DO NUMERO 18. TODAS AS CAPAS E PAGINAS PINTADAS Á MÃO, COM ECOLINE (AQUARELA LÍQUIDA)

Com a chegada do número 20 nas bancas, uma triste notícia: a revista seria cancelada. Até hoje, naõ sei realmente o motivo, pois ela vendia bem. Com certeza, problemas contratuais, impediram os leitores de conhecerem o final da saga de AKUMA, que sairia no número 21, pintado por mim e nunca publicado. Fiz também a colorização do número 22, que permanece também inédita. Algum tempo depois, STREET FIGHTER voltou as bancas pela Editora TRAMA, retomando os personagens que apareceram na saga de AKUMA, em uma nova minissérie, escrita por Marcelo Cassaro, desenhada pela Erica Awano (Holy Avenger) e colorizada por Wagner Fukuhara. Mas nem de longe fez o sucesso que a série da ESCALA fez durante três anos, um feito para uma revista brasileira, mesmo que utilizando personagens de fora. É o trabalho preferido do grande Alexandre Nagado, sem dúvida nenhuma, um dos grandes responsáveis pelo sucesso da revista, criador de grandes e emocionantes sagas. Trabalho preferido também do mestre Arthur Garcia, desenhista da série, brilhante, com suas capas duplas, diagramação dos quadros arrojada, e cenas de tirar o fôlego. E inesquecível para mim, que entrei no finalzinho, fazendo apenas 4 edições (só saíram duas, nas bancas), mas tenho um orgulho enorme de ter participado desse grande gibi.

CAPA INÉDITA DA EDIÇÃO 21, COM A CONCLUSÃO DE "AKUMA".