segunda-feira, 2 de julho de 2012

24º TROFÉU HQMIX - UMA NOITE MEMORÁVEL!



Serginho Groisman, apresentador e Marcelo Alencar, presidente do HQ MIX 

Pela primeira vez em toda a sua história, a cerimônia de entrega do TROFÉU HQMIX, aconteceu em um sábado e em um horário bastante interessante: 17 horas, o que ainda permitiu aos presentes, continuar desfrutando da noite de sábado em outro local, já que a festa terminou as 20 horas. Pra mim, e acredito que pra muita gente também, não foi necessário. Talvez, sim, continuar o papo com grandes amigos que reencontrei, e mesmo assim o fizemos, mas nas próprias dependências do Sesc Pompéia, afinal, já passava das 22 horas quando saímos de lá!!!
O fato é que o TROFÉU HQ MIX caminha para a sua excelência. Mérito da comissão organizadora, presidida pelo querido amigo Marcelo Alencar. Ano após ano, aparando as arestas, procurando o local ideal (passamos por um teatro que praticamente nos "expulsava", assim que a premiação terminava, e passamos por uma choperia, onde não se ouvia sequer o nome do premiado, tampouco seus agradecimentos, pois não se toma chopp com os amigos em silêncio...), chegamos ao teatro do Sesc Pompéia. Que ainda não é o ideal, pois o desconforto das cadeiras e sua plateia dividida pelo palco (eu sei, Lina Bo Bardi tentou inovar, mas...), exigiu uma ginástica do Serginho Groismann e dos premiados, que viravam o pescoço para uma plateia e depois para a outra em seus discursos e agradecimentos. Porém isso não tira o brilho de uma noite memorável, onde o grande homenageado foi o meu grande amigo, Primaggio Mantovi, cujo personagem Sacarrolha, materializou-se na estatueta do ano. Aliás, deve-se destacar sempre o brilhante trabalho de Olintho Tahara, que a cada ano se supera! E pensar que em alguns anos atrás o prêmio foi uma pizza!!! Mas isso já é outra história. Eu sei porque desde a sua criação, fui em quase todos os eventos do HQ MIX. Apóio e sempre apoiarei qualquer manifestação de valorização de uma classe artística, de um mercado de trabalho. Também contribuo com o meu voto, procurando analisar o trabalhos dos indicados e se possível até indicar outros que não estão na cédula. Também vou ao Angelo Agostini. O público deve comparecer, os artistas devem comparecer, não só quando são indicados ou premiados. O que se vê nessa noite é uma franca representação do que se tem feito de melhor nas artes gráficas brasileiras.
Ver e aplaudir Marcatti, recebendo o título de Grande Mestre das HQS (merecidíssimo!), esse cara que me incentivou a trabalhar com quadrinhos, lá em 1982, quando me convidou pra ir até a sua casa e conhecer a sua já lendária impressora Rex Rotary!
Assistir a bela homenagem feita  a Mauro Martinez dos Prazeres, falecido recentemente, pelos seus companheiros de trabalho, Toninho Mendes, Leandro Luigi Del Manto e Douglas Quintas Reis, além de seu filho.
Aplaudir o Primo (Primaggio Mantovi) que de tão emocionado não sabia bem o que dizer, mas não importa, pois da plateia podíamos sentir o seu coração pulsando de felicidade!
Se emocionar com a declaração e agradecimento pela parceria de irmãos, como foi o belo discurso de  Vítor Cafaggi, para sua irmã Lu Cafaggi.
E finalmente o reencontro e contato com amigos queridos e as vezes distantes, não por querer, mas por  essa nossa correria diária em busca de um lugar ao sol, o papo fica sempre para segundo plano.
Foi bom rever a todos. E isso o HQ MIX nos proporciona. E também saí com mais 20 cards para a minha coleção. UAU! Só ganha quem vai.
Então no próximo vá! Você só tem a ganhar...não só em cards, mas em cultura, em conhecimento, em oportunidades.

Primaggio Mantovi recebendo merecida homenagem


O palhacinho Sacarrolha vira troféu

Mauricio de Sousa recebe troféu das mãos de Sonia Luyten

E discursa ao lado de Sidney Gusman e suas gêmeas


Marcatti, Grande Mestre

Homenagem a Mauro Martinez dos Prazeres



Leandro Luigi Del Manto (Devir) lembrando sua parceria com Mauro Martinez dos Prazeres



Laerte recebendo mais um prêmio



Grandes amigos. Destaque para Lilian Mitsunaga.



Fábio Moon e Gabriel Bá



André Diniz e seu excelente Morro da Favela



O editor da revista MUNDO DOS SUPER HERÓIS, Manoel de Souza, recebendo o
prêmio junto aos colegas de redação



Reencontro com o desenhista Aluir Amâncio



Eu e Primo, e a edição comemorativa de 40 anos do Sacarrolha nas mãos



Grandes amigos. Da esquerda para a direita: Altemar Domingos, Tomaz Edson, Denise Ortega, Fernando Ventura, José Wilson Magalhães e Aparecido Norberto. Boa parte, começou nos Estúdios Ely Barbosa, como eu.





sábado, 9 de junho de 2012

MERCADO DE QUADRINHOS NO BRASIL: ILUSÃO OU REALIDADE?


imagem original do site AMBROSIA. http://www.ambrosia.com.br/


Fui ao SPCON, evento realizado em São Paulo para promover a chegada do "reboot" da DC Comics ao Brasil, chamado de OS NOVOS 52. Muito bem organizado, com palestras interessantes de nossos artistas brazucas que atuam no mercado americano, o evento reuniu uma boa parcela de fãs e leitores dos personagens mais conhecidos do planeta. Nada comparado ao que eu vi em Nova York no ano passado, quando estive no NEW YORK COMIC CON, bem na época do lançamento do mesmo evento da DC.
Eles tem um mercado de quadrinhos fortíssimo, apoiado em personagens criados a 40 50, 60 anos atrás e que se tornaram franquias. Que não envelhecem. Quadrinho lá é indústria. Liderada por duas grandes editoras, MARVEL e DC, ela emprega roteiristas, desenhistas, arte finalistas, coloristas, editores, capistas, e um sem número de pessoas que trabalham internamente nas editoras.
Voltando ao SPCON, lá estávamos nós aplaudindo e saudando nossos artistas que fazem sucesso lá fora. Aplaudindo o mercado americano. E eu observo aqueles jovens vibrando, com um brilho no olhar, com aquela gana e vontade de fazer hqs para eles. Parece ser a única saída para quem quer trabalhar com quadrinhos, pois não temos mercado por aqui. Não temos uma indústria. Já tivemos algo parecido, em outros tempos. Hoje não mais.



COMBO RANGERS, hq de Fábio Yabu, fez sucesso em revistas publicadas pela JBC e PANINI, mas mesmo assim não impediu o afastamento de seu autor do mercado de quadrinhos. Partiu para a literatura infantil, lançando a série PRINCESAS DO MAR, que já virou desenho animado exportado para vários países e originou a criação de vários produtos com suas personagens.

Alguns dizem por aí que o mercado de hqs no Brasil está em expansão. De que nunca tivemos tantos títulos e uma produção tão intensa. Livrarias abrem espaços para hqs. O governo comprando hqs para distribuir nas escolas e bibliotecas. Novos autores, temas diversos. Mas não é indústria. Não faz com que nossos artistas possam viver só de quadrinhos, que é o sonho de todo mundo. Um álbum de hq exposto na livraria, com uma tiragem de cinco mil exemplares, emprega quantos artistas? No máximo há o autor/roteirista e o desenhista, ás vezes com o auxílio de um arte finalista. E também o colorista, quando a verba destinada a publicação de tal obra permita uma impressão a quatro cores, o que muitas vezes não é possível. Dois, três ou quatro artistas que ganham apenas UMA vez, pela produção de tal obra. Os royaltes da vendagem? Ora, divididos entre editora, autor e desenhista! Repassados a eles a cada seis meses. Pouco, a menos que sua hq tenha a vendagem de um Paulo Coelho, ou de um título do Padre Marcelo Rossi, cuja tiragem é de no mínimo trinta mil exemplares.
O modelo americano ainda é o que, a meu ver, funciona em termos de mercado. Essa é a minha opinião. Pega-se personagens, ícones, franquias de sucesso. Superman, Batman, X-Men. Coloca-se artistas talentosos para  trabalhar com esses personagens. Não em álbuns, que são vendidos em livrarias. São revistas mensais, que a cada número, traz o trabalho de cinco, seis, sete artistas. Somados a quantidade de revistas (a DC relançou 52 títulos no ano passado), temos uma indústria. De pessoas que vivem de quadrinhos. Trabalham só nisso. Pelo menos a maioria.
Mas e aqui no Brasil? O único que enxergou isso já nos anos 1970, foi o Maurício de Sousa. E emprega o modelo até hoje. Infelizmente é o único estúdio de quadrinhos existente no Brasil, com aproximadamente 250 pessoas apenas na sua sede, no bairro da Lapa, em São Paulo. Fora os colaboradores externos.
Nos anos 1970, 1980 e parte de 1990, nós tinhamos muitos artistas que viviam só de trabalhar com quadrinhos. A Editora Abril mantinha um grande número de profissionais contratados para desenhar histórias Disney, no seu lendário Estudio. Mantinha também o Departamento de Quadrinhos Nacionais, que produzia títulos próprios (Alegria, Os Trapalhões) e firmava parceria com estúdios externos para produzir títulos como Fofão, Turma da Fofura, Faustão, entre outros.
Na década de 1990, a Editora Globo fizera o mesmo, trabalhando com estúdios externos, que produziam títulos de sucesso como Turma do Arrepio, Revista da Xuxa, Sérgio Mallandro, Leandro e Leonardo, Chaves & Chapolim. Esses estúdios empregavam muitos artistas, tal e qual o modelo americano (Marvel e DC).
Uma análise dos tantos títulos que foram produzidos no Brasil nas últimas décadas, podemos ver que o gênero que mais foi bem aceito por aqui foi o INFANTIL. Mauricio de Sousa está aí para provar.



Lançada em 2004, a revista RONIN SOUL apresentava um trabalho de nível internacional e prometia vida longa, mas parou na segunda edição.


 Realmente super-heróis brasileiros nunca foram bem aceitos. E então, porque não voltamos a investir no gênero infantil? A Abril já deu o pontapé inicial, lançando um concurso e publicando três títulos de hqs bastante competentes, todos brasileiros: UFFO, Gemini 8 E Garoto Vivo. Precisamos fazer o nosso mercado voltar a ser indústria. Do jeito que está (álbuns em livrarias) não é indústria. Esses artistas produzem um álbum e depois voltam a ilustrar para publicidade, para livros e revistas, dar aulas, para se manter e pagar as contas. OK, esse mercado é fortíssimo, principalmente o de livros didáticos, este sim uma verdadeira indústria, mantida pelo governo que compra suas obras anualmente para distribuírem aos milhões de estudantes de todo o Brasil. Liderado por editoras como Ática/Scipione, Moderna, Saraiva e FTD, esse mercado emprega um grande número de profissionais internos e trabalha com muitos estúdios que produzem ilustrações para tais obras. Basta folhear um livro didático para encontrar trabalhos de artistas que passaram pelos quadrinhos. Mozart Couto, Rodval Matias, André Vazzios, Weberson Santiago, Jotah e Sany (lembram-se de Turma do Barulho?), Rogério Soud (grande desenhista dos Trapalhões na Abril), Natália Forcat, Carlos Avalone (criador do Carrapicho). Eles não se afastaram dos quadrinhos por vontade própria. Acredito que muitos adorariam trabalhar só com as hqs se tivessem como se manter fazendo isso.

TURMA DO BARULHO, lançada pela Editora Abril Jovem em 1996. Jotah e Sany, seus autores atuam hoje no mercado de livros didáticos e paradidáticos.

E o mercado de publicações independentes? Pior! Só faz quem realmente não pensa em ganhar dinheiro com isso e quer mostrar o seu trabalho. Admiro. É paixão pura. Quadrinhos muito bons são publicados dessa forma, infelizmente, alcançando um público pífio. Precisamos de apoio. Do Governo e principalmente das editoras e distribuidoras. Os editores precisam voltar a acreditar em nós e em nossos quadrinhos. Temos criações que podem sim, se tornar grandes franquias e gerar receita, tanto para as editoras, como para o mercado através de merchandising, mas, principalmente para seus artistas viverem só delas. Mas falta apoio e boa vontade dos editores de esperarem um certo tempo, para o personagem se firmar e garantir um público fiel, e não cancelar a revista já  no segundo número. Exemplo disso é Antonio Cedraz, que criou a excelente TURMA DO XAXADO, e disse em entrevista que chegou a mostrá-la para a Globo, na época da saída do Maurício para a Panini. Eles preferiram investir no Sítio do Picapau Amarelo. Que cumpriu o seu papel por um tempo, dando oportunidade a grandes artistas de trabalharem em seus três títulos mensais. Mas depois desistiram das hqs.


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Excelente iniciativa do editor Alexandre Lancaster, lançada em setembro de 2011 e ganhadora do HQ MIX em fevereiro último, a revista AÇÃO MAGAZINE abre espaço para o mangá produzido no Brasil. Prometia ser mensal, mas até agora sairam só duas edições. Será que ainda volta ao mercado?



DUNGEON CRAWLERS, minissérie nacional de Marcelo Cassaro, foi uma bela iniciativa do Estúdio Art&Comics (Mythos Editora), em publicar hq brasileira. Mas não houve continuidade. Seu desenhista Daniel HDR, hoje atua no mercado americano e seu colorista Ricardo Riamonde, parou de trabalhar com hqs. 

Quando vejo jovens aplaudindo e vibrando com o sucesso de nossos artistas que trabalham para a MARVEL e a DC, penso em quantos conseguirão realizar esse sonho, que mais parece o de um aspirante a jogador de futebol. É um funil, onde poucos conseguem. E não conseguindo, olham para cá e veêm um deserto de oportunidades. Não conseguem trabalhar com hq infantil e muito menos com outro gênero. É preciso que se saiba e conheça as dificuldades de se trabalhar com hqs por aqui. É preciso que as escolas de formação de desenhistas na área, mostrem também a nossa realidade de mercado, para que se formem profissionais conscientes, e aí sim, com preparo suficiente para enfrentar os percalços dessa profissão ao mesmo tempo tão apaixonante e tão difícil para nós.
Em tempo: Márcio Baraldi escreveu "O QUADRINHO NACIONAL ESTÁ DESPENCANDO!" um dos melhores artigos que já li sobre a situação dos quadrinhos no Brasil.
Leia em   http://www.bigorna.net/index.php?secao=artigos&id=1303946092

domingo, 22 de abril de 2012

UM BRASILEIRO EM GAME OF THRONES



Em 2011, estreou no canal HBO, a série GAME OF THRONES, baseada no best-seller AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO, sucesso mundial de autoria de George R. R. Martin, que já rendeu cinco volumes com mais de 15 milhões de exemplares vendidos. No Brasil é publicado pela editora LEYA. Com a estreia na tv, a obra ficou conhecida por um público bem maior, fez uma multidão de fãs (só nos EUA a série já foi vista por 4,2 milhões de espectadores) e passou a aparecer em outras mídias, como os quadrinhos. A iniciativa foi da editora americana DYNAMITE em parceria com a BANTAM BOOKS.


Capa alternativa de ALEX ROSS

Capa especial para o NEW YORK COMIC CON - Outubro de 2011

A série em quadrinhos A GAME OF THRONES, é uma maxissérie mensal em 24 edições de 29 páginas, que adapta o primeiro livro da saga. Foi lançada em setembro de 2011 e foi destaque em outubro durante a NEW YORK COMIC CON. A primeira edição fez tanto sucesso que teve uma segunda tiragem. Com adaptação de Daniel Abraham, desenhos de Tommy Patterson e capas de Mike S. Miller e do excelente Alex Ross, a série traz um dado interessante para nós: um colorista brasileiro. Sim, direto de Itu, interior de S. P., um rapaz de 39 anos, agenciado pelo estúdio IMPACTO do desenhista Klebs Junior, faz um trabalho que valoriza ainda mais o traço de Patterson, com uma paleta de cores equilibrada e de extremo bom gosto. Contando com um minucioso trabalho de pesquisa em cima da obra de Martin, o que se pode ver é uma adaptação fiel á obra. Os castelos e paisagens de Westeros são brilhantemente retratados pela equipe, que inclui nosso artista brazuca.

Conheçam agora IVAN NUNES, um brasileiro em A GAME OF THRONES!

Qual a sua formação?
Sou formado em Processamento de Dados mas a vontade de pintar e desenhar vinha desde pequeno o que acabou me direcionando para outro lado.

Conta pra gente como foi seu início de carreira e como vc chegou ao estúdio IMPACTO.
Como disse sempre gostei de arte e isso me levou diretamente aos quadrinhos. Na minha opinião, as histórias em quadrinhos englobam tudo o que você puder aprender em desenho e atualmente em pintura. Sempre trabalhei como desenhista artístico e como hobby tentava entrar no mercado de quadrinhos, aos poucos fui colorindo meus trabalhos pra ver o resultado final e quando percebi gostava mais de colorir do que desenhar (não! estou mentindo, as duas coisas são ótimas!), mas passei a me dedicar mais as cores e quando achei que estava num nível bom comecei a procurar alguém para me representar, foi quando encontrei a IMPACTO, encaminhei alguns trabalhos ao Klebs, ele achou que eu tinha potencial e estamos juntos no mercado americano há mais de 6 anos.




Quais foram seus trabalhos anteriores a A GAME OF THRONES?
Tenho muitos, a grande maioria pela Dynamite. Hoje a quantidade de comics que eu colori já passam de 90, sendo os principais, Army of Darkness (20 edições), Battlestar Galactica, Raise the Dead, Superpowers II, Meet the Bad Guys, Black Terror, Green Hornet (21 edições), Game of Thrones, Bionic man, além de várias edições one-shot e uma tonelada de capas (já chegam a 170).

Vc fez algum teste para a Dynamite antes de iniciar o seu trabalho na série?
Sim. Eu já conhecia os livros e quando esse teste caiu em minhas mãos tentei agarrar com unhas e dentes. Dentre os que o fizeram, foram escolhidos os três melhores e alguns ajustes solicitados diretamente por Daniel Abraham que procurava fidelidade absoluta aos detalhes do livro. Acabei conseguindo e isso foi muito bom.


Como é o processo de trabalho na série A GAME OF THRONES? Vc teve referências para criar as cores dos cenários/personagens? Assistir a série auxilia no seu trabalho de colorização?No início recebi as referências dos personagens principais, pois Abraham quer que os quadrinhos sejam fiéis em relação aos livros de George R.R. Martin. Principalmente cores de cabelos e olhos, cores de  algumas roupas relativas a cada reino, etc. O restante, como cenários e ambientes foi deixado à meu cargo mas para isso eu procuro referência nos livros que descrevem muitos dos cenários. Quanto à série da HBO, eu a uso para inspiração (eu adoro essa série) mas não para cores uma vez que ela não segue 100% o que é descrito nos livros.



Quais são seus artistas preferidos?
Me inspiro em vários mas sempre tentei ter o meu estilo, apesar dele variar de acordo com o desenhista que estou trabalhando. Por exemplo hoje trabalho simultaneamente em Game of Thrones e Bionic-Man. Se você ver as duas revistas os estilos de cor parecem muito diferentes. No caso do Jonathan Lau (Bionic man) já trabalho com seu traço há 3 anos
e sei o que ele gosta. Já Tommy Patterson (Game of Thrones) faz cenários mais indefinidos o que me dá mais margem para uma melhor ambientação. Mas voltando a pergunta, são eles Peter Steigerwald, Justin Ponsor, Marte Gracia, Kinsun Loh entre outros.

Vc trabalha sozinho? Além de trabalhar como colorista, vc ensina sua técnica tb?
Sim, trabalho. Nunca tentei ensinar, mas acredito que não seria muito bom nisso uma vez que trabalho mais com a prática e meus instintos. Na verdade acho que tenho muito a aprender antes de começar a ensinar.
Muitos artistas aqui no Brasil, tem que trabalhar em outras áreas, como publicidade, livros didáticos, storyboard, além das hqs. Dá para viver só de quadrinhos?
Atualmente eu vivo. E eu acho que um colorista pode viver ainda melhor nesse ramo, porque apesar de um desenhista ganhar mais, em geral ele consegue fazer uma revista por mês enquanto um bom colorista com prática pode colorir até três revistas. Logicamente que estamos falando do mercado internacional.

O lançamento de A GAME OF THRONES  foi no NYCC 2011. A série já está sendo publicada em vários países. Vc já esteve ou foi convidado a participar de convenções internacionais de hq?
 Não. E não ligo muito pra isso. Acho que o que eu preciso mostrar e o que eu quero que gostem é o meu trabalho de colorização.




Cena da série da HBO. Final da primeira temporada.
Na série em quadrinhos, ela acaba na edição 24.

Vc tem ou está participando de algum projeto de quadrinhos nacionais?
Não. Até porque acho que são poucos os que se arriscam em nosso País. Mas gostaria muito de que um dia pudéssemos ser reconhecidos por aqui pelo que fazemos aqui.

O que vc pode dizer para as pessoas que querem ser coloristas de hq?
Fazer hoje em dia o que se gosta é um privilégio para poucos, mas já li em algum lugar que se você trabalha com o que gosta então não precisará trabalhar um só dia em sua vida.
Se querem ser coloristas, dediquem-se a isso, procurem cursos de colorização de quadrinhos (isso lhe poupará muitos anos que você gastaria aprendendo sozinho), vejam muitos quadrinhos (na verdade estudem muitos quadrinhos). Imagine que você estivesse colorindo cada quadro daquela revista, se questione porque o colorista usou esta cor e não aquela em determinado local e principalmente treinem muito. Só a prática levará a perfeição. Não desgastem seu relacionamento com agentes e editores tentando fazer eles engolirem cores que nem mesmo você está satisfeito, seja autocrítico e só mostre seu portfolio quando você achar que já tem um nível razoável para ser reconhecido.




 Depois de entrevistá-lo via e-mail, ainda me bateu a curiosidade de saber mais sobre o seu dia-a-dia, e Ivan ainda me contou que acorda as 7 horas da manhã, e só pára quando termina as três páginas diárias de sua produção. Além de A GAME OF THRONES, ele está fazendo THE BIONIC MAN, outra adaptação da DYNAMITE, da série O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE DÓLARES, no traço de Jonathan Lau.
Para conhecerem um pouco mais sobre o trabalho de Ivan acesse:
<http://www.ivan-nes.deviantart.com>

O blog ALEARTE QUADRINHOS agradece a Ivan Nunes que inaugurou a nossa série de entrevistas.





Depois de um ano focando a produção de quadrinhos das décadas de 1980, 1990 e 2000 (que ainda vamos continuar) o blog agora inicia uma série de entrevistas focando o trabalho de artistas ainda pouco divulgados pela mídia, ou até bastante conhecidos, mas que aqui terão a oportunidade de mostrar uma outra faceta do seu trabalho, nos contando curiosidades, passagens engraçadas, casos e bastidores do mundo das hqs!

sexta-feira, 16 de março de 2012

AS TENTATIVAS DE RENOVAÇÃO DA HQ BRASILEIRA (ESCALA GRAPHIC TALENTS-2001)





Capa do número de estreia da série, com o MICO LEGAL, de Sérgio Morettini.

Em 2001, a Editora Escala lançou uma das mais significativas empreitadas em prol da renovação da hq brasileira. Ela convidava artistas novos ou veteranos a apresentarem seus personagens em uma revista, que deveria ser entregue absolutamente pronta para a editora (diagramada, colorida e letreirada). A eles caberia fazer a revisão final , lançar e distribuir para todo o Brasil, uma tiragem inicial de 30 mil exemplares. Caso as vendas dessa única edição, fossem satisfatórias, seria feito um contrato com o autor, para mais três edições. Depois, um contrato para mais dez, e assim por diante. Seriam lançadas duas edições por mês, ao custo de R$1,50 nas bancas.
Assim surgia GRAPHIC TALENTS, selo idealizado por Carlos Mann do Estúdio Mercado Editorial, tendo como editor o jornalista e também quadrinista Dario Chaves. Vale lembrar que esse era um dos estúdios que mais produzia revistas (principalmente de hqs) para a Escala. Funcionou inclusive durante um tempo, na antiga sede da própria editora na Casa Verde. Através desse selo o público de hqs pode conhecer novos personagens, retomar contato com outros mais antigos, conhecer e admirar novos e talentosos quadrinistas.
O número 1 trouxe ao público uma aposta acertada no gênero infantil. MICO LEGAL, de Sergio Morettini, apresentou uma linguagem leve, bem humorada, nos traços de um dos mais talentosos e versáteis desenhistas brasileiros. As aventuras de um mico leão dourado e seus amigos, sempre procurando defender a floresta onde moram, venderam entre 12 e 15 mil exemplares e permitiram a editora lançar mais três edições. Essa segunda fase viria com numeração própria, sem o selo da coleção. Eu tive a oportunidade de produzir os quatro números da série, entregando a revista pronta para a editora. Foi agraciada com o Troféu HQ MIX de melhor revista infantil de 2001 e eu ganhei o Troféu Angelo Agostini de melhor colorista pelo mesmo trabalho. O lançamento aconteceu em 11 de novembro de 2001, durante o 2º FEST COMIX, evento que já começava a movimentar fãs e aficionados por toda a cidade. Nesse mesmo evento foi lançado também o número 2 do GRAPHIC TALENTS, trazendo a personagem BETTY GRUPPY, de autoria de Maxx Figueiredo. Com uma proposta e um visual mais jovem, as histórias mostravam o dia-a dia da tresloucada personagem entre baladas, paqueras, TPMs e muitas confusões. Ela inclusive esteve presente no lançamento, em uma grande sacada de marketing feita pelo autor, que contratou uma atriz para interpretar a personagem, que circulou entre os presentes autografando os primeiros exemplares da revista.


Betty Grupy, a estrela do número 2.



O número três nos trouxe TRISTÃO de Estevão Ribeiro, com arte de Amauri Ploteixa. No estilo mangá, apresentava as aventuras do personagem-título que, depois de pertencer a um grupo de assassinos, passa para o lado do bem e investiga o sequestro da filha de um empresário na cidade de Vitória, ES.
O número quatro trouxe uma reunião de 16 cartunistas comandada por Rodnério Rosa. Intitulada TALEBANG, apresentava cartuns e charges de vários autores, como Bira, Alecrim, Rodrigo Rosa, Santiago entre outros, enfocando a guerra entre Estados Unidos e Afeganistão e seus desdobramentos, sempre com muita irreverência e bom humor.




O número 5 revelou-se uma grata surpresa. Apesar de já estar sendo distribuído pela Agência Estado para vários jornais do país, o grande público ainda não conhecia GRUMP, personagem do cartunista Américo
Orlandeli, ou simplesmente Orlandeli. Com uma boa dose de humor, em histórias engraçadíssimas a revista fez sucesso e ganhou inclusive o Troféu HQ MIX de melhor revista de humor de 2002. O autor continua fazendo sucesso e foi vencedor do Salão de Humor de Piracicaba em 2008, com a série de tiras SIC, publicada depois em livro pela CONRAD EDITORA.


O número 6, fazia mais uma incursão no gênero mangá. GAMEMON de autoria de Arthur Garcia, apresentava a história de Théo, um garoto que descobre uma carta mágica que pertencia ao seu avô. Através dessa carta, ele acaba invocando um monstrinho chamado Pingomon, e descobre também que seu pai abandonou a família para percorrer o mundo atrás das outras cartas mágicas. E resolve ir atrás dele. Sugeria uma continuação que não aconteceu. Convidado pelo autor, colorizei e letrerei a edição inteira e fiz assim minha segunda participação no selo.
O número 7, apresentou DÁLGOR, de autoria de Dario Chaves, editor do selo. Com desenhos de José Carlos Chicuta e cores de Renato Gomes e Alex Guimarães, mesclava elementos de ficção científica com ação e suspense.


O número 8 tirava da gaveta uma série criada na década de 1990 na Editora Nova Sampa. A TURMA DO BARNABÉ, de autoria de Franco de Rosa, fora concebida para ser uma franquia, que se desdobraria em uma série de outras publicações. Na época, apenas a revista de atividades foi lançada, ficando o gibi na gaveta, produzido por uma grande equipe formada por Mingo, Genival de Souza, Edil Araújo, Vanderlei Felipe e João Costa. Focava nas aventuras de uma turma que, vivendo no campo, se envolvia em situações bastante engraçadas.



ZÉ LOUQUINHO E URUBUNALDO foi o número 9, da série GRAPHIC TALENTS. Apresentava uma série mais voltada para o público adolescente, que curte skate, ciclismo, música e tudo mais. Criação de Wilson Gandolpho, de Araraquara.
O número 10 nos trouxe uma mangá cômico criado por Alexandra Teixeira e Henrique Magalhães. ZUZNA, era uma gênia não da lâmpada, mas sim do bule, que se envolvia em situações muito divertidas.
LELECO, criação de Antonio Lima, estrelou o n. 11 da série. Trazia para os quadrinhos o universo do futebol, enfocando as aventuras de um time formado por crianças. Antonio Lima apresentava então o seu primeiro trabalho autoral, depois de muitos anos atuando com arte-finalista de quadrinhos Disney.




VELTA, de Emir Ribeiro, era a edição de n. 12. Já conhecida do público que curte hq nacional, a voluptuosa heroína retornava com suas aventuras cheias de ação e muito charme. Na mesma época, era lançado também um álbum de luxo, vendido apenas em comic shops.
Criação de Raimundo Guimarães, ex-roteirista Disney, O GALO COSTA trouxe para o público no número 13, as aventuras hilariantes de um galo, que sendo detetive particular, se envolvia em diversas situações para resolver seus casos. Retornei ao GRAPHIC TALENTS pela terceira vez, colorindo e letreirando essa edição, que foi considerada uma das melhores do selo, sendo posteriormente republicada em almanaque.





O número 14 trouxe CARCEREIROS, uma trama de mistério e suspense. Criação de Nestablo Ramos Neto, com cores de Eduardo Miranda, apresentava a história de uma sociedade secreta de pessoas que podiam ver demônios andando entre nós. Com um desenho belíssimo e uma trama envolvente, fez com que muitos considerassem como sendo a melhor série apresentada pelo selo. O autor é hoje um dos grandes expoentes da nova safra de quadrinistas. Lançou com grande sucesso em 2009, o álbum ZOO, pela HQM Editora, premiado com o Troféu Bigorna de melhor álbum de aventuras. No ano seguinte, ZOO entra na lista do PNBE, sendo distribuído nas escolas por todo o Brasil. Participa também da revista LULUZINHA TEEN (Pixel-Ediouro) e do SESINHO (publicado pelo SESI), e está preparando o mangá POLE POSITION (sobre carros de corrida) e a volta de CARCEREIROS.


O n. 15 traz mamíferos da pré-história como personagens, na série OS PLEISTOCÊNICOS, de autoria da ilustradora Dadí, já publicados no jornal Correio Popular, de Campinas.
Para o n. 16, outra grata surpresa. LOBO GUARÁ, de autoria de Carlos Henry, arte de Elton Brunetti e cores de Gabriel Rocha, trazia um herói habitante da Amazônia que teve seus genes humanos misturados com o do animal que lhe dá o nome. Um trabalho altamente profissional que será republicado em 2012 pela editora Mobicomics especializada em quadrinhos para internet.


E quando a série atingia uma certa maturidade e alcançava um excelente nível de qualidade, vem o cancelamento. Apesar de toda a movimentação que ela provocou no mercado, fazendo com que artistas e criadores botassem a mão na massa para apresentar suas séries para avaliação, as vendas, que ficavam entre seis e dez mil exemplares, não sustentavam mais o grande investimento feito pela Escala em parceria com a distribuidora Fernando Chinaglia. Apenas o MICO LEGAL (número 1 da série) criado por Sérgio Morettini, conseguiu ultrapassar a barreira e lançar mais três edições. Com isso, projetos que já haviam sido entregues, ficaram na gaveta. Como a hq OSVALDO, criada por Edgar Guimarães e desenhada por Antonio Eder. Essa só chegou ao público em 2006, por iniciativa da editora Marca de Fantasia. Outra que ficou de fora foi CHICLEMAN, de André Almeida.


Capa da edição de OSVALDO, pela MARCA DE FANTASIA.

Para tentar resolver o problema, a ESCALA lançou tempos depois um almanaque, contendo algumas das edições que haviam ficado na fila para publicar e algumas reedições. Nesse almanaque, foi publicada na íntegra o que seria a edição 17 do selo: VISÕES DE CLAUDECIRO, do genial Marcatti. Apresentou também o que seria o numero 18: METEORO, de Roberto Guedes, uma excelente hq que, nos traços de Marcelo Borba, apresentava as aventuras de Ric Marinetti que se transformava no super-heroi METEORO para combater o crime. Republicou O GALO COSTA, entre histórias avulsas desenhadas por Mozart Couto e Flávio Colin. Um elenco realmente muito bom.


Capa do ALMANAQUE DE QUADRINHOS, com destaque para METEORO. Era o fim do selo GRAPHIC TALENTS.

E assim chegou ao fim uma das mais interessantes iniciativas em prol do quadrinho brasileiro. Infelizmente, nem o grande investimento feito pela ESCALA em parceria com a distribuidora FERNANDO CHINAGLIA, nem a criatividade de nossos artistas aventurando-se nos mais variados gêneros, permitiu a continuidade da série, ou melhor, o lançamento individual de algum título publicado, com periodicidade regular. Porém, o saldo é positivo. Revelou talentos (Nestablo Ramos, Orlandeli, Estevão Ribeiro, entre outros), ganhou prêmios (HQ MIX para MICO LEGAL e GRUMP) e incentivou artistas a se lançarem de forma independente. Em 2010, a Editora HQM tentou editar uma série nos moldes da GRAPHIC TALENTS. Foi a SÉRIE INFANTO-JUVENIL HQM, que também publicaria um título diferente a cada edição. Foram anunciados: SENNINHA, HISTÓRIAS DA BÍBLIA, XAXADO (Cedraz), PET (Nestablo Ramos), RAN (Salvador), MICO LEGAL (Morettini), METEORO (Roberto Guedes). Só saiu o número 1, com o SENNINHA. Cedraz lançou XAXADO E SUA TURMA em título próprio (4 edições) pela mesma editora. Só nos resta aguardar e torcer para alguma editora criar coragem e voltar a investir no quadrinho nacional de autor, e não só em adaptações de clássicos ou coisas do gênero, visando as compras governamentais. A Abril já está fazendo a sua parte lançando três títulos inéditos (GEMINI 8, UFFO e GAROTO VIVO), a um preço bastante interessante. Cada exemplar custa R$1,95. Porém hoje, para alcançar o público, não basta lançar só o gibi. O personagem tem que estar na internet, ter site, blog, ou portal. Tem que ter sua versão animada. Se possível na TV e na internet também. O autor tem que fazer muito barulho. Mas nossos heróis (não os personagens, mas os autores de hqs) não desistem. Ainda bem. Aguardem novidades.


Capa inédita do número 18 do GRAPHIC TALENTS que seria com o METEORO, de Roberto Guedes.

 
 
 
Algum tempo depois, Marcatti republicou de forma independente a hq VISÕES DE CLAUDECIRO, que deveria ser o número 17 do selo e que havia saído apenas no Almanaque. Pela sua editora PRO-C, com o título FÁBULAS DO ESCÁRNIO.