domingo, 26 de fevereiro de 2012

AS TENTATIVAS DE RENOVAÇÃO DA HQ BRASILEIRA ( EDITORA TRAMA - 1997)

OS QUATRO PRIMEIROS TÍTULOS LANÇADOS PELA TRAMA EM 1997.
TODAS PRODUÇÕES NACIONAIS.

Marcelo Cassaro já era um grande talento das hqs, quando em 1996 apresentou para a então novata Editora Trama, o projeto de uma revista de RPG (Role Playing Games). Tendo trabalhado nos Estúdios Mauricio de Sousa, na Abril Jovem (TRAPALHÕES, DIDI VOLTA PARA O FUTURO E AGENTE CÃOFIDENCIAL) e na Escala (STREET FIGHTER), era chegada a hora de editar uma revista sobre a febre daquela época, os jogos de interpretação. E assim surgiu a DRAGÃO BRASIL, na Trama, editora de propriedade de Ruy Pereira, que em 1991, foi um dos fundadores da Editora Escala, junto a Hercilio de Lourenzi. Para produzir a revista, Cassaro conseguiu reunir um grande número de ilustradores, muitos deles desconhecidos do grande público e que estavam mostrando seu trabalho em uma revista de grande circulação pela primeira vez: Márcio Alex Sunder, André Vazzios, Evandro Gregório, Marcelo Caribé, Rogério Vilela, entre outros. Fanático por hqs, Cassaro procurava sempre alternar matérias sobre RPG com quadrinhos, e com isso, fez da revista um grande sucesso, ofuscando inclusive a sua concorrente DRAGON MAGAZINE da major Abril.
Foi na revista que  Marcelo Cassaro, Rogério Saladino e J. M. Trevisan criaram o cenário de RPG TORMENTA, que apresentou ao público o Mundo de Arton, que futuramente seria cenário de várias hqs publicadas pela editora. Foi daí que originou-se a ideia: ora, se HQ e RPG tem tudo a ver, porque não lançar quadrinhos baseados nos RPGs e seus personagens? E assim acontecia uma grande revolução na  hq brasileira. Com carta branca da editora para aprovar e dirigir os projetos, Marcelo Cassaro comandou o trabalho e lançou várias minisséries (quase todas ao mesmo tempo), com um visual até então inédito no Brasil. A idéia era fazer hqs no estilo da Image Comics, tanto no estilo dos desenhos, quanto na colorização, já que a novata editora americana havia praticamente oficializado a pintura digital nas hqs.
O primeiro lançamento foi a minissérie GODLESS, baseada no RPG Arkanun de Marcelo Del Debbio, criação de Márcio Alex Sunder e William Shibuya, com desenhos do próprio Márcio, arte final de um certo Rodrigo Kings (o conhecido colorista Rod Reis, em início de carreira) e Edde Wagner, com colorização de um dos precursores do gênero no Brasil, Alexandre Jubran e letras de Miriam Tomi ( a excelente Lilian Mitsunaga, usando pseudônimo já que era contratada da Abril Jovem). Foi o trampolim para que Márcio Alex Sunder ficasse conhecido e tempos depois fosse trabalhar com hqs para os EUA.
Em seguida, foi lançada UFO TEAM, minissérie em 4 edições era baseada no RPG Invasão, de Marcelo Cassaro, desenhos e arte de Joe Prado (na época estreando nas hqs, e atualmente um dos melhores desenhistas da DC Comics, parceiro de Ivan Reis em Aquaman), cores de Jubran e Tatiana Bisson.


A TRAMA REALIZOU UM EVENTO NA GIBITECA HENFIL PARA LANÇAR SUAS REVISTAS.
DA ESQ. PARA A DIR: MÁRCIO ALEX SUNDER, ARTHUR GARCIA, ALEXANDRE NAGADO, ANDRÉ VAZZIOS, MARCELO CASSARO, MARCELO CARIBÉ E JOE PRADO. (REPRODUÇÃO DE FOTO PUBLICADA NO N. 1 DE BLUE FIGHTER).


ANÚNCIO DE LANÇAMENTO DA SÉRIE UFO TEAM. NOTEM  QUE A COLORIZAÇÃO POR COMPUTADOR, ERA DIVULGADA COMO NOVIDADE.

Com o bom desempenho das duas primeiras, a editora lança na sequência CAPITÃO NINJA, cujo personagem-título era o próprio alter ego de Cassaro. Minissérie em 3 edições, com arte de Marcelo Caribé, totalmente pintada á mão, utilizando várias técnicas.
Depois viria, BLUE FIGHTER, também em 3 edições. Uma fuga da editora do gênero RPG, para o mangá, cujo estilo começava a motivar artistas brasileiros. Criação de Alexandre Nagado, expert no assunto, desenhos de Arthur Garcia (que já se consagrava no gênero graças ao sucesso de STREET FIGHTER pela Escala). Um parênteses: fiz teste para colorizar BLUE FIGHTER e até fui aceito pelo autor, mas não passei pelo crivo do diretor de arte da Trama. Queria muito ter participado disso tudo. Enfim, as cores foram feitas pelo grande Rod Reis e também pelo Núcleo de Arte do professor Ismael dos Santos.


ANÚNCIO DE LANÇAMENTO DE BLUE FIGHTER. 1997


CAPA DO NÚMERO 1 DA SÉRIE LUA DOS DRAGÕES.

ANÚNCIO DE LANÇAMENTO DE LUA DOS DRAGÕES.

Em seguida chegou "LUA DOS DRAGÕES", intitulada pela editora como a maior e mais dramática saga dos quadrinhos nacionais. Em seis edições, na arte do genial André Vazzios, também colaborador da DRAGÃO BRASIL, trazia desenhos belíssimos finalizados a lápis, com riqueza de detalhes, recebendo por cima o colorido digital. Recebeu o troféu HQ MIX de melhor minissérie.


ASSIM É O VISUAL DE LUA DOS DRAGÕES.

Dessa fase, com exceção de GODLESS e BLUE FIGHTER, todos os outros títulos tinham roteiro e criação de Marcelo Cassaro.
Com um orçamento enxuto, muitas vezes Cassaro fazia diagramação, letras, e com isso conseguia  remunerar bem os seus colaboradores. Segundo ele, com uma verba que um editor usaria para produzir uma revista, ele fazia três, quatro títulos. Depois vieram edições menores e alguns tropeços. KILLBITE, em duas edições, criação de Cassaro e Joe Prado, com desenhos de Dino Gomes e Wagner Fukuhara nas cores. LILO, de Klebs Junior, com arte dele, Sam Hart nas cores e Luke Ross na capa, prometia sair em três edições, mas apenas o número 1 chegou ás bancas. A revista promovia também o lançamento do curso IMPACTO, de Klebs, Luke Ross, Fabio Laguna e Manny Clark, em parceria com a Trama, visando formar novos artistas para trabalharem para o exterior. Em seguida, dois títulos lançados em one-shot (única edição): PREDAKONN, escrita e desenhada pelo Marcelo Cassaro, com cores de Tatiana Bisson e Wagner Fukuhara e DRAGONESA, com arte de Evandro Gregório (mais conhecido hoje como Greg Tocchini, um grande desenhista, com trabalhos feitos para a Marvel e DC Comics).



A invasão nas bancas e comic shops das revistas, motivou a até então líder Abril Jovem a investir em produções nacionais do gênero. Ela quase conseguiu publicar PLANETAZUL, que saiu de forma independente em 1998, com o título de SPIRIT OF AMAZON. Criação de Orlando Paes Filho (Angus), desenhos de Rodrigo Pereira e colorização belíssima de Alexandre Jubran. Das cinco edições programadas, saíram só quatro, deixando a série sem conclusão. Mas continuou tentando, lançando em 1998, TERRA 1, minissérie em 4 edições, com argumento do editor-chefe de super-heróis da Abril, Sérgio Figueiredo, roteiro de David Campiti, desenhos de Carlos Mota (tornou-se depois um excelente desenhista dos personagens Disney) e cores novamente de Alexandre Jubran. Foi um fracasso de vendas, enterrando os outros projetos que viriam a seguir, como uma série sobre futebol, que seria desenhada por Klebs Junior.
Nos anos seguintes, com menor intensidade, a TRAMA continuou investindo em hq, porém publicando material produzido aqui com franquia internacional. MORTAL KOMBAT e STREET FIGHTER ZERO3, já publicados pela Escala, voltavam ás bancas. A primeira no traço de Eduardo Francisco e a segunda trazia a então estreante Erica Awano. Em 2000, surge também VICTORY, minissérie de Marcelo Cassaro, com roteiro de Petra Leão, desenhos de Eduardo Francisco e cores de Ricardo Riamonde.


CAPA DO ÚLTIMO NÚMERO DE HOLY AVENGER.

E aí surge nas páginas da DRAGÃO BRASIL, uma hq chamada HOLY AVENGER. Sem muita pretensão, as três primeiras aventuras de Lisandra, Sandro e Niele, foram publicadas nas edições 44 a 46 da DRAGÃO e no ano seguinte viraram revista mensal. A TRAMA diminuiu seus lançamentos e passou a se dedicar somente a edição mensal de HOLY AVENGER. Durante três anos com publicação ininterrupta e várias edições especiais, a série se tornou um dos maiores sucessos da história da hq brasileira. Pode-se dizer, que foi o primeiro mangá brasileiro a alcançar sucesso e atingir a marca inédita de 40 edições. As aventuras se passavam no Mundo de Arton, do RPG Tormenta e fizeram fãs pelo Brasil inteiro. Fãs que jogavam ou não RPG. Além do traço belíssimo de Erica Awano, a série teve cores de Ricardo Riamonde e Rodrigo Reis e um elenco de artistas formado por: André Vazzios, Petra Leão, Fran Elles Briggs, Denise Akemi, Greg Tocchini, Jae Woo. A maioria hoje abrilhantando as páginas da TURMA DA MÔNICA JOVEM. Ganhou todos os prêmios, de melhor revista seriada a melhor colorista para André Vazzios. É até agora a única série em quadrinhos brasileira a ganhar uma edição especial, contando os bastidores da criação, cenas avulsas, comentários dos envolvidos e  histórico de seus artistas. Coisa para fã e colecionador.

CAPA DO ARTBOOK DE HOLY AVENGER.

Com o fim de HOLY (e não poderia deixar de ser, já que, ao contrario das hqs americanas de super-heróis, os mangás sempre terminam)  a editora TRAMA agora rebatizada de TALISMÃ, devido ao homônimo com uma gravadora, publica outros títulos nacionais como a revista mix TSUNAMI (revelando novos talentos do mangá no Brasil) e apresenta a nova versão da minissérie VICTORY (já publicada em 2000), trazendo para o público brasileiro a versão que fora publicada pela Image Comics nos EUA, com o mesmo desenhista da primeira versão Eduardo Francisco e nova colorização de André Vazzios. Trouxe de volta ás bancas a série HOLY AVENGER em uma versão "remasterizada". Mas como tudo tem um fim, a editora TALISMÃ, mudou de nome novamente e parou de investir em quadrinhos e RPG. Marcelo Cassaro saiu e foi para a Mythos, fazer DUNGEON CRAWLERS, nova mini passada no mundo de Arton, com desenhos de Daniel HDR e cores de Ricardo Riamonde. Na mesma editora, relançou HOLY, como HOLY AVENGER RELOADED.


MARCELO CASSARO, CRIOU UM CENÁRIO DE RPG 100% BRASILEIRO, QUE RENDEU LIVROS, QUADRINHOS E SÉRIES. E CONTINUA FAZENDO SUCESSO.

A TRAMA/TALISMÃ fez história na hq brasileira. Fazia tempo que uma editora não investia tanto e com tanto fôlego em quadrinhos nacionais. Entre 1997 e 2005, com tantos títulos lançados, revelou grandes talentos que hoje estão aí trabalhando inclusive para o exterior. Hoje, em uma época em que os álbuns de hqs, vendidos em livrarias, parecem ser a única opção de uma boa parte das editoras de quadrinhos, sentimos falta e muita saudade de ver a banca abarrotada de gibis brasileiros. E sentimos  também a falta da ousadia e coragem de editores em investirem no nosso produto. Iniciativas como essa da TRAMA junto ao Marcelo Cassaro, foram sem dúvida, tentativas de renovação da hq brasileira. Na mesma época, outras também o fizeram,  como a ESCALA em 2001, com a série Graphic Talents. Mas isso é assunto para a próxima matéria.


ANÚNCIO DE VICTORY, PUBLICADA COM SUCESSO NOS EUA.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

AS TENTATIVAS DE RENOVAÇÃO DA HQ BRASILEIRA (EDITORA ABRIL - ANOS 1970)



Quando vemos uma atitude ousada como essa da Abril em voltar a investir em hqs nacionais (ver matéria anterior) nos lembramos que, em outras épocas ela já fez isso, com tanto entusiasmo e investimento como agora, e também que outras editoras o fizeram. Lá atrás, em 1974, a Abril lançava a revista CRÁS, publicação mix que apresentava novos personagens brasileiros. A ideia apresentada por Claudio de Souza, que foi um dos grandes editores de hqs da Abril, era apresentar um panorama da nova hq brasileira, dar espaço aos novos artistas e até lançar em revista própria os personagens que fizessem mais sucesso. Em seis edições, o público conheceu e curtiu grandes criações, verdadeiros clássicos hoje em dia:
KACTUS KID (Renato Canini) - Foi a grande revelação da revista, deste que é um dos maiores desenhistas do Brasil. As histórias do agente funerário Zeca Funesto que se transforma em KACTUS KID para conseguir "clientes"  fizeram e fazem sucesso até hoje. Infelizmente nunca foi lançada em revista própria.


SATANÉSIO (Ruy Perotti) - grande sucesso da revista, as histórias de um diabo desmoralizado sempre ás voltas com um anjo que insiste em protejê-lo fez tanto sucesso que foi lançado em título próprio, em quatro edições.
ZODIAKO (Jayme Cortez) - a obra máxima de Jayme Cortez estreou nas páginas da CRÁS, e logo foi publicada em álbum próprio pela Editora Saber. Em seguida saiu também na Itália e rendeu ao seu autor o Troféu O Tico-Tico.


SACARROLHA (Primaggio Mantovi) - Vencedor de um concurso (olha aí outra iniciativa em prol da hq brasileira) promovido em 1972 pela RGE (Rio Gráfica e Editora), foi publicado em título próprio (36 edições), e com a contratação de seu autor pela Abril, foi relançada dentro do título DIVERSÕES JUVENIS em quatro edições e passou a sair nas páginas da CRÁS.
Outros personagens da revista: BINGO (Paulo José), O PATO (Ciça), O LOBISOMEM (Julio e Herrero), ARAGÃO e POPOTO E TONELÉ (Cesar Sandoval), ONOFRE (Julio e Michio), entre outros.
Vale lembrar ainda que a CRÁS fazia parte da série DIVERSÕES JUVENIS, título que a cada edição mensal apresentava um personagem diferente, brasileiro ou estrangeiro, e partia da mesma premissa que, caso as vendas fossem muito boas, o personagem ganharia título próprio. Foi assim que LULUZINHA e BOLINHA foram lançadas em 1974. Nos anos seguintes saíram de suas páginas para ganhar alçar vôo solo, PERNALONGA, O PICA-PAU, OS JETOSNS e FRAJOLA E PIU-PIU. A Abril apostou na volta do PERERÊ (Ziraldo) em julho de 1975, publicou GABOLA (Ruy Perotti) em outubro de 1976 e apostou em CACÁ E SUA TURMA (Ely Barbosa) em fevereiro de 1977.




Em seguida, outro grande projeto da Abril, na tentativa de fortalecer o mercado de quadrinhos brasileiros, foi o PROJETO TIRAS, criado em 1979. Dirigido por Ruy Perotti e coordenado por Wagner Augusto, funcionava como os syndicates americanos, distribuindo tiras de personagens brasileiros por vários jornais do país. Para essa empreitada, Primaggio Mantovi lançou O VETERINÁRIO, Carlos Avalone apresentou o seu CARRAPICHO (lançada em título próprio nos anos 1980), Renato Canini apresentou o indiozinho TIBICA (publicado recentemente pela Saraiva) e Ruy Perotti trouxe para as tiras o SUGISMUNDO (sucesso em comercial de tv). O projeto durou pouco mas rendeu uma sobrevida para alguns artistas, que continuaram a publicar seus personagens em jornais, mesmo após a extinção do núcleo.
De lá para cá, a Abril lançou muitos títulos de hqs brasileiras. Mas foi se afastando dessa área, depois da extinção do estúdio Disney, e do mercado, que caiu drasticamente nos anos 1990. Até que surge agora, em 2010, com o PRÊMIO ABRIL DE PERSONAGENS, concurso criado para revelar novos talentos das hqs infantis, e que nos trouxe UFFO, e GAROTO VIVO, já nas bancas. Que o empenho e entusiasmo da Abril não diminua diante dos obstáculos de nosso mercado, que são muitos. Que continue a investir, trazendo novos artistas e personagens para um público que, além da TURMA DA MÔNICA, não conhece mais nada de quadrinho nacional, e que inspire outras a fazerem o mesmo e abrirem as portas para nossos artistas, como fez a EDITORA TRAMA, em 1997. Mas isso é assunto para a próxima matéria.

domingo, 1 de janeiro de 2012

GEMINI8, UFFO E GAROTO VIVO: 2012 COMEÇA COM RENOVAÇÃO

Renovação. É a palavra de ordem para 2012, pelo menos na Editora Abril, que nos surpreende beeeeem no finalzinho de 2011, com três novos títulos nas bancas. E o que é melhor: todos são produções nacionais. Dois deles, UFFO e Garoto Vivo, são respectivamente o primeiro e o segundo lugar do PRÊMIO ABRIL DE PERSONAGENS, concurso criado pela casa em 2010, com o intuito de revelar novos personagens infantis. Foi organizado pelo pessoal da Revista Recreio e contou com a parceria da ABPI-TV (Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão). UFFO é uma criação de Lucas Lima (da tira Nicolau e seus vizinhos) e Garoto Vivo é produzido pelo Estúdio Triboulet de Fabricio Pretti. Gemini 8 é uma criação da TV PINGUIM, que já tinha contrato com a Abril por conta da série Peixonauta, publicada no formato livro e em álbum de figurinhas. GEMINI 8 nos foi apresentado de modo inusitado. O número zero da revista, foi disponibilizado no site da revista Recreio, apresentando uma introdução á trama. Em outubro, saiu o número 1, que ficou poucos dias nas bancas (sorte que comprei a minha!) e em seguida foi recolhido. Ninguém deu explicação alguma. Inclusive na contracapa da mesma, era anunciada a revista UFFO para novembro. Também não aconteceu. Só no último dia 29 de dezembro, é que a revista voltou às bancas. Acompanhada das outras duas, a revista não era a mesma. Nova capa e conteúdo modificado. Para quem viu a edição que saiu em outubro, percebeu que a arte foi mudada. Primeiro, foi incluída na edição, a hq introdutória da internet. Segundo, os desenhos ganharam traço preto. A edição antiga, parecia um desenho animado quadrinizado. Tudo muito bonito, mas, efeitos e nuances nem sempre funcionam em tamanho reduzido e papel jornal.

Página da edição 1 de GEMINI 8, de outubro.


Mesma página, na "nova" edição 1, de dezembro. Traço preto nos desenhos e mudanças nos diálogos.

Ao que me parece, para esse "novo número 1", houve uma direção de arte de quem entende de quadrinhos. A colorização foi refeita, pelo excelente Fernando Ventura e equipe. E a revista saiu das mãos da equipe de Recreio e passou para as mãos da turma que cuida das revistas Disney. Opa, achamos os responsáveis.
Boa sorte para quem conseguiu comprar a edição de outubro, pois acabou ficando com DOIS números 1! Item de colecionador! Só não sei quem "pagou o pato" na editora, por deixar imprimir e distribuir uma edição, que, ao que me parece tinha problemas.
UFFO e GAROTO VIVO também são bem produzidos. Frutos do concurso criado pela editora, apresentam bons desenhos e roteiros e merecem uma espiada nas bancas, apesar das histórias serem as mesmas disponibilizadas na internet, para votação do público na época do concurso. Porém, não adianta só colocar nas bancas. É necessário uma ampla divulgação (a Abril tem força para isso), aparecer em outras mídias (tv, internet) e publicá-los com regularidade. Os três já tem website no portal da revista Recreio e também estão na revista impressa no formato tiras. Gemini 8 já tem versão animada para tv. Vamos aguardar a resposta do público. Com o apoio e divulgação da Recreio, pode dar bons resultados. È louvável a atitude da Abril em voltar a apostar nos quadrinhos nacionais infantis. Ela, que na década de 1970, apostou no então iniciante Maurício de Sousa e lançou tantos outros títulos ao longo das últimas décadas, parece voltar á velha forma de precursora do talento nacional.
Já houve várias tentativas por parte de algumas editoras em lançar novos personagens brasileiros. A mais recente foi em 2000, com a série GRAPHIC TALENTS da Editora Escala. Mas isso já é assunto para a próxima matéria.

domingo, 11 de dezembro de 2011

OS FILMES DA DISNEY, NO TRAÇO DOS BRASILEIROS


Página de abertura das hqs de "O Corcunda de Notre Dame" publicadas em 1997. Editora Abril Jovem

Muito se falou sobre o Estúdio Disney que a Editora Abril Jovem mantinha em sua sede em São Paulo e que começou a se moldar ainda na década de 1960, sob a batuta de Waldir Igayara de Souza, Jorge Kato e Claudio de Souza, e que encerrou suas atividades no início da década de 2000. Foram milhares de páginas de quadrinhos, criadas e produzidas no Brasil e exportadas para o mundo todo, tornando-a na década de 1990, a segunda maior produtora de material Disney do mundo.
Porém em 1997, a Abril Jovem conseguiu um fato inédito: obteve autorização para produzir as hqs especiais do novo desenho animado da Disney O Corcunda de Notre Dame, inspirado na obra de Victor Hugo. O convite foi feito a Primaggio Mantovi e Euclides Miyaura, respectivamente diretor e chefe de arte, durante a pré-estreia do filme em Los Angeles, onde foram como representantes da Abril Jovem. A responsabilidade era bem maior. Os trinta e tantos anos de criação de hqs com Donald, Mickey e companhia, deram aos artistas da Abril, prática e liberdade de criação, inclusive com a autorização para criar personagens secundários. Agora, porém a história era outra. Os clássicos que vinham sendo adaptados para o cinema desde "A Pequena Sereia" de 1991, (vieram depois, "A Bela e a Fera", "Aladim", "O Rei Leão", e "Pocahontas") traziam sempre uma nova galeria de personagens que precisavam ser adaptados para os quadrinhos, porém, não havia referências. Apenas o filme em questão. Tinha que partir do zero e se basear apenas no Style Guide e no filme. Mas a equipe da Disney fez bonito. Com uma equipe formada por Gerson Teixeira (hoje nos Estúdios MSP) nos roteiros, e Gustavo Machado, Paulo Borges e José Wilson Magalhães na arte, foram produzidas dez hqs, publicadas nas revistas Disney dos meses de maio e junho de 1997, e depois exportadas para países como Itália, Holanda e Espanha.


Hércules. produção brasileira de 1997. Abril Jovem

No ano seguinte, a Disney lança Hércules, baseado na mitologia grega, e novamente o Brasil é autorizado a criar e produzir as hqs originais. Os roteiros agora são do americano Bob Foster, com a inclusão do desenhista Aluir Amâncio na equipe. Foram 6 hqs publicadas no Almanaque Disney do número 321 a325, entre os anos de 1997 e 1998.


Capa da edição especial MULAN NOVAS AVENTURAS. Abril Jovem

A próxima produção da Disney foi Mulan, lançada em junho de 1998. Mulan mostrava uma corajosa jovem chinesa que se passava por um guerreiro no lugar de seu pai debilitado e ajudava o exército imperial chinês a expulsar os invasores hunos. A Abril novamente trabalha com os roteiros de Bob Foster, com os mesmos desenhistas e agora com a arte final de João Anselmo, e produz um total de 8 hqs, que foram publicadas de várias maneiras. Uma delas, foi através de um acordo com a rede McDonald´s, em que a Abril produziu uma série de quatro mini-revistinhas com 82 páginas. Lançadas em julho de 1998, as revistas traziam a história do filme, atividades e passatempos e uma hq da personagem, e eram distribuídas como brinde a quem comprava o McLanche Feliz. Viraram febre entre a garotada, ganharam comercial de tv e hoje são objeto de colecionador, já que é difícil encontrá-las por aí, nos sebos. Em outubro do mesmo ano, a Abril decide fazer uma edição especial com a personagem e lança nas bancas, Mulan Novas aventuras, republicando as mesmas hqs da promoção do McDonald´s. Apesar de ainda terem mais 4 histórias inéditas, que dariam mais uma edição, a editora resolve publicá-las no Almanaque Disney a partir do número 325. Eu, que havia pleiteado uma vaga de colorista em 1996, nas hqs do Corcunda, só consegui uma oportunidade aqui, em 1998. Colori 2 hqs da Mulan, A dança do cavalo e Boa ideia, que tanto foram publicadas na série do McDonald´s, quanto na revista especial de banca. As histórias também foram publicadas na extinta Disney Adventures, publicação americana, com sede em Nova York, que nas suas 104 páginas trazia matérias sobre os lançamentos da Disney no cinema e na tv, além de hqs desses personagens.


HQ publicada em MULAN NOVAS AVENTURAS. Desenhos de Gustavo Machado, arte final de Antonio Lima, cores minhas no Photoshop. Abril Jovem


Antes dos brasileiros, os americanos já permitiam dar crédito aos artistas Disney.
Página de DISNEY ADVENTURES, novembro de 1998. 


Primeira página do gibizinho MULAN, distribuído no McDonald´s, com a adaptação da mesma história acima.

Série de mini-revistas Disney, distribuídas no McDonalds, junto ao McLanche Feliz.

Em 1999, chega a vez de Tarzan, adaptação do clássico de Edgar Rice Burroughs, transformando-se em uma das melhores animações da Disney. A produção brasileira mais uma vez se faz presente, em Superalmanaque Disney, uma publicação especial no formato Veja, que a cada edição apresentava hqs e passatempos de determinada família de personagens. A edição de número 20, trazia Mistério na Selva, (hq de 20 páginas divididas em 5 partes), Saindo de casa, Que vença o melhor e A rainha da selva, essas com 8 páginas cada. Uma curiosidade: A rainha da selva, foi colorizada duas vezes. A primeira, por mim, cujo trabalho foi realizado nos computadores da Abril, já na sede da Marginal Pinheiros. Como de praxe, as hqs finalizadas eram todas enviadas aos estúdios Disney em Burbank, na Califórnia, para aprovação. As cores de A rainha da selva foram reprovadas. Fiquei extremamente desapontado, pois havia participado de Mistério na selva, junto com outros artistas e já havia colorizado Mulan. Porém, sabia do nível de exigência da Disney. Um segundo colorista foi designado para refazer o trabalho, que finalmente foi aprovado. O McDonald´s saiu novamente com uma série de 3 revistinhas contendo hqs produzidas no Brasil. Essa produção ainda não foi catalogada no INDUCKS, a base de dados mundial Disney, por isso se desconhece o nome de todos artistas envolvidos. Sabe-se porém que Marcelo Campos, um dos fundadores da Fábrica de Quadrinhos e diretor da Quanta Estúdio, fizera algumas histórias.
A partir do ano seguinte, com a redução drástica da produção brasileira de hqs, encerra-se também esse grande trabalho de adaptação dos filmes da Disney. Quem sabe agora, com os rumores de que a Abril pretende retomar a produção nacional de hqs do Zé Carioca, voltemos a ver nossos artistas produzindo Disney por aqui e exportando para o mundo todo, e não o contrário, como vemos agora. Artistas como Euclides Miyaura, que lá em 1996, começou tudo isso, hoje desenha para a Dinamarca e a Abril compra suas histórias para depois publicá-las aqui. Coisas de Brasil.

Página colorizada por mim para a hq MISTÉRIO NA SELVA, baseada no filme TARZAN. Abril Jovem.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

...E NÓS CHEGAMOS LÁ!!!

Acabo de voltar dos Estados Unidos, onde além de descansar, fui conhecer o NEW YORK COMIC CON, um dos maiores eventos de cultura pop do mundo! E fiquei muito feliz com a presença de vários desenhistas brasileiros na chamada "Artist Alley", ou beco dos artistas, local onde os fãs podem conhecer de perto os artistas de seus gibis preferidos. Essa história de brasileiros desenhando hqs de super-heróis para o exterior é antiga, e começou lá no fim dos anos 1980.

O COMEÇO
Voltando bastante no tempo, é bom ressaltar que o reconhecimento do talento de nossos quadrinhistas no exterior é antigo. Entre as décadas de 1980 e 1990, a Editora Abril representada por Waldir Ygaiara, Primaggio Mantovi, Julio de Andrade e Euclides Miyaura exportavam hqs Disney produzidas aqui no Brasil, para vários países, como Itália, Portugal, Espanha, Estados Unidos, entre outros. O Estúdio Disney brasileiro que funcionava dentro da Editora, foi considerado por muito tempo o segundo maior criador de material Disney do mundo. Além, claro, do nosso grande Maurício de Sousa, também reconhecido internacionalmente e exportando suas revistas para muitos países. No fim dos anos 1980, a Agência Commu, da Bélgica, já exportava o trabalho de brasileiros para a Europa, através da publicação de trabalhos autorais de Mozart Couto, Rodval Matias, Cézar Lobo, Júlio Emílio Braz e Arthur Garcia. Foi nessa época que Helcio de Carvalho e JP Martins, fundadores do Estúdio Art & Comics, foram para os EUA com um portfólio embaixo do braço, mostrar seus trabalhos de tradução e adaptação em mais de uma centena de títulos publicadas pela Abril Jovem. Levaram também portfólios de desenhistas brasileiros e após dois anos de tentativas conseguiram o que parecia impossível. Começaram vertendo para o inglês a série "Inferno", novo nome dado a "Paralelas" e Vôo Livre", trabalhos de Watson Portela publicados pela Press Editorial na década de 80. Mas foi o desenhista Marcelo Campos quem realmente abriu caminho, fazendo as 56 páginas mensais da série "DeathWorld" da Adventure Comics.


Reprodução de uma matéria de Franco de Rosa, sobre o início dos trabalhos para os EUA.
Folha da Tarde, 31/01/1991

Campos desenhava de madrugada e ainda trabalhava de dia na Abril Jovem. Além disso ainda assumiu a produção de outra série "Retief and ther War Lord", que deveria ser desenhada por Watson Portela e ele assumiu para não furar os prazos. Chegou a parar no hospital devido ao stress. E ainda era chamado de "vendido" pela turma daqui. Diziam que ele havia traído o mercado brasileiro. Sim, rolou um preconceito. Mas abriu caminho para toda uma geração.

Capa do n. 1 de DEATHWORLD, primeiro trabalho de Marcelo Campos para os EUA.

Página de Marcelo Campos em DEATHWORLD

Anúncio da minissérie PARANOIA, desenhada e pintada por Kipper, uma das primeiras
produções do Art & Comics para a Editora Eternity


Na sequência vieram " Paranóia" com desenhos pintados á mão por Henrique Kipper, "Force One" de Otávio Cariello, "Jungle Love" de Rene Michelleti e "Daddy Does Dallas" de Valdir Fernandes. Todas com capas de Hector Gomez Alísio. De 1990 até 1993, vários artistas da primeira geração de desenhistas agenciados, como Mike Deodato, Luke Ross, Roger Cruz, Klebs Junior, Manny Clark, Ed Benes, Fabio Laguna, e Joe Bennet fizeram trabalhos para editoras como Caos, Eclipse, Inovation, Continuity Comics, e alguns chegaram a levar calotes, coisa que artista brasileiro já estava acostumado.
Estranhou os nomes? Sim, para ingressar no mercado dos EUA, era preciso "americanizar" o nome. Daí Deodato Borges Filho, virou Mike Deodato. Luciano Queiroz virou Luke Ross, e Bene Nascimento, tornou-se Joe Bennett. Só para citar alguns. Isso devido ao fato de o artista brasileiro ser desacreditado lá fora. Achavam que eles não cumpririam os prazos, em uma época que não havia internet. Tudo era enviado por SEDEX.
Mas a partir de 1993, as grandes editoras começaram a se interessar pelo traço brasileiro. Marcelo Campos fez " Liga da Justiça" para a DC, Mike Deodato fez "Mulher Maravilha", Luke Ross fez "New Gods".  Com a internet, começa a ficar mais fácil o contato e surge a segunda geração de desenhistas, revelando o talento de Ivan Reis, Sam Hart, Adriana Melo, Edde Wagner, Eddy Barrows.
Em 1998, surge a Escola Impacto, do pioneiro Klebs Junior, que também começa a agenciar os seus melhores alunos e de lá até hoje revelou nomes como Renato Arlem, Wellington Alves, Carlos Paul, Wagner Reis, Carlos Rafael, Geraldo Borges entre tantos outros.
O surgimento da Quanta Academia de Artes, também colaborou revelando nomes como Renato Guedes, que atualmente desenha o Wolverine para a Marvel. Na década de 2000, começa a aparecer o trabalho dos desenhistas Joe Prado, Greg Tocchini, Daniel HDR, Sérgio Cariello, Eduardo Barros, Paulo Siqueira, Adriano Batista. Os arte finalistas: Oclair Albert e Ruy José. Os coloristas Hermes Tadeu (já falecido) e o excelente Rod Reis.
De 2005 para cá surge a chamada terceira geração, com nomes como Amilcar Pinna, José Wilson Magalhães, Wellington Alves, Diógenes Neves, Ig Guara.
Apesar de Marcelo Cassaro já ter publicado sua série de sucesso "Victory" pela Image Comics em 2003, foi na segunda metade da década que o mercado americano começou realmente a apreciar não só o desenho, mas também os roteiros, as idéias do artista brasileiro. Em 2005, Rafael Albuquerque lança "Crimeland" também pela Image. Rafael Grampá lança "Mesmo Delivery" pela Dark Horse. E chegamos aos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, com a excelente minissérie em dez edições "Daytripper" pela Vertigo/DC, ganhando os principais prêmios daqui e do exterior.

HOJE EM DIA´
Eddy Barrows mostrando seu trabalho nos EUA

Hoje temos também grandes coloristas trabalhando para os EUA. Além do já citado Rod Reis (Art & Comics), temos Ivan Nunes, Cris Peter, Vinicius Andrade, Débora Carita, Bruno Hang, Frank Martim, a maioria agenciada pelo Estudio Impacto.
Perseverança, disciplina, talento e profissionalismo. São as principais exigências para o aspirante a desenhista de hqs para os EUA. Mas convenhamos, depois que essa turma toda aí de cima, trabalhou e fez bonito, acredito que ficou um pouco mais fácil. Nós brasileiros, hoje dividimos as mesas de autógrafos com as feras do quadrinho mundial. Coisa impensável a vinte anos atrás.
Na última Comic Con, realizada no Javits Center em Nova York, pode-se constatar também a grandeza e a seriedade do mercado americano de quadrinhos. Um centro de convenções inteiro dedicados as hqs e seus derivados. Mais de 600 expositores, uma legião de fãs e os curiosos "cosplayers", pessoas que que se vestem como seu personagem predileto, utilizando roupas, armaduras e tudo mais. Um bom lugar para fazer contatos com editoras, artistas, ou simplesmente reencontrar amigos. Jornalistas de vários países fazendo a cobertura, inclusive do Brasil, pois esbarrei nos corredores com Manoel de Souza, editor da Mundo dos Super-Heróis, que estava lá cobrindo o evento.


Eu e meu amigo Nilton Sperb (que me hospedou por lá) entre cosplayers no NYCC


Na chamada "Artist Alley" pude literalmente "tietar" esses meus queridos companheiros do traço e vibrar com o sucesso deles, como mostram as fotos a seguir.
Eu, ao lado do colorista Rod Reis (Aquaman e tantos outros títulos).


Com Joe Prado (Aquaman)


Com Oclair Albert (Demon Knights)


Com o grande Daniel HDR



Com meu amigo Klebs Junior

Com tudo isso, só nos resta esperar os próximos capítulos dessa emocionante saga dos artistas brasileiros de hqs rumo ao reconhecimento internacional, provando que não somos campeões só no futebol, mas também na ponta do lápis e do pincel.

BIBLIOGRAFIA:
-Manoel de Souza. revista Mundo dos Super-Heróis, seção Entrevista, vários números. Editora Europa.
-Franco de Rosa. matéria Quadrinhistas do Brasil invadem os EUA. Folha da Tarde, 31/01/1991.


domingo, 9 de outubro de 2011

I ENCONTRO ESTÚDIO ELY BARBOSA


Neste último sábado, dia 08 de outubro, um evento em São Paulo reuniu em uma só noite, diferentes gerações de artistas e colaboradores que trabalharam no já lendário ESTÚDIO ELY BARBOSA. A festa que começou ás escuras devido a falta de energia provocada pelo temporal que assolou a cidade no fim de tarde, contou com a presença de vários artistas do traço. O antigo sobrado da Av Indianópolis, 1337, que chamava atenção de quem passava, com sua fachada exibindo os coloridos e alegres personagens de Ely, hoje ostenta uma placa de aluga-se. O estúdio não existe mais. Mas ele reabriu nessa noite de 08 de outubro! E foi tomado pelas mesmas pessoas que fizeram desse lugar um dos mais fantásticos centros de criação de personagens, quadrinhos, livros, produtos, enfim, tudo que saía da mente inventiva e criativa do sr. Ely Rubens Barbosa. O sobrado ainda respira arte, pois, no mesmo endereço, na outra metade do sobrado funciona o Estúdio Plug & Play, de Otávio Barbosa, filho de Ely. E foi ali o palco do reencontro de pessoas como Bira Dantas, que trabalhou no Estúdio no início da década de 1980, desenhando o gibi OS TRAPALHÕES, hoje um clássico dos quadrinhos nacionais, que era produzido ali, sob a batuta de Ely Barbosa. Bira recem-chegado de uma viagem a Coréia, onde foi mostrar a força dos quadrinhos brasileiros, reencontrou seu amigo e mentor Eduardo Vetillo, este último grande desenhista de títulos como CHET, SPECTREMAN, URTIGÃO e claro, dos personagens de Ely.


Bira Dantas presenteia Eduardo Vetillo

Uma noite que contou também com a presença de Carlos Alberto Migliorin, que também fez OS TRAPALHÕES ali, mas que vem de uma carreira extensa, passando inclusive pelos Estúdios de MAURÍCIO DE SOUSA, na década de 1970.
Edson Parisotto, criador do belíssimo site de Ely Barbosa, que está no ar novamente, também compareceu para contar e rememorar histórias de um profissional que iniciou sua carreira lá no comecinho do Estúdio, no fim dos anos 1970, quando ainda era na Avenida Ceci.
Aparecido Norberto (Cidão), que começou ainda garoto no estúdio e hoje é um dos maiores desenhistas brasileiros, fez ali CACÁ E SUA TURMA, TURMA DA FOFURA, OS AMENDOINS e tantos outros passando depois pela DISNEY, EDITORA ABRIL e GLOBO.
José Wilson Magalhães, que começou quase junto comigo ali, e que hoje faz parte do seleto grupo de artistas brasileiros que trabalham para as grandes editoras dos EUA, tendo já realizado trabalhos como SUPERMAN e WOLWERINE.
Jose Wilson Magalhães (arte finalista do WOLWERINE) com sua esposa Carla e o filho Pedro

O encontro contou também com a presença de Tomaz Edson e Denise Ortega, do Estúdio GIBIOSFERA, que faz quadrinhos corporativos de qualidade e que já produziram os extintos títulos de Ziraldo na Editora Globo, e que começaram também ali, ela como roteirista e ele como arte finalista e letrista.
A festa foi comandada por Eliete Barbosa, que na década de 1980 ajudava o pai no estúdio, junto de Dona Thereza Barbosa, esposa de Ely, outra presença ilustre no evento. Thereza era o braço direito de Ely, cuidando da parte administrativa, para deixá-lo livre para suas criações. Eliete, cuidava de merchandising, contratos e eventos. Otávio Barbosa, trabalhava na arte, desenhando, colorindo, fazendo roteiros. Chegou tempos depois a dirigir a peça UM PASSEIO NO COMETA, com a então estreante atriz Ana Paula Arosio.
Da esq. para a direita: Thereza, Otávio, Eliete e eu.

E eu também estive presente para relembrar, contar fatos engraçados, reencontrar amigos e principalmente para agradecer pela oportunidade que me deram, lá no longínquo ano de 1986, onde eu comecei como office boy, e três meses depois já estreava como colorista na revista OS TRAPALHÕES. Era a realização de um sonho de um menino que era fã e leitor das revistas do CACÁ (daqueles que mandavam desenhos pelo correio) e estava então trabalhando naquilo que mais gostava. E depois ainda participei de TURMA DA FOFURA, O GORDO E CIA, PATRÍCIA, COLEÇÃO ALÔ AMIGUINHOS e tantos outros, sempre com a orientação do grande Ely Barbosa, que de outro plano, deve ter se divertido bastante vendo a nossa folia.
Ausências? Foram muitas. É preciso ainda reunir: Otávio Mesquita, Matilde Mastrangi, Mingo de Souza, Ademir Pontes, Arthur Garcia, Roberto Goiriz (que mandou recado, mas está no Paraguai), Carlos Cárcamo (atualmente no Chile), Sérgio Valezin, Danilo dos Santos, Paulo Salles, Sonia Uemura, Edde Wagner, Sergio Morettini, João Costa, Marinho Gomes, Sandro Cleuzo, Cleiton Cafeu, Claudio Callao, Tina Glória, Paulo Borges, Regiane Cledy, Tuta, Caê, Goiabinha, Claudio Corazza, Ernesto Bambini, Jorge Luis de Souza, Sueli Ortega, Flavio Ferb, Maria Tereza Maldonado, Fati Gomes, Eduardo Mascarenhas, Walter Caldeira, Messina Neto, Bene. E tantos outros. São muitos tenha certeza.
E  ainda que em pensamento vamos lembrar também de quem não está mais aqui, mas que também fez história no estúdio: Vera Tolaine, Vanderlei Feliciano, Genival de Souza, João Batista Queiroz, Moisés Reis, Ivan Saidenberg. Estes, também grandes artistas, que foram para outro plano.
O próximo encontro, marcado para o ano que vem, deverá trazer ainda mais pessoas para celebrar a vida e a obra deste grande criador que foi Ely Barbosa, que tantos talentos reuniu e formou. O artista se foi em janeiro de 2007, mas sua obra fica e se depender de todos citados aí em cima, ela será sempre lembrada em cada traço, em cada pincelada, em cada roteiro de nossos valiosos artistas.

Tomaz Edson, Cidão, Wilson e seu filho Pedro


Da esq. para a direita: Cidão, Carlos Alberto Migliorin, Edson Parisotto, Alexandre Silva, Bira Dantas e Eduardo Vetillo.


Denise Ortega e Tomaz Edson, do Estúdio GIBIOSFERA